Juliana Lohmann relata estupro de diretor e relacionamento abusivo: “Não foi minha culpa”

Patrick Monteiro
·9 minuto de leitura
Juliana Lohmann conseguiu se livrar da culpa de ter sido estuprada (reprodução / Instagram @julohmann)
Juliana Lohmann conseguiu se livrar da culpa de ter sido estuprada (reprodução / Instagram @julohmann)

A atriz Juliana Lohmann abiu o coração e revirou uma caixa de sentimentos para fazer um relato grave e sério. Em um texto ela contou ter sido estuprada aos 18 anos em São Paulo e ter vivido, em seguida, um relacionamento abusivo.

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“Tenho trinta anos. Aos onze comecei a trabalhar na televisão. Vi meu corpo se modificando enquanto trocava o figurino. Demorou pra eu entender que não podia mais sair abraçando os colegas de trabalho ou sentando em seus colos, como antes. Aos dezoito, fui sexualizada em um ensaio fotográfico pra que me dessem “papéis mais adultos”. O amadurecimento da mulher era representado pelo crescimento dos seios. Em nenhum momento ouvi, mesmo de pessoas mais próximas, que eu não precisava mostrar o corpo pra provar ou conseguir nada. Era o que tinha que ser feito, não havia questionamento”, começa o bravo relato à revista ‘Claudia’.

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Na época do ensaio ela foi convidada “por um famoso que dirigia seu primeiro longa” a fazer um teste em São Paulo. Morando no Rio, ele não poderia pagar a passagem dela e da mãe, então foi sozinha para não perder a oportunidade.

“Passei a madrugada estudando a personagem, cheguei com a cabeça cheia de ideias e perguntas. Me instalei no quarto do hotel e, em seguida, a convite dele, nos encontramos em seu apart, no último andar desse mesmo hotel, pra conversarmos um pouco sobre o roteiro enquanto esperávamos um sinal dos produtores para a realização do teste”, escreveu.

Segundo ela a conversa não foi inteiramente sobre o filme, como esperava. Após lerem o roteiro três vezes o famoso propôs uma nova abordagem para a personagem. “Me sugeriu que fumássemos maconha pra que a cena fosse relida posteriormente, argumentando que dessa forma descobriríamos novas nuances. Fiquei reticente, mas acabei aceitando. Dizer não para um diretor não é algo que uma atriz de dezoito anos sabe exatamente fazer. Um trago foi o suficiente pra que eu ficasse completamente chapada”, lembrou.

“Em determinado momento, percebi que o contato que ele fazia comigo excedia o profissional. Minha inexperiência com a erva não me deixou em condições de avaliar com mais clareza o que de fato estava acontecendo. Ele veio me beijar. Eu me assustei, disse que não queria. Foi uma completa surpresa acreditar que aquele homem, com sua boa imagem midiática de família margarina, pudesse se aventurar com outras mulheres. E ainda mais comigo. Não fazia a menor ideia de que eu seria atraente pra um homem como ele. Nós, mulheres, somos acostumadas a medir nosso valor de acordo com o desejo masculino. Era pra eu estar feliz por aquele homem poderoso, bonito e tão desejado estar me desejando. Mas eu não queria e não sabia como fazer pra me desvencilhar do diretor do filme cujo teste, àquela altura, iria acontecer somente no dia seguinte, por causa da disponibilidade dos produtores”, ressaltou.

“Ele disse algumas vezes que aquilo não havia sido premeditado, que ele estava ali de forma estritamente profissional, mas que eu o havia encantado. Eu o tinha deixado maluco, não havia o que ele pudesse fazer. Peguei o texto e, muito nervosa, pedi que voltássemos à leitura. Ele tirou o roteiro da minha mão e me apertou com força contra o corpo dele. Eu pedi pra parar, mas ele me apertou mais forte. Fiz força para sair e não consegui”, falou Juliana

Desacreditada a gritar, ela temeu pela sua imagem. “Seria um escândalo. Todos iriam saber que eu estava ali, com aquele homem casado e famoso em seu apart hotel. O que eu tinha ido fazer lá? Eu tinha me colocado naquela situação. Tinha aceitado viajar sem minha mãe, tinha fumado maconha com essa pessoa, tinha um ensaio sensual meu na internet. Eu tinha provocado”, se culpou.

“Entendi que não tinha saída. Fiquei quieta. Fiz o que ele queria. Tive que insistir muito pra ele pelo menos colocar a camisinha, o que fez somente depois de algum tempo de penetração. Havia um quadro na parede em cima da cama. De trás do quadro ele retirou um saco plástico com alguns preservativos. Aquilo me deu a sensação de que eu não era a única pela qual ele ‘tinha se encantado’. Colocou a proteção, mas retirou logo em seguida, ejaculando dentro de mim. Insistiu pra que eu dormisse com ele. No dia seguinte, de manhã, fui acordada por seu membro invadindo minha vagina. Lembro de ficar na mesma posição, deitada de lado, e apenas enfiar meu rosto no travesseiro pra que ele não percebesse as lágrimas que caíam sem controle. Ele ejaculou dentro, de novo”, reviveu o que sentiu.

O famoso teria dito que ela a deixou logo assim que se viram. “Ao se levantar, disse que o teste realmente não iria rolar porque os produtores estavam ocupados novamente. Começou a se arrumar pra sair, sacou um cheque e me perguntou quanto tinha dado. Eu fiquei atônita. ‘Da passagem’, ele explicou, já com a caneta em mãos. Havíamos combinado que eu arcaria com esse custo e depois seria ressarcida. Eu disse o valor. Ele assinou o cheque, me entregou, me levou até a porta, colocou a mão no meio queixo e disse: ‘Uma delícia você. Vou querer mais’”.

A atriz conta que a aquela altura, estava trancada para fora do seu quarto por conta do horário de check-out. “Estava imunda e sozinha em uma cidade que, para mim, era gigantesca. Liberaram. Nunca vou me esquecer daquele banho. Eu me esfreguei com sabão inúmeras vezes, em todos os orifícios, com vontade de vomitar. Nem a água e nem o sabão tiravam de mim aquilo que eu queria que saísse. E eu mal sabia que aquilo nunca na minha vida iria, de fato, sair”, comentou.

O estupro deixou traumas. “Anos mais tarde, toda vez que sentia um pouco de agressividade numa relação sexual, engatava num choro compulsivo. Quando tive coragem de contar esse episódio à um namorado, ouvi que se eu realmente não quisesse ter transado, eu teria jogado um abajur na cara do sujeito. “Você quis”, ele dizia”, lembrou novamente ao ser acusada.

O namoro em questão aconteceu quando ela tinha 20 e poucos anos, provavelmente nos arredores dos anos 2011, quando ela estreou em Malhação. “Sofri violências psicológicas, verbais e físicas. Sempre muito ciumento, ele me tolhia no meu modo de dançar, de me vestir, de trabalhar e de me comunicar com as pessoas” pontuou.

“As violências físicas começaram aos poucos: recebia apertões fortes e disfarçados quando ele queria que eu parasse de falar na frente de alguém e, quando estávamos à sós, ao se irritar, levava a mão fechada em direção ao meu rosto, mas socava a superfície atrás de mim. Uma vez, ele me empurrou no chão e caí uns três ou quatro metros depois. Fiquei mancando alguns dias, o que me fez ter que inventar uma desculpa no trabalho. Ele colocou a tesoura no meu pescoço e disse que ia me cortar inteirinha. E me trancou no banheiro de uma festa e ameaçou jogar uma garrafa de whisky na minha cabeça”, lembrou.

E as agressões só aumentaram. “Em uma madrugada, voltando da casa de uns amigos, ele me socou três vezes no rosto, dentro do carro, logo após ter feito ‘roleta russa’ nos sinais de uma das mais movimentadas avenidas do país, até perder o controle do carro e bater em uma banca de jornal. Ao chegar na casa dos pais, tentou se jogar da varanda na frente da família. Foi quando seus parentes souberam um pouco do que se passava”, ressaltou.

“Ele dizia que ia me matar, me machucava, depois dizia que ia se matar. E eu tinha que acudi-lo em vez de me acolher. Depois, ele voltava com flores, dizia que ia mudar, eu aceitava. Tive muito medo de morrer. Tinha medo de pedir ajuda, de contar pra alguém. Achava que ele precisava de tratamento psicológico. Uma noite, ao sair do trabalho, ele me ligou e disse que por minha causa iria se matar. Eu o achei bêbado pela rua quase andando contra os carros e tentei interná-lo em uma clínica psiquiátrica, sem sucesso”, contou.

Da relação ela ficou com mais do que traumas psicológicos. “Descobri que estava com uma DST. Eu só havia transado com ele durante a nossa relação. Na época, a ginecologista me disse que por causa disso talvez fosse difícil engravidar por vias naturais, caso um dia eu quisesse. Até hoje não se sabe até que ponto minhas trompas foram obstruídas”, lamenta.

“Faz muito pouco tempo que tive a certeza de que de fato nunca houve teste nenhum a ser feito em São Paulo. Eu passei doze anos, quase metade da minha vida até aqui, na dúvida. Eu me questionei se realmente eu não quis, me questionei se de fato não foi premeditado o interesse dele por mim, se realmente não havia o teste que, por um ‘infortúnio’, foi cancelado. Doze anos não ouvindo o que havia dentro de mim. Doze anos vivendo como se nada disso tivesse acontecido, ou como se tudo isso estivesse muito bem resolvido dentro dessa mulher tão bem resolvida que sou.

Lohmann concluiu: “Ele me enganou, me drogou e me estuprou, violando minha dignidade sexual e deixando marcas que carregarei pro resto da vida. E o namorado a seguir também se utilizou da sua posição para me violentar física, verbal e psicologicamente, me fazendo acreditar que o amor é exatamente a submissão, o silenciamento e a destruição de toda potência, liberdade e beleza feminina”.

Ela ressaltou que não teve a chance de registrar boletim de ocorrência dos crimes e hoje eles já prescreveram, mas que quer alertar a outras mulheres para que tenham coragem de denunciar.