Karl Ove Knausgard diz escrever para si e ficar feliz por alguém publicar

*Arquivo* PARATY, RJ, 29.06.2016: Retrato do escritor norueguês Karl Ove Knausgård durante a Festa Literária Internacional de Paraty. (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)
*Arquivo* PARATY, RJ, 29.06.2016: Retrato do escritor norueguês Karl Ove Knausgård durante a Festa Literária Internacional de Paraty. (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Karl Ove Knausgard manteve uma rotina rígida de escrita ao longo da confecção de sua tetralogia das estações. Acordava todos os dias às quatro da manhã e passava uma hora olhando para as palavras sobre as quais queria escrever. Então, escrevia de uma vez.

Cada uma seria um caquinho do mosaico particular de explicações sobre o mundo que ele apresentaria à sua quarta filha. Ela receberia os textos lá pelos seus 18 anos.

O resultado da tetralogia, porém, dista da reservada ideia inicial. Vieram ao mundo quatro livros curtos e íntimos, compostos por 60 pequenos ensaios, divididos em três blocos correspondentes aos meses de setembro, outubro e novembro.

As partes são precedidas por cartas à bebê, nas quais o pai divaga sobre as pequenezas do mundo e da família e fala da espera pelo nascimento da filha. "Eu queria uma enciclopédia, de certa forma, mas com emoção e subjetividade", diz Knausgard.

Com tradução direta do norueguês por Guilherme da Silva Braga, a série começa com "Outono", publicado, não por acaso, em maio, pela Companhia das Letras. A publicação norueguesa original tinha o charme de coincidir com a virada das estações. Segundo a Companhia, não há garantia de o plano se manter na empreitada brasileira.

Embora lançada agora no país, a série de livros foi escrita na década passada. Anne, a interlocutora, protagonista e homenageada, já completou oito anos -e foi posta para dormir minutos antes de o seu pai conceder esta entrevista à Folha de S.Paulo.

Knausgard, hoje com 53 anos, foi catapultado à fama internacional escancarando a própria história na série "Minha Luta", amparado sob o guarda-chuva do que se convencionou chamar de autoficção. O gênero, misto de biografia e invenção, pode vir temperado com escândalos midiáticos e até visitas à Justiça.

"Eu achava 'Minha Luta' uma indulgência, mas acabou sendo relevante", diz ele. Os seis calhamaços -são 3.500 páginas no total- da série que o consagrou renderam a ele alguns prêmios, além da antipatia de familiares e ex-esposas. "Não teve nenhuma lição para tirar [do processo de publicação do 'Minha Luta']. Foi uma coisa boa, mas não posso fazer de novo. Seria minha morte como escritor se eu me repetisse."

"Nunca escrevo para outras pessoas além de mim mesmo e nunca farei isso. Fico feliz que alguém quis publicar."

Se o leitor de primeira viagem de "Outono" talvez se deixe eletrizar pela intimidade da depressão pós-parto da então esposa do escritor, Linda, pela menção aos piolhos dos filhos ou pela lembrança de um jovem Knausgard que faz xixi nas calças em uma excursão escolar, os knausgardianos veteranos dificilmente se impressionarão.

A pequena enciclopédia afetiva conserva méritos diferentes de "Minha Luta", no entanto. Knausgard se afastou da investigação interior obsessiva da série anterior e voltou seu olhar para aquilo ao seu redor. "Eu queria um lugar de descanso", comenta. Maçãs, sangue, chiclete, Proust, latas de conserva, perdão. Knausgard não se envergonha de dizer que queria fazer algo mais fácil e agradável.

"Pensei em replicar o sentimento dos quadros, separados, com meus textos curtos e desconectados." A intenção fica evidente nos ensaios "Van Gogh" e "Molduras".

Embora não impressionado, o leitor cativo, praticamente parte da família Knausgard a essa altura, se sente em casa com lampejos da vida do autor, cortesia dos momentos em que retoma detalhes dos livros anteriores, confeitados com reflexões que justificam a menção. A bateria feita de pilhas de livros que faziam as vezes de tambores e pratos em "Minha Luta", por exemplo, volta como ponto de partida para uma divagação sobre o tempo.

"Tocar bateria é a arte de se impor limites, é renunciar a todo o excesso e seguir determinado pelo caminho da economia e da sobriedade", escreve Knausgard, "[...] não a batida que divide o tempo, mas a batida que o faz cessar. Tempo é distância, e quando essa distância some já não estamos mais no mundo, mas tornamo-nos parte do mundo."

Os ensaios conservam um misto de magia e de factualidade nas explicações. O tom é típico de pais preocupados em igual medida em manter a honestidade diante dos filhos sem privá-los do deslumbramento com a vida.

Ainda assim, a pecha de bad boy descolado do escritor é tanta que nem o sentimentalismo paternal foi capaz de derrubá-la. Por mais que ele se deixe levar pelas alegrias do cotidiano, finca o pé no chão quando antevê algum risco de cafonice. "Perder o primeiro dente é um grande acontecimento, e o segundo e o terceiro também, mas logo a coisa inflaciona", escreve.

Mesmo com oito anos separando a escrita da publicação em português, "Outono" permanece fresco por trazer poucas referências que o situam na história. A exceção, em uma coincidência trágica, é o ensaio "Guerra".

"A Rússia está se preparando e a atividade na fronteira aumentou, o que deu início a uma discussão sobre a diminuição do Exército observada nas últimas décadas aqui na Suécia", escreve, ao passar por um campo de tiro em que militares suecos treinavam a caminho da escola dos filhos. "Mesmo assim, nesse cenário bonito os pensamentos sobre a guerra encontram-se longe."

Hoje, o cenário mudou e um desamparado Knausgard lamenta sua impotência. "O que um escritor pode fazer? Nada. Ele pode escrever, pode ler." Nem tudo são flores -ainda mais no outono.

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