Julgar ou não julgar alguém nesta pandemia: o que é certo?

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Eu julgo, tu julgas, julgamos. Como observarmos isso? (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Basil)
Eu julgo, tu julgas, julgamos. Como observarmos isso? (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Basil)

Desde que a pandemia começou, não faltaram julgamentos para quem furasse a quarentena ou fizesse coisas consideradas erradas. E isso acontecia dentro e fora das redes sociais.

Mas o que de fato representa a palavra julgamento? De acordo com Angela Pelizer, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), esse tipo de ação é feita por uma “autoridade” que faz uma avaliação, que pode ser positiva ou negativa. “A pessoa está numa posição maior e dispõe de analisar uma sentença”, afirma a especialista.

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E o que será que, de fato, merece ser julgado diante desse momento tão difícil que estamos vivendo? Para a designer Hellen Aquino, 33, pessoas que foram contra regras sanitárias e minimizaram os efeitos da covid-19 merecem, sim, sofrerem algum tipo de julgamento. Estamos falando de negacionistas e com quase 500 mil mortos no Brasil não podemos minimizar. “Uma pessoa que saiu para um trabalho essencial precisou 'furar' a quarentena por causa do trabalho, por exemplo. Mas tem gente que vai para rave, festa e bar sem necessidade. Não acho isso legal e julguei sim”, diz.

Ela conta ainda que por muitas vezes deve ter sido julgada pelos outros, mas não por fazer coisas erradas, e sim, por estar com cuidados em excesso. “Devem ter pensado que eu estava ficando doida, já que seguia todas as medidas de segurança. Eu estava com medo e a preocupação era cuidar da minha saúde, dos meus pais e de outras pessoas.”

A analista de compras Jéssica Sousa, 29, não esconde que tenha julgado pelo menos uma pessoa durante esse período de isolamento. E isso ocorreu, principalmente com quem trabalha na internet. “Muitos pregavam uma coisa e faziam outra. Realizavam festas e não condizia com o que mostravam. Esses eu julguei, sim”, conta.

Empatia x egoísmo

Um dos principais debates em torno do julgamento provavelmente seja a falta de empatia. Enquanto muitas pessoas estão tentando ao máximo seguir os protocolos de saúde para evitar uma contaminação ainda maior, existem outras que seguem uma vida normal, participando de eventos clandestinos e com centenas de pessoas. “Mesmo quando teve uma flexibilização eu não fui em festas ou bares cheios em respeito ao meus pais. Tinha medo de contaminar eles e não ia”, diz Jessica.

Em contrapartida, teve gente que aprendeu, evolui durante esse período e pôde seguir na pandemia sendo menos egoísta com si mesmo e com os outros. “Consegui ter um olhar mais interno, olhar para os meus limites e ter mais carinho pela minha saúde física e mental”, conta Hellen.

Ela ainda afirma que percebeu isso com os amigos também. “De certa forma, atitudes que fazemos para nós mesmos também ajudam o próximo. Acredito que quando estamos bem, conseguimos acolher o outro”, afirma a designer.

Julgar o outro é algo nocivo?

Para Pelizer, o julgamento deliberado pode ser, sim, algo prejudicial. A especialista ressalta que julgar a partir de uma visão unilateral não é o mais correto.

A transferência do ódio é fruto de uma cultura binária opositora, de um vitimismo individual e cultural.

O ideal seria que em algumas situações, a pessoa pudesse olhar para determinado assunto, aceitar um debate, diálogo e até se colocar no lugar do outro. “A primeira coisa que devemos pensar para o julgamento não ser nocivo é desenvolver a empatia”, afirma.

E se antes o julgamento ocorria facilmente na internet, o processo se intensificou ainda mais nas redes sociais devido à pandemia. “A sensação de ficar protegido por uma tela acaba dando mais liberdade para julgar, elogiar e expor as pessoas. A internet é usada como desculpa para o julgamento errado”, afirma Ellen Moraes, psicóloga clínica e especialista em terapia cognitivo comportamental.

