Karen Jonz fala de tarja preta e autocobrança de atletas: "Ter mais coragem para desistir que insistir”

·7 min de leitura

"Deixa eu colocar essa blusa aqui para não aparecer igual em todas entrevistas. Ai, nem passei um batom. Deixa eu ver se estou com caca no nariz, sempre estou", diz a skatista Karen Jonz bem-humorada, aproximando o nariz da câmera durante nossa videochamada e fazendo todos rirem. Durante a entrevista, ela deixa claro que é sobre rir sim, mas que isso só ocorre quando a saúde mental está em dia. É sobre acolher, mães, mulheres, vulnerabilidades e aceitar que atletas são pessoas e não é tudo sobre "no pain, no gain" ("sem dor, sem ganho" - em tradução livre do inglês).

A pessoa pode ser mãe, ser atleta e ganhar. Parem de duvidarKaren Jonz

Tetracampeã mundial de skate vertical (2006, 2008, 2013 e 2014), campeã do X-Games em 2008, primeira mulher a se profissionalizar no esporte no Brasil, a santista virou a Juliette (campeã do "BBB21"), como brincou o amigo Lucas Lima, nas últimas semanas por conta de sua popularidade. Ela estreou como comentarista do SporTV e no melhor estilo gente como a gente vendo competições, soltou: "xerecou" ao falar sobre uma manobra mal sucedida de uma competidora que escorregou no corrimão. Nem precisamos dizer que a internet foi à loucura e a espontaneidade da atleta virou meme.

Leia também

Com a edição mais igualitária da história dos jogos olímpicos, a Olimpíada de Tóquio 2020 é representada por 49% de mulheres e o maior número de atletas abertamente declarados LGBTQIA+, nada mais propício que termos a diversão e a representatividade de Karen na primeira vez que o skate foi reconhecido no maior evento esportivo.

O espírito do skate é liberdade e diversão Me acolhe em todos os momentos. Quando sou campeã, mãe, estou de saco cheio. Cabe sempreKaren Jonz

A esportiva é assertiva e se posiciona em assuntos que podem parecer batidos para alguns, mas precisam ser discutidos cada vez mais para que de fato tenhamos equidade social. Como a divisão de tarefas entre homens e mulheres — por que a paternidade é tão pouco falada em ambientes profissionais? Ela lembra: "Porque talvez eles [homens] deixem os filhos com a mãe e aí não precisa falar"; Ressalta ainda que "pessoas de cabeça aberta" também reproduzem machismo - na última semana o jornalista Ivan Moré disse que ela era conhecida por ser casada com Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno - ela deixou claro: "Conhecida por ser tetracampeã de skate e não por ser casada".

Leia também:

"Vocês acham que estou feliz de ficar tendo que dar respostinha? Às vezes a pessoa, ela realmente não tem a intenção ou a maldade, mas ela está ali e reproduz um comportamento. Quantas vezes a mesma coisa tem que se repetir até realmente a gente não precisar mais falar sobre isso? Por enquanto a gente precisa falar e isso não significa que você é uma pessoa má, uma pessoa ruim ou você tem que ser cancelada. Significa que você tem que aprender", afirma Karen que logo depois do episódio recebeu uma ligação de Moré e disse: "Fica na paz."

Vai ter mina, mãe comentando e andando de skate sim!

E, por favor, pare de questionar uma mulher sobre sua performance por conta da idade ou pelo fato dela ser mãe. "Passei bastante por isso, principalmente depois que tive filho, das pessoas acharem que eu ia parar de andar [skate]. Se eu parasse de andar ia ser uma opção minha, não porque fui mãe ou por causa da idade. A pessoa pode ser mãe, ser atleta e ganhar. Parem de duvidar", pede ela, que em 2017, venceu o campeonato brasileiro de vertical feminino, mas que campeã, foi saber que era capaz.

Mais coragem para desistir do que para insistir. No meu caso e de atletas porque a gente vai no automático. É inadmissível para gente admitir que tem medo. Medo de parar.Karen Jonz

"Até eu mesma talvez duvidasse um pouco de mim ou achasse que era muito cedo, 'Putz, não estou preparada o suficiente'. E eu dediquei muito aquela vitória para todas as mães", lembra ela enquanto conversa com a reportagem e também explica para filha Sky, 5, que os morangos estão secando em cima da pia.

