Kaio Cézar, que se demitiu da Globo ao vivo, diz que sofreu boicote e que quase foi despejado

LEONARDO VOLPATO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O narrador esportivo Kaio Cézar, 29, que em fevereiro se demitiu ao vivo no final do Globo Esporte Ceará, da afiliada TV Verdes Mares, conta que sofria perseguições e assédio moral na emissora e que tem provas e indícios disso. O profissional, que passou 11 anos por lá, acusa o diretor da TV, Paulo César Norões, de praticar os atos e de ter humilhado ele e sua família em público.

"Quando saí da Verdes Mares eu tinha a intenção de abandonar tudo, me decepcionei demais e estava psicologicamente destruído. Entrei com uma ação na justiça. Desde 2013 passei por uma série de situações que configuram perseguição e assédio moral. O diretor Paulo César chegou a humilhar a minha família e a me mandar tomar no cu por discordar dele. Ele tentou me tirar da Copa das Confederações em 2013, tirar meu espaço no Premiere e na SporTV e me minar profissionalmente", diz Kaio Cézar.

De acordo com o locutor esportivo, que trabalha nesse ramo desde os 13 anos, as TVs cearenses parecem ter se unido para boicotá-lo. "Antes de eu sair da Verdes Mares a afiliada do SBT tinha me procurado, pois eles não têm narrador esportivo. Depois que eu saí não fizeram mais contato. O mercado para mim aqui em Fortaleza se fechou totalmente. As TVs são unidas."

Segundo o narrador, a situação financeira após a sua saída ficou precária. "Só não passamos fome nem fomos despejados por causa da nossa família. Nossos pais [dele e de sua esposa] que faziam as feiras. A gente está se virando. Passei três meses penando, quase sendo despejado", afirma.

Cézar move atualmente um processo contra a TV Verdes Mares, a TV Diário, a Rádio Verdes Mares e a Globo. O valor calculado é de R$ 3,8 milhões. "Eu desejo primeiramente provar essa situação. Se eu ganhar, o valor sinceramente é o que menos importará. Estou acostumado a viver sem grana", aponta o locutor, que dia 25 de agosto começa a ter uma live na qual aparece transmitindo jogos de futebol exibida na programação da TV Metrópole, de Caucaia, região metropolitana de Fortaleza.

No dia em que tomou a atitude de se demitir ao vivo ele lembra que estava muito mal. "Naquela semana um colega chegou para mim e disse que eu não iria mais narrar o jogo que eu narraria. E ele nem era locutor da Verdes Mares. Comentei com meu chefe imediato na época e ele me aconselhou a parar de reclamar, pois tinha gente que não estaria ao meu lado. Então eu percebi que não me queriam lá, pedi para sair", revela.

Na ocasião da saída, por ninguém saber os motivos que o levaram a se despedir do seu emprego ao vivo, boatos começaram a surgir. Dentre eles, foi especulado que a esposa de Kaio poderia ter sido assediada sexualmente por alguém dentro da emissora. Kaio nega essa versão.

"Isso não aconteceu. Até porque se tivesse rolado quem tivesse feito não estaria mais aqui para contar a história", diz. "O Paulo César Norões não tinha nenhum motivo profissional para me tirar do ar. Éramos primeiro lugar em audiência dentre as afiliadas da Globo no país. Mas ele não ia com a minha cara. Acho que é porque eu sempre fui meio caladão e ele gostava mais de gente que falava", opina.

ACUSADO REBATE

Acusado de praticar perseguição e assédio contra Kaio, o diretor de TV Paulo César Norões rebate as acusações e nega a versão do locutor. "Espero que ele prove porque não tem nada disso. Minha consciência está tranquila. Não entendi o motivo de ele ter saído até hoje, foi uma surpresa geral", aponta.

De acordo com Norões, a relação entre ambos, no entender dele, era normal, já que Kaio nunca havia reclamado. "Como que eu não ia com a cara dele e o escalei para um monte de transmissões de futebol? Copas e tudo?", pondera Norões, que já não faz mais parte do núcleo de esportes há três anos e, por isso, segundo o próprio, não poderia ter minado a carreira do narrador.

O diretor afirma ainda que nada mudou em sua vida, mesmo com um processo correndo na justiça, e que se Kaio sofria tanto que ele tivesse reclamado acionando a central de código de conduta existente na empresa. 

"Esse tipo de coisa não deveria ser discutido publicamente. Há um interesse em fazer disso um Carnaval", finaliza.

Procurado, o Sistema Verdes Mares não deu a sua versão do ocorrido até a publicação deste texto.