'Laços de Família' envelheceu? Especialistas discutem machismo e assédio na trama

KARINA MATIAS
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A veterinária Cínthia (Helena Ranaldi) está sozinha na casa de Pedro (José Mayer), que fica dentro do haras de Alma (Marieta Severo), quando ele a surpreende no local. Em "Laços de Família", novela de Manoel Carlos de 2000, que é atualmente reprisada nas tardes da Globo, os personagens vivem um relacionamento conturbado. Em determinado momento, Pedro, que faz um tipo machão e mal-humorado, diz para Cínthia: "Gosto desse seu jeito. No fundo, eu gosto: arredia, arisca". Ela se esquiva, pede para abrir a porta da casa, que se supõe ter sido trancada por ele. Ele prossegue: "Mesmo gostando desse seu jeito, chegou a hora de acabar com esse joguinho." Ela pede, novamente, para ele abrir a porta. Pedro ignora e se aproxima. Ela o alerta: "Se você tocar em mim, vai se arrepender." Ele não se importa: "Me quer na mesma intensidade que eu te quero, só não admite isso, mas o jogo acabou", diz, guardando a chave no bolso. Depois de um corte para outro núcleo, a novela volta a exibir o casal, agora aos beijos. Após um curto período, ela o empurra e pede, mais uma vez, para ele deixá-la em paz. Pedro insiste e usa da força para jogá-la em cima de uma mesa. Eles voltam a se beijar, mas pouco tempo depois, ela tenta se livrar novamente dele. Vai para outro cômodo e pega um martelo para se defender. Após novos atritos, eles se beijam até serem interrompidos pela entrada de uma funcionária do haras. A cena foi exibida no dia 9 de novembro e, ainda que seja uma versão editada da original (em que há muito mais embate entre os personagens), que foi ao ar há 20 anos, causa desconforto em parcela dos telespectadores, especialmente, mulheres. Em tempos em que o assédio sexual é intensamente discutido e campanhas sobre o tema, como o "Não é Não" presente no Carnaval deste ano, ganham espaço nas ruas, a forma como o personagem de José Mayer é abordado não condiz mais com o momento atual. Não que fosse aceitável lá em 2000, ressalta Clarice Greco, doutora em comunicação pela USP (Universidade de São Paulo). "Eu tenho a sensação de que na época não é que podia, mas era uma discussão menos presente, a crítica a isso era menos presente", afirma. O jeito como é apresentado esse relacionamento, destaca ela, vai contra tudo o que o movimento feminista vem lutando nos últimos anos. Isso porque, explica Greco, romantiza "o beijo roubado" e situações que são agressivas para a mulher. "Fica ruim para o homem, porque muitas mulheres não acham esse comportamento legal. E fica ruim para a mulher, porque a personagem diz não, não, não, mas no fundo queria. E é justamente essa imagem que a gente está tentando mudar". É como se passasse a ideia que o homem realmente deve insistir para 'domar' uma mulher" -expressão usada por diversas vezes pelo personagem de José Mayer. Pior do que a situação deste núcleo, na visão dela, é outra apresentada na mesma novela, e que envolve uma situação de hierarquia: Danilo (Alexandre Borges), playboy bon vivant sustentado pela mulher, Alma, que dá em cima da empregada doméstica da família, Ritinha, no primeiro papel de destaque de Juliana Paes na TV. Em cena que foi ao ar no dia 27 de novembro, o personagem pergunta para a funcionária se ela advinha com quem ele sonhou. Ritinha acerta ao dizer que foi com ela, ao que ele afirma, tirando o roupão e ficando só de sunga: "Vem que o prêmio é sentar aqui, no colinho do doutor Danilo". A situação é interrompida pela chegada de Alma. O tom de piada que envolve toda a história entre os dois, para Clarice Greco e outros críticos de TV, é inaceitável em 2020. A situação se agrava com o desfecho do enredo, opina Nilson Xavier, autor do livro "Almanaque da Telenovela Brasileira". Grávida de gêmeos de Danilo, Ritinha morre no parto, e os bebês são criados por Alma, que perdoa a traição do marido. É como se a empregada sofresse um castigo por ter se envolvido com o patrão casado -já para ele, a vida segue inalterada e, como sempre, regada a muito champanhe. "Hoje em dia, é inaceitável esse tipo de fim, porque a Ritinha morreu para a Alma criar os filhos dela. E pior de tudo: o marido continuou galinha e dando em cima da outra empregada que apareceu lá. É muito absurdo, e já era na época em que a trama foi exibida a primeira vez", diz. Para Claudino Mayer, doutor em ciências da comunicação e especialista em teledramaturgia pela USP, a trama de Danilo e Ritinha até poderia continuar a existir se a novela fosse escrita hoje, mas teria que ser atualizada. A funcionária, por exemplo, poderia ser alertada por amigas que o patrão estava a assediando, o que levaria a denunciá-lo. O autor poderia ainda mostrar como isso se desenrolaria. A palavra de Ritinha seria levada em conta ou seria desacreditada? CANCELAR A NOVELA? Mas "Laços de Família" é uma obra que foi produzida há 20 anos e é inviável que ela seja regravada. Para Nilson Xavier, a discussão sobre temas como machismo, assédio, racismo e homofobia evoluíram nesse período e, por isso, a novela de Manoel Carlos ficou datada em alguns pontos. "Aos olhos de hoje, [a trama] tem uma narrativa que não é mais aceitável, mas apenas isso. É claro que para você poder curtir a novela, você precisa fechar os olhos para essas questões, mesmo porque não há mais como corrigir. E, além do mais, ela reflete um tempo", diz. Clarice Greco também é contra que se cancele ou anule a obra. Nem é a favor de cortar cenas, que podem prejudicar a narrativa, mas avalia que a Globo poderia tomar alguma iniciativa, por menor que fosse, para mostrar que está ciente dos problemas apresentados. Algo como o que a Disney fez recentemente ao adicionar avisos sobre conteúdo racista em vários dos filmes clássicos disponíveis em sua plataforma de streaming, que incluem títulos como "Peter Pan" e "Aristogatas". "Sendo uma reprise, qualquer leve retratação eu consideraria um passo não para anular a obra, mas para que haja ressalvas dessa temporalidade, e com essa contextualização. Uma legendinha que fosse reforçaria o momento de conscientização, seria um respeito a esses anos de luta feminista", afirma Greco. Para ela, ainda que uma parcela dos telespectadores veja assédio nas cenas de Pedro e Cínthia ou de Danilo e Alma, outra parcela não se inteirou desse debate e não vê nada de errado nesses enredos. Por isso, afirma ela, um posicionamento da empresa ajudaria nessa reflexão. "Acho que em algum momento a emissora poderia dar alguma palavrinha a esse respeito, porque a Globo tem tentado se mostrar engajada nesses assuntos, pelo menos o departamento de teledramaturgia", afirma. Além disso, a própria empresa tem sido cobrada por uma postura mais assertiva em casos de assédio que ocorrem dentro da Globo. O mais recente deles envolve o ator e diretor Marcius Melhem, que é acusado por Dani Calabresa e outras mulheres de assédio sexual e moral enquanto atuava como coordenador de humor na emissora. Ele nega. O próprio José Mayer, que representou tipos semelhantes ao de Pedro em outras tramas, também deixou a Globo após ser acusado de ter abusado de uma figurinista nos bastidores da emissora, em 2017, durante a novela "A Lei do Amor". Na ocasião, o ator se desculpou. "Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas", dizia trecho de carta divulgada pelo ator na época. Procurada pelo reportagem, a Globo não se manifestou sobre os problemas apontados pelos críticos na reprise de "Laços de Família". AUDIÊNCIA A audiência da reprise da novela de Manoel Carlos é, até o momento, menor que a das três tramas que a antecederam no Vale a Pena Ver de Novo. Até o dia 17 de dezembro, a novela de Manoel Carlos registrou no PNT (Painel Nacional de Televisão) média de 17 pontos de audiência (cada ponto equivale a 260.558 domicílios), cinco a menos que "Êta Mundo Bom", e dois a menos que "Avenida Brasil" (2012) Vale ressaltar que as duas tramas tiveram períodos de exibição que coincidiram com a adoção em várias cidades do país de medidas de isolamento social mais rígidas, quando, portanto, as pessoas ficavam mais tempo em casa. Os meses finais de "Avenida Brasil" foram reprisados no início da adoção da quarentena, em meados de março, até maio. Já a reapresentação de "Êta Mundo Bom!" foi exibida de maio ao início de setembro. Em São Paulo, "Laços de Família" tem média de 18 pontos (cada ponto na região equivale a 74.987 domicílios), três a menos que "Êta Mundo Bom!", e um a menos que "Avenida Brasil". Já no Rio, a performance da trama é melhor, com média de 20 pontos, quatro a menos que a novela de Walcyr Carrasco, e dois a menos que a história de Nina (Débora Falabella) e Carminha (Adriana Esteves). No Rio, cada ponto de audiência equivale a 47.454 domicílios.