"Me apego muito aos meus fracassos ainda e a falha também é força"

Neste papo com o Yahoo Entrevista!, Karen vai além e expõe suas (nossas) vulnerabilidades ao falar sobre saúde mental e a importância de olharmos para lesões que não são visíveis como mostrou a ginasta Simone Biles ao dizer que não iria competir individualmente nas Olimpíadas porque precisava cuidar do seu psíquico - e como isso é um ato de coragem. "Você quebra uma perna todo mundo vê, todo mundo sabe que você não será capaz de levantar ou continuar. Mas o nosso psíquico, nossa alma, ninguém vê, só você vê", diz a skatista.

"Fiquei medicada durante alguns anos e lembro que quando a psiquiatra aumentou a dose do remédio, eu chorava. Pensava: 'Sou atleta, consigo qualquer coisa, por que não consigo controlar isso também? 'O mais difícil para mim foi admitir que eu não seria forte o suficiente para conseguir melhorar e me cuidar, que precisava de ajuda e ser amparada", conta a atleta.

Os últimos anos foram de vitórias vazias. Estava empilhando troféu, medalhas e aquilo não me preenchia, não estava me alimentandoKaren Jonz

Foi a sensibilidade da irmã de Karen que a acolheu e salvou durante a pressão da carreira, a falta de reconhecimento e ao mesmo tempo da exposição. "Não ia pedir ajuda e não sei o que seria", revela a skatista deixando claro que há 15 anos lhe faltava maturidade para assumir que estava pesado e que o esporte tinha perdido o propósito inicial: felicidade, diversão.

"Era continua, no pain, no gain ('sem dor, sem ganho - em tradução livre do inglês). Se não está doendo é porque está errado. Oi? É preciso encontrar o equilíbrio entre o não desistir porque está difícil, mas também não achar que você tem que procurar o caminho do impossível. Não é isso. É preciso muita coragem para admitir. Mais coragem para desistir do que para insistir. No meu caso e de atletas porque a gente vai no automático. É inadmissível para gente admitir que tem medo. Medo de parar. Por que a gente questiona: 'O que vou fazer, para onde vou olhar, o que tem lá eu nunca fui.' Sem contar críticas, as pessoas não entendendo. O mundo não está preparado para acolher, conversar sobre isso. Porque é invisível", desabafa ela deixando claro que insistir que temos que estar sempre felizes, como se a vida fosse somente isso - e na verdade é sobre vivenciarmos todos os momentos - é limitante e tóxico.

Um ajuda o outro, sempre!

A profissionalização da santista foi um processo solitário. Por isso falar de representatividade em um sistema patriarcal e com tantas desigualdades sociais como o Brasil, não é mimimi. É uma rede de apoio, assim como ter o marido como parceiro na divisão de tarefas educacionais da filha ou tarefas do lar.

"Me apego muito aos meus fracassos ainda… e a falha é força, será encarada como. Há 10, 20 anos, eram poucas meninas e a gente ficava tentando encontrar soluções e achando que o que estávamos fazendo era meio inútil. Hoje, a gente vê que não", reflete ela, que atualmente dá aulas de graça na cidade de São Paulo para mães, mulheres mais velhas, novas que querem andar de skate.

A skatista foi a primeira brasileira a ganhar o X Games, competia com homens, inclusive, dividindo banheiros por conta da ausência da categoria feminina em eventos no Brasil, Estados Unidos e Europa. Prêmio, treinador, visibilidade? Nada. Nem fotos e vídeos dos muitos campeonatos que venceu ela tem.

"Foquei muito em performance, desempenho, cobrança. Os melhores campeonatos que ganhei, que mais me diverti, estava igual a Rayssa [Leal, skatista de 13 anos, medalhista de prata das Olímpiadas] sorrindo, feliz só por estar lá. E quando a pressão começou a aumentar, passei a me questionar: 'Por que estou fazendo isso? Os últimos anos foram de vitórias vazias. Estava empilhando troféu, medalhas e aquilo não me preenchia, não estava me alimentando. Estava no modo quero ganhar e nem entendia o porquê", conta atleta que migrou para terapia chinesa e atualmente faz uso apenas de remédios naturais, sessões de acupuntura, além de análise.

"Como faço um trabalho constante me sinto muito menos vulnerável. Me sinto mais saudável, me sinto eu mesma e consigo andar com minhas próprias pernas. Dá trabalho, dói olhar para algumas questões, para dentro, re-analisar, mudar muita coisa que você nem sabe que está errado, mas vale muito a pena", diz Karen massageando o rosto com um cristal para aliviar as tensões e diminuir marcas de expressão.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos