Juan, filho gay de Popó, cita apoio do pai: 'Ele quer vencer a homofobia'

Juan Freitas fala sobre a relação com o pai, o lutador Popó (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Felipe Abílio (go_abilio)

Era agosto de 1999, Acelino de Freitas, o Popó, já era um dos maiores campeões de boxe que o Brasil tinha visto, mas faltava um título: ser campeão mundial dos Super Penas, um sonho que o país corria atrás desde 1975.

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Naquele dia, Popó enfrentou o russo Anatoly Alexandrov, que detinha o título na época, e ganhou de K.O.. O adversário ficou cinco minutos inconsciente após a luta e o lutador brasileiro sentiu o gostinho de subir no lugar mais alto do pódio. Essa vitória tinha um sabor diferente. Além do título, o boxeador também comemorava a chegada do filho Juan Freitas, que nascera um mês depois.

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Quarto filho de cinco irmãos, Juan cresceu ao lado do pai, o acompanhava em algumas lutas e sempre escutava comparações como: “Vai ser lutador também?”. Mas o garoto sabia que tinha algo de diferente dos irmãos: Rafael, 26 anos, Igor 23, Iago, 22, e Acelino, o Popózinho, 13.

Era uma criança viada, aquele que todo mundo aponta o dedo. Nunca fui de brincar de boneca, nada, mas as pessoas tinham maldade. Chegavam para o meu pai e falavam que eu era gay, a família nunca deu bola e nunca acreditaram”, relembra.

Juan ainda não sabia que era gay, mas tem memórias fortes de como o ambiente em que foi criado refletiu na forma em que era tratado diante das pessoas.

“Teve uma fase da minha infância que comecei a desenhar croquis, queria ser estilista, tinha facilidade, minha mãe me apoiava e meu pai não”, conta o jovem.

“Ouvi do meu pai que ele não me abandonaria”

Juan e o pai, Popó (Foto: Arquivo Pessoal)

O maior campeão de boxe brasileiro não tinha muita noção do que fazer, a não ser negar. Nascido em uma família pobre na periferia de Salvador, na Bahia, a criação de Popó foi como a de milhares outros jovens: cercada de machismo e conceitos de uma masculinidade tóxica. Crescer diante dessa educação imposta por seus avós, antes mesmo de nascer, foi uma dificuldade para o jovem.

“Meu pai nunca foi tranquilão. Ele foi criado no meio machista, o boxe era machista, a condição social dele era machista, é compreensível”, afirma Juan.

O meio machista causava medo, mas o jovem não tentou lutar contra sua natureza. Pelo contrário, aos 15 anos já sabia a sua orientação sexual e chegou a comentar com uma prima. A história vazou para o pai famoso. E foi aí que Juan ficou surpreso.

“Contei para uma prima, que contou para o meu irmão, que contou para o meu pai. Não tinha mais como negar. Falei que era bissexual para amenizar, mas era aquilo. A reação dele foi uma que não esperava. Na hora, ele me ligou, falou que me aceitava e que não iria me abandonar. Não esperava. Foi uma reação bem positiva.”

Há quatro anos “fora do armário” para a família, Juan não ficou só surpresa com a primeira reação do pai, mas também com todos os estigmas que Popó vem tentando entender para criar cada vez mais proximidade.

“Nossa relação melhorou 100% depois disso, a gente ficou mais próximo. Foi uma construção da cabeça dele para respeitar não só a mim, como gay, mas toda a comunidade LGBTQ. Ele quer mudar isso, quer vencer a homofobia também. Tenho toda a paciência para desconstruir a cabeça dele, e ele também tem para mudar. Ele já está 99% desconstruído, e eu estou aberto, estamos construindo juntos. Reconheço que sou muito privilegiado, porque tem gente que é morto dentro de casa. O que eu puder fazer para ajudar a mudar isso, vou fazer”, afirma Juan.

O grande orgulho "doutor”

Foto: Arquivo Pessoal

Cursando medicina na Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), em Salvador, o jovem sempre é citado por Popó como o “grande orgulho” dele. O futuro médico relembra o apoio do pai quando decidiu fazer medicina. Mas confessa que não gosta da forma como ele coloca o fato em algumas entrevistas.

“Quando estava no ensino médio, falei que gostava muito dessa área de ciências. Queria cuidar das pessoas, curar as pessoas, mas para cursar medicina demanda um emocional, um psicológico. Ele me ajudou no cursinho e agora na faculdade”, conta.

“Ele fica super orgulhoso com isso. Mas tem uma coisa que não gosto que é quando ele associa o fato de eu ser gay e fazer medicina. É como se meu nível de aceitabilidade só existisse porque faço medicina, entende? Mas e se eu não fizesse nada? Eu ainda seria assim, teria sentimentos.”

Muito mais próximo do pai do que na adolescência, Juan entrega o principal programa que eles adoram fazer juntos: “A gente é muito diferente, mas por incrível que pareça gostamos de sair para comer.”

Não é mimimi

Foto: Arquivo Pessoal

Em entrevista recente ao Jornal da ‘Cidade da Rádio Metrópole’, Popó contou que chama carinhosamente seu filho Juan de “viadinho”, o que acabou causando críticas ao ex-pugilista. Juan avalia que a frase foi mal entendida. Segundo ele, o pai não teve a intenção de ofender.

“Acabei vendo esses comentários. Vi alguns positivos, outros negativos dizendo que passou uma má impressão. O que ele falou é uma forma da gente se tratar, é como se fosse brother. Ali não há intenção alguma de machucar. Se eu falasse que não gosto, ele pararia, mas realmente pode ter ficado parecendo algo pejorativo.”

Prestes a completar 20 anos, Juan virou um tipo de fiscal de bons modos do pai e dos irmãos. Ele tenta orientar e conversar sobre atitudes que considera machistas ou inapropriadas para o contexto atual.

“É a masculinidade tóxica que a gente tem que saber remediar. Mas estou sempre lá para ajudar nas coisas e mudar os pensamentos. Se eles fazem algum comentário machista, que é tido como comum, dou pitaco e eles escutam.”

Atualmente solteiro, Juan revela que o pai nunca teve problema em receber seus namorados em casa. Popó tem apenas uma preocupação além do normal por conta da violência contra LGBTQ+. Vale lembrar que o Brasil é o país que mais mata essa população no mundo, segundo a ONG Transgender Europe.

“Ele não quer que saia de casa. Ele fica muito preocupado. Sou muito de ir em festas e ele até reza”, contou rindo. “Mas é aberto, aceitava meu namorado, deixava dormir em casa.”