E a era digital não é a única culpada neste processo de julgamento. Pelizer ressalta que isso ocorre de forma exagerada há bastante tempo e muitos usam a pandemia como saída para fazer sentenças massivas e cruéis atualmente. “Se a pessoa já tinha julgamento como hábito, a pandemia só aflorou isso. Mas não é o principal motivo”, afirma. Um exemplo foi o "Big Brother Brasil 21" com tantos "cancelados".

Mas você deve estar se perguntando: estou errando em julgar alguém? O ser humano passa por estes tipos de pensamento, mas tudo deve ser feito com cuidado e nunca para induzir cancelamentos e linchamentos virtuais. “Se a pessoa pensa diferente de você e você não a conhece, não tem porque falar algo. Só emita sua opinião se o outro quiser ouvir e dê espaço para tal. Agora, se ele não solicitou, não tem porque falar e sair julgando. Nós lidamos com seres humanos”, finaliza Moraes.

Ódio gratuito na vida real e nas redes sociais

Segurando a Onda, o projeto de saúde mental do Yahoo (Arte: Fer Ilustra/Yahoo)
Segurando a Onda, o projeto de saúde mental do Yahoo (Arte: Fer Ilustra/Yahoo)

Além da falta de empatia, estamos diante da distribuição do ódio desenfreado nas redes sociais. Recentemente, a cantora Luisa Sonza foi atacada e acusada de provocar a morte do filho do ex-marido, Whindersson Nunes. Sem contar os milhares de julgamentos que ela sofreu após o término do casamento.

E as ofensas não se resumem somente à vida dos famosos e influencers. Está cada vez mais comum conhecer alguém que já sofreu algum tipo de ataque na internet e até fora dela.

Muitas vezes, a violência verbal ocorre simplesmente pelo prazer de ver o outro mal, sem qualquer responsabilidade na fala ou ações. “A transferência do ódio é fruto de uma cultura binária opositora, de um vitimismo individual e cultural. Ou seja, há um julgamento do diferente, daquilo que não sou eu e uma transferência das minhas frustrações, da minha raiva, do meu ódio a este ser que não comunga da mesma ideologia que a minha”, ressalta Pelizer.

Cada um tem suas experiências para fazer suas escolhas. E, mesmo que não concordemos, devemos respeitar porque não vivenciamos a vida do outro para julgarmos como certo ou errado

A especialista reforça ainda que nunca há uma distribuição racional do ódio.” É sempre a partir de uma reação irracional daquele que não acredita que o outro pode ter razão, ou ainda, que eu posso ter culpa por algo negativo ou ainda que eu seja o responsável pelos meus próprios problemas, erros ou decepções”, pontua.

Mas todas essas atitudes vão além da pandemia e não devem ser usadas como desculpa para ataques gratuitos. As especialistas reforçam que pessoas que fazem isso de forma rotineira, produzem atitudes por hábito e até por prazer. “A pandemia não trouxe essa disseminação do ódio gratuito. O que ela fez foi desvelar o caráter de cada pessoa. Assim como há pessoas que se tornaram mais humanizadas, há outras que revelaram de forma exacerbada o que já tinham dentro de si”, alerta a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Mas será que existem maneiras de sair disso? De acordo com Moraes, o mais correto é se esquivar. “A melhor estratégia é evitar e seguir com a vida”. A psicóloga pontua ainda que os agressores não têm capacidade de entrar numa discussão onde ele possa ser refutado. “Ele só quer dizer o que pensa e fazer com o que o outro se sinta o pior.” Por isso, diante de um xingamento gratuito, deve-se evitar qualquer tipo de resposta ou diálogo.

O que deve ser julgado?

Segundo Pelizer, o julgamento deve ser destinado a um especialista: o juiz. Portanto, é errado julgar os outros de forma desenfreada, principalmente quando sua opinião não foi solicitada.

Não faça julgamentos em relação à aparência, estilos de vida, atitudes, sentimentos, escolha política, times esportivos, tudo é apenas um ponto de vista.

“Cada um tem suas experiências para fazer suas escolhas. E, mesmo que não concordemos, devemos respeitar porque não vivenciamos a vida do outro para julgarmos como certo ou errado”, finaliza a professora.

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