Juliette é chata? Comentários falam sobre xenofobia e machismo no 'BBB 21'

Bárbara Saryne
·6 minuto de leitura
A paraibana representa muitas nordestinas que vivem no sudeste (Foto: Reprodução/Globo)
A paraibana representa muitas nordestinas que vivem no sudeste (Foto: Reprodução/Globo)

O 'BBB 21' tem despertado gatilhos diferentes no público, seja pela saudade de um mundo com festas, beijos e abraços, ou pelas pautas mais profundas. A participação de Juliette Freire, por exemplo, toca em um lugar específico da minha vida e de muitas outras mulheres. É sobre isso que vamos conversar hoje. Algo que talvez explique a força da sister dentro e fora do reality da Globo. 

Nasci e cresci em São Paulo. Sou filha de pernambucana, neta de baiana, sobrinha e prima de paraibanos. Presenciei a xenofobia, sem nem saber o significado da palavra, a minha vida toda. E o que já era óbvio ficou ainda mais escancarado com a participação de Juliette no 'BBB 21'. A sister representa nordestinas que sofrem xenofobia e machismo no sudeste.

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A exclusão da participante na primeira semana me faz pensar no quanto minha mãe, Vitória, penou para ser aceita quando chegou em São Paulo. Comentários pejorativos sobre sua forma de falar, vestir e comer eram muito comuns. Ela não conseguia ter amigos, trabalhar em paz, fazer escolhas simples.

O primeiro emprego foi em uma loja de departamentos. A função era anunciar promoções e dar avisos aos funcionários no microfone. Toda vez que abria a boca para fazer o que era preciso, as risadas de clientes ecoavam. Colegas apareciam de lugares diferentes para ensiná-la a "falar direito". Nunca era levada a sério.

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Anos depois, minha mãe realizou o sonho de cursar pedagogia. O que acontecia no trabalho se repetia na faculdade. O preconceito aparecia disfarçado de elogios estranhos. Escolher um lanche na cantina não era tão fácil. "Como assim não gosta disso? Comia farinha no nordeste e agora quer exigir?", diziam os colegas.

Apesar do orgulho de sua origem, a vontade de mudar para ser mais "legal, compreendida e aceita", passou pela cabeça dela assim como na de Juliette. A sister forçou conversas para entender o que estava acontecendo no reality várias vezes até encontrar forças para bater o pé e seguir sendo quem ela é independentemente do que pensam.

Juliette é chamada de chata dentro e fora do programa. Mas o que é ser chato? Além de relativo, pois o que é chato para mim pode não ser para você, chatice não determina caráter. E, talvez, ela seja chata, sim, ou tenha "momentos de chatice", como todos. Você tem todo o direito de pensar assim sem ser xenófobo. O fato é que, em alguns casos, chamar a participante de chata é só uma desculpa para esconder o que incomoda.

'Virar a chave' é um processo

A participante recebeu muitas placas no jogo da discórdia (Foto: Reprodução/Globo)
A participante recebeu muitas placas no jogo da discórdia (Foto: Reprodução/Globo)

A virada não é tão fácil quanto parece porque traz novos julgamentos. Juliette vira e mexe é criticada pela forma que se impõe. A fala incisiva assusta e muitos não entendem como aquela moça frágil do início se transformou na mulher que está jogando e lutando pelo prêmio sem se preocupar com as críticas dos oponentes. 

O mesmo acontece aqui fora. Já cansei de ouvir pessoas dizendo que minha mãe é brava, rígida, exigente demais. Muitos não sabem o quanto ela foi silenciada. Assim como Juliette teve sua profissão questionada por Fiuk, a professora aqui de casa teve que responder que seu sotaque não atrapalha o aprendizado dos alunos. 

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Parece mentira, mas histórias como as de Juliette e Vitória se repetem o tempo todo. A cearense Izabel Accioly, mestra em Antropologia Social, passou pelo mesmo quando veio estudar no interior de São Paulo em 2018. Além de machismo e xenofobia, o racismo potencializou o sofrimento.

"Não queria que as pessoas notassem que eu não era dali e me ridicularizassem por isso. Lembro de uma pessoa que bateu no meu ombro e pediu para eu falar direito. Comentavam minha fala achando que estavam elogiando ('olha como ela fala bonitinho'), e eu estava séria, no ambiente de trabalho, apresentando uma pesquisa", recorda.

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Na academia, Izabel notou surpresa de pessoas com o desenvolvimento de seus discursos e pesquisas. Alguns chegaram a elogiar o português da antropóloga como se ela fosse de outro país. 

"Para que sejamos ouvidas, muitas vezes tentamos elevar o tom de voz. Algumas de nós também tentam abandonar o sotaque, o que é uma lástima. É uma pena que a gente precise passar por situações tão violentas e que acabam nos afetando dessa forma", reflete ela.

A xenofobia aparece de forma sutil

A xenofobia, segundo a antropóloga, é notada facilmente em falas corriqueiras, sobretudo no sudeste. O simples fato de achar que um nordestino tem que estar feliz o tempo todo e aceitar tudo que acontecer de ruim são exemplos de como o preconceito pode aparecer de maneira sutil em conversas de amigos.

"Temos nossas dores e não queremos romantizar as situações tristes que vivemos. Falam 'mulher nordestina é guerreira', mas somos muito sobrecarregadas. Quando eu torno invisível a luta daquela mulher por ser guerreira, eu estou dizendo 'você é sobrecarregada e não estou nem aí", afirma a especialista.

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De olho no 'BBB 21', Izabel diz que a impaciência dos outros participantes com Juliette é desproporcional e um caso claro de sobreposição de machismo e xenofobia. A participante já bateu de frente com Arthur, Fiuk e Caio. Mas até as "amigas" se incomodam com as expressões e seu jeito de lidar com as adversidades.

"Quando ela tem uma questão para resolver com alguém, ela vai até a pessoa e pergunta o que aconteceu. Isso muitas vezes é visto como intimidador, uma pessoa sem noção, mas ela só é uma mulher assertiva, que resolve e assume seus problemas", justifica Accioly.

Combater a xenofobia é um processo que se inicia a partir da certeza que somos todos do mesmo lugar. "O Brasil é diverso e somos brasileiros tanto quanto os sudestinos. O povo sudestino acha que está no centro e no topo. Isso é uma invenção do sudeste. Temos nossa inteligência, nossas capacidades e isso não deve ser menosprezado", finaliza a antropóloga.