Como rever valores e ideias de forma positiva no isolamento social

Pessoas que se sentem aptas podem usar o tempo em casa para repensar valores (Foto: Getty Creative)

Há pouco mais de duas semanas em quarentena pelo coronavírus - e com a possibilidade sempre presente desse tempo em isolamento ser prolongado -, começa a parecer complicado manter o pensamento positivo e a esperança de que dias melhores virão. 

Por mais que o estado de alerta seja necessário para evitar a disseminação da CODIV-19, esse também pode ser momento mais propício para buscar uma nova perspectiva sobre tudo - o que nos leva de volta a tentar ver o lado bom, até mesmo, de uma quarentena. 

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Siga o Yahoo Vida e Estilo no InstagramFacebook e Twitter, e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário

Para Luciana Machado, co-fundadora do coletivo Base, focado em bem-estar e autoconhecimento, esse período de mobilização global vai mudar a forma como nos relacionamos com nós mesmos, com os outros e com o mundo. "Decisões que, normalmente, levariam anos para serem tomadas, precisaram ser postas em prática de maneira criativa e emergencial. Hábitos enraizados foram revistos, tendo sido criadas, da noite para o dia, novas formas de se trabalhar, educar, se exercitar e interagir com os amigos", explica. 

De acordo com ela, perdemos momentaneamente o contato físico, mas, por outro lado, percebemos que estamos todos conectados e que a qualidade das nossas relações está ancorada na confiança, na empatia e na dedicação que damos à elas, independentemente da distância. "O isolamento nos tirou do piloto automático e nos garantiu a pausa que precisávamos para refletir, repensar nossos hábitos, relações e, talvez, até tirar projetos que há anos estavam no papel", continua.

Até por isso, Luciana explica que essa é uma fase muito propícia para rever valores e ideias que você sempre carregou. Por mais que a confusão e o medo pareçam tomar conta de boa parte dos nossos dias, podemos revertê-los em auto-reflexão. 

Leia também

"Nesse momento, o autoconhecimento é uma ferramenta poderosa para que possamos realizar esse mergulho interno, identificar nossos dons, ativar a nossa potência e, com sorte, colocá-la a favor da humanidade", explica. "Com o amadurecimento individual e coletivo, e o surgimento de novas formas de se relacionar, vão nascer também novas oportunidades."

Isso é fácil de observar: timeline à fora, o que mais vemos é uma reavaliação daquilo que consumimos e do que produzimos. O resultado pode vir a ser uma economia mais sustável e consciente, principalmente com o fortalecimento de marcas locais e pequenos produtores. 

No entanto, é sempre muito importante ter cautela nesses momentos de reflexão. Segundo a psicóloga Daniela Faertes, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais, é preciso considerar o estado emocional de cada um antes de incentivar uma "viagem interna", como ela chama. 

"Pessoas com sintomas depressivos, questões voltadas para autodesvalorização ou que possuem o sentimento frequente de que não estão dando conta, são mais beneficiadas em olhar para fora e não para dentro", alerta.

Basicamente, essa revisão é indicada para aquelas pessoas que conseguiram se adaptar a esse momento e que mantém uma estabilidade emocional. Ao contrário, aqueles que estão com dificuldades podem entrar em contato com questões difíceis de lidar, como porque é tão difícil estar com a família ou em casal, e isso pode dar abertura para outras questões, como uma possível separação, insatisfação com o trabalho e gerar uma tristeza difícil de administrar. 

Ao mesmo tempo, Vanessa Nakamura, também do coletivo Base, comenta que a fase de distanciamento social é interessante para identificarmos tudo o que não é sustentável em nossas vidas. 

"O tempo não é mais uma desculpa para nos escondermos atrás daquilo que não realizamos. É um chamado para agirmos, para assumirmos as responsabilidades das nossas vidas em todos os aspectos. Essa experiência impacta diretamente as nossas ações e, por isso, nos tornaremos mais protagonistas e menos espectadores", reflete ela. 

De meditação à escrever um diário ou cozinhar, existem muitas formas de buscar olhar para si mesmo (Foto: Getty Images)

Como repensar valores na prática

 Antes de mais nada, vale lembrar que não existe obrigação alguma em rever os seus valores ou ideias durante um período conturbado. Para Daniela, se as pessoas conseguirem passar por esse momento com o mínimo de prejuízos, já é o suficiente. 

Em segundo lugar, a psicóloga diz que aqueles que se sentem preparados para fazer essa revisão interna podem começar pensando em como gostariam de retomar atividades que foram cerceadas pela quarentena, como as convivências sociais e o próprio trabalho

Já Luciana aconselha coragem e o estabelecimento de um plano de ação. "A boa notícia é que não há um caminho único, existem inúmeras ferramentas para desbravá-lo e você só vai ter que descobrir aquele que ressoa mais com você. Pode ser por meio da meditação, da terapia, da escrita, do yoga ou até da culinária - o importante é que leve à reflexão", diz ela.

O objetivo, aqui, é ampliar o olhar e a consciência, resgatando a autenticidade de cada um e ativando potencialidades individuais. "Use esse tempo de isolamento para alimentar o seu corpo, mente e espírito com o que te faz feliz e transforme o universo ao seu redor", continua.  

Outro ponto interessante é buscar adotar hábitos que, antes, eram difíceis de colocar na rotina. Seja alguns minutos de meditação pela manhã, exercícios físicos feitos na sala de casa ou reservar algumas horas para ficar longe das telas e ler um livro, novas atitudes estão surgindo e vão garantir a manutenção desse auto-olhar mesmo quanto a quarentena acabar. "Esse período nos propicia a desenvolver novos hábitos. Vamos sair dessa mais conectados com aquilo que nos é essencial", diz Vanessa.  

O consenso, aliás, tem a ver com resiliência. Além de perceberem que não sairemos dessa experiência da mesma maneira que entramos, sentimos na pele a capacidade de adaptação das pessoas e a sua clareza para mudar o foco e buscar soluções. 

"O curioso que estou vendo nas consultas é que aqueles que estavam em situação mais frágeis e difíceis estão mais adaptados do que aqueles que estavam bem na própria rotina", diz Daniela. "Pessoas mais vulneráveis estão carregando uma característica de resiliência que nem mesmo elas imaginavam que teriam. Isso é interessante de levar para o positivo. Como somos capazes de sermos adaptáveis às situações por mais difíceis que sejam."  

É sempre essencial também não romantizarmos períodos de crise e de isolamento, como o que vivemos agora, especialmente se considerarmos que existem pessoas em situações de risco e tantas outras que estão passando por uma série de dificuldades neste momento. Isso sem contar as situações de privilégio que levam a esse olhar diferenciado da rotina e do mundo interno. 

Porém, aos que conseguem, é interessante tentar ao máximo usar esse momento para gerar mudanças positivas em si mesmo, e que, com certeza, vão reverberar nos seus entornos. 

"Hoje, conseguimos enxergar a nós mesmos e ao outro com verdadeira empatia. Vemos por aí empresas redefinindo suas produções para atender aos hospitais, pessoas compartilhando suas atividades para promover o bem-estar coletivo, os formatos de trabalho sendo revistos. É a forma como consumimos e produzimos (bens e serviços) que está sendo inteiramente revista. Tudo o que já não era sustentável cai por terra. É o início de uma nova era: mais humana, mais sustentável e mais colaborativa", reflete Vanessa.