Juíza relata caso de tortura de dependente química em loja do Carrefour no Rio de Janeiro

Anita Efraim
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Bucharest, Romania - April 23, 2020: Empty parking lot of French multinational retailer Carrefour is seen at the Orhideea Shopping Center in Bucharest. Romania is in lockdown due to coronavirus.
(Foto: Getty Images)

Diante da revolta após a morte de João Alberto Silveira Ferreira, um homem negro, em um supermercado Carrefour em Porto Alegre, uma juíza relatou um caso de tortura em uma loja da mesma rede. Uma mulher dependente química foi flagrada roubando e foi espancada e estuprada por funcionários do Carrefour.

Cristiana, atualmente Titular da Vara Criminal de Mesquita, na Baixada Fluminense, usou o Twitter para relembrar o caso.

“Uma mulher, negra, lésbica, pobre, dependente química, foi presa por supostamente furtar comida numa filial do Carrefour, no Rio. Ao chegar à audiência de custódia (que, na época, era realizada no prédio do Tribunal, no centro da cidade), vi que o médico que a examinou descreveu que ela estava com um curativo no ânus. Ela dizia que havia se machucado ao evacuar, algo assim. Só que a história real não era essa”, relatou.

Segundo Cristiana, a mulher não queria revelar o motivo de estar ferida, mesmo que todos os presentes pudessem entender que ela havia sido torturada. “Eu permiti que a companheira dela entrasse na sala. Ela sentava ao lado da mulher e dizia ‘fale para eles o que aconteceu’”, escreveu.

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Por fim, a mulher relatou que havia sido torturada. “Ela contou que foi flagrada furtando (uma relação de alimentos bem mais módica do que aquela apresentada na nota fiscal pelo mercado). Não era a primeira vez. Mas naquele dia, algo diferente e terrível aconteceu. Ela foi levada para uma salinha onde foi brutalmente espancada com um pedaço de madeira, inclusive. Não teve coragem de nos contar o mais cruel, e só falou para a psicóloga que a atendeu antes de ser liberada: foi sodomizada, estuprada, como ‘lição e castigo’”, relatou Cristiana.

Segundo a juíza, desde a audiência, que aconteceu entre 2017 e 2018, ela optou por não entrar mais em lojas do Carrefour. “Depois disso, vieram todas as demais histórias que todos sabem. Essa mulher foi atendida pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, que processou o Carrefour. Até quando isso vai continuar acontecendo, com a complacência de tantos... É o que me pergunto quando vejo cenas como a do assassinato de João Alberto.”

Os dois seguranças que mataram João Alberto foram presos e indiciados por homicídio triplamente qualificado.