'Klondike - A Guerra na Ucrânia' é belo, duro e dedicado às mulheres

(FOLHAPRESS) - "Klondike - Guerra na Ucrânia" padece de um subtítulo um tanto sensacionalista, mas nem por isso falso. É uma situação de guerra, e na Ucrânia. Mas não a guerra que está acontecendo agora, e sim seus primórdios, mais ou menos na época em que a Rússia anexou parte da Ucrânia.

Se a guerra sempre foi um território fértil para a mentira, a diretora Maryna Er Gorbach o evita com o cuidado de quem evita minas enterradas no solo. Situa sua ação, de início, numa plácida fazenda onde Irka, grávida, e seu marido Tolik esperam para qualquer momento a chegada do filho. Vivem em uma casa simpática numa fazendola, cercada por uma vasta paisagem vazia e uma estrada ao fundo.

Existe algo de inquietante nisso, em toda essa calma, em todo esse silêncio. E, de fato, não demora muito e vem o choque --uma bomba explode e arrebenta boa parte da casa onde moram. Tolik sai atrás do carro, sequestrado por um amigo não se sabe bem por quê. Mais tarde o amigo dirá que devolve o carro amanhã.

Eis um dado encantador desse filme --nós estamos mais ou menos na mesma situação em que se encontram os personagens durante boa parte da ação. Não sabemos muito bem o que se passa, nem eles.

De repente, um ruído forte e, ao fundo, uma fumaça --o que será aquilo? Um avião foi abatido, com turistas salvo erro tailandeses. O que têm tailandeses a ver com a história? E, sobretudo, quem abateu o avião, ucranianos ou separatistas?

Sim, porque estamos para os lados da conflituosa região de Donetsk, onde a maioria dos habitantes se expressa em língua russa e se acredita perseguida pelos nacionalistas ucranianos. Em resumo, estamos ali onde começa a guerra atual.

Mas alguma guerra já existe. Um bando armado invade a fazendola para se refestelar com o boi que Tolik deve matar para alimentar todos. É isso ou ser saqueado e eventualmente morto. O que não impedirá que outras bombas destruam partes da casa. O quadro idílico do início --fazendola, casa arrumada, perspectiva de parto se desmonta.

Ou antes, o parto está cada vez mais próximo. Que fazer? O irmão de Irka, Yoryk, aparece para tornar a situação ainda pior. É um antisseparatista fanático e acusa Tolik de pró-russo, o que é uma meia-verdade. Tolik quer sobreviver junto com Irka e o filho por vir. Antes de tudo, ainda que seja pró-russo, isso não parece uma opção, apenas uma conveniência. De todo modo, existe um novo conflito aí, que fecha de maneira trágica o triângulo marido-mulher-irmão --duas famílias

Assim segue Er Gorbach, explorando esse espaço que parece plácido a princípio, mas só parece, pois a cada movimento de um carro que passa sentimos o perigo vindo junto. Ele se conjuga aos problemas que surgem a cada instante e que a cada passo ameaçam. Então o tempo intervém, pois, à medida que passa, nos familiarizamos sempre mais com o clima de discórdia armada --aquilo começa a parecer um cotidiano como qualquer outro, ou quase.

Nisso tudo quem tem razão? Do ponto de vista de Er Gorbach, a guerra, a discórdia, a agressividade parecem, antes de tudo, aspectos do mal-estar na cultura humana. Aquele de que Freud falava, talvez, que nenhum comunismo erradicaria.

Pode ser. Mas Maryna Er Gorbach, se evita tomar partido entre o lado dos russos e o dos ucranianos, vê nesse mal-estar algo não da humanidade, mas do homem --masculino. Não por acaso esse belo e duro filme é dedicado às mulheres.

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KLONDIKE – A GUERRA NA UCRÂNIA

Quando: Ucrânia, 2022

Classificação: 16 anos

Elenco: Oxana Cherkashyna, Sergey Shadrin e Oleg Scherbina

Direção: Maryna Er Gorbach

Avaliação: Muito bom

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