Plateia jovem renova público e lota shows da antiga MPB

Por Vinícius Marques

Desde a chegada das mídias digitais, a indústria musical tem passado por grandes mudanças. Essa transformação na forma de produzir e consumir música segue em constante mutação, primeiro com as vendas online, nos anos 2000, e mais recentemente com o advento das plataformas de streaming. Para alguns artistas, essa adaptação às vezes pode ser mais complicada, principalmente os que estão na estrada há mais tempo.

Com os virais das redes sociais, no entanto, temos casos de artistas que conseguem recuperar sucessos antigos, mas outros ainda acabam perdidos nesse mar de bytes. Fato é