Karine Teles fala sobre o sucesso de Barucau: “Chegamos em pessoas fora da bolha"

Foto: Ricardo Borges

Enquanto Karine Teles faz sua estreia em uma obra completa na TV, como a mãe carinhosa Regina, de “Malhação – Toda Forma de Amar”, no cinema ela toca o terror como uma forasteira matadora em “Bacurau”.

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Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a distopia brasileira narra a história de um povoado no sertão pernambucano que desaparece do mapa após a morte de uma senhora querida na vizinhança. Vigiada por um drone, a comunidade começa a ser atacada misteriosamente e precisa se unir para conter a invasão.

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“Bacurau fala de uma situação que está na base da formação da nossa sociedade. Essa coisa de ser invadido e ter que resistir é como o Brasil foi criado. O Brasil foi invadido, não foi descoberto. Os índios moravam aqui, os verdadeiros brasileiros são eles. Eles chegaram e invadiram de forma violenta. Essa identificação é o que qualquer brasileiro sente na pele mesmo se não tiver muito conhecimento em história. Essa sensação de resistência é muito conhecida.”

Bem recebido no exterior, o filme foi aplaudido e premiado no Festival de Cannes, na França, no Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, e no Festival de Cinema de Lima, no Peru. No Brasil, Barucau também mostrou força ao arrecadar R$ 2 milhões só na semana de estreia. Karine acredita que a identificação do público com o roteiro e uma cota de investimento um pouco maior para a divulgação do projeto são os responsáveis pelas salas lotadas no primeiro mês de exibição.

“Quando a gente fala de cinema brasileiro parece não ter a importância que teria que ter para a população. Mas quando você se reconhece na tela é muito poderoso. É um elenco super diverso, com gente de todas as cores, todas as orientações sexuais, várias origens regionais do país. E é um filme que tem inspiração em gênero, mas ficou com a cara muito brasileira. Além disso, quando as pessoas sabem que o filme existe, elas querem ver. Chegamos em pessoas fora da bolha, que não tem o costume de ir ao cinema e isso é uma transformação muito grande. E é assim que a gente vai criando plateia.”

Veterana no cinema como atriz e roterista, premiada desde a sua estreia em “Riscado”, de 2010, Karine balançou quando recebeu de Kleber o convite para viver uma assassina. Ela precisou passar por cima de alguns dilemas éticos para conseguir mostrar a verdade que a personagem fria e com preparo para matar exigia.

“Sou totalmente contra armas de fogo, por mim não existiriam no planeta. É um objeto construído para ferir e matar pessoas. Essa foi a parte mais difícil, ficava ali, me concentrando, lembrando da importância do projeto, do um propósito maior. Mas a violência no filme tem um caráter bastante alegórico e fiquei animada de fazer”, relembra. “O Kleber até brincou e disse que demorou muito para me chamar porque não me imaginava matando pessoas e nem sendo morta.”

Atriz de cinema

Com um currículo poderoso no cinema, Karine encontrou nas dificuldades de viver de arte no país uma forma de recriar sua própria história. “Riscado”, de 2010, escrito por ela e dirigido pelo seu ex-marido, Gustavo Pizzi, é a prova disso. O roteiro conta a história de Bianca, uma atriz que batalha pelo sucesso no trabalho, mas mal consegue se sustentar com o dinheiro que ganha.

Esse era para ser um projeto experimental dos dois para servir de portfólio para Karine, que na época dava aulas de inglês e fazia bicos como assistente pessoal dos diretores Karim Ainouz e Jonathan Nossiter. O curta virou um longa-metragem, foi bastante elogiado pela crítica e rendeu a Karine dois Kikitos (roteiro e atuação), no Festival de Gramado, e o troféu Redentor como melhor atriz no Festival de Cinema no Rio de Janeiro.

“‘Riscado’ acabou fazendo eu começar a existir como atriz para o Brasil, para o mercado, para a classe. As pessoas começaram a conhecer meu trabalho e a partir daí não parei de fazer cinema. Estava muito cansada de ter que fazer outros trabalhos para pagar minhas contas”, revela.

A paixão de Karine pela sétima arte começou cedo. Nascida em Petrópolis, no Rio de Janeiro, ela se mudou para Alagoas ainda na adolescência onde cursou teatro. Em 1993 participou de seu primeiro espetáculo, “O Despertar da Primavera”, de Frank Wedekind. De volta ao Rio de Janeiro, ela se formou em Artes Cênicas nos anos 2000.

“Teve uma época que não dava nem para sonhar com cinema, não dava para ter esse desejo porque não existia, não tinha mercado. Tinha um, dois filmes por ano, era Xuxa, Os Trapalhões e só. Eu descobri muito cedo minha paixão pelo trabalho de atriz. Me joguei nisso, fui fazer faculdade, pegava tudo que eu podia, todos os trabalhos, fiz muita coisa sem receber porque eu queria aprender.”

Com mais de uma dúzia de trabalhos no cinema e participações ovacionadas como Irene, mãe apaixonada pela família em “Benzinho”, e Bárbara, a patroa preconceituosa em “Que Horas Ela Volta”, a atriz se entristece ao ver uma indústria tão forte perdendo o fôlego como os ataques do governo atual contra obras de audiovisual.

“Se acontecer o fim da Ancine será realmente uma tragédia. São milhares de empregos que vão deixar de ser gerados, já que a gente tem uma indústria forte. Tem alguns aspectos que são importantes para se levar em consideração quando a gente fala indústria cultural. É importante para a gente como ser humano ter acesso a cultura nessa onda de se diferenciar dos bichos, de criar empatia, entender o lado do outro. Tenho medo da instabilidade, mas ao mesmo tempo sinto que hoje a gente tem a chance de se entender como classe, como um grupo. Acho que vamos encontrar formas de continuar produzindo mesmo que essa tragédia aconteça.”

Mesmo com a instabilidade pairando sobre a arte no Brasil por conta de um governo fraco e perdido, Karine segue com foco seus próximos projetos para a telona. “Princesa”, seu novo roteiro solo que está entrando em produção, vai revelar um país vivendo uma crise de ética por conta de um vírus avassalador.

“Ele se baseia nessa sensação que muitas pessoas estão tendo de regressão, de que o mundo está voltando no tempo, que tem uma força poderosa querendo voltar atrás nos avanços sociais que a gente conquistou recentemente. É um casal, eles são muito apaixonados, vivendo as emoções do primeiro filho, até que o marido é contaminado por um vírus que está se espalhando rapidamente, que faz as pessoas regredirem moralmente. Ele deixa de ser um parceiro da mulher, um companheiro, que dividia a vida com ela e vai regredindo até virar um cara dos anos 50, controlador, ciumento, que compete com ela no trabalho. O projeto é um suspense e está pronto e a gente está começando a buscar parceiros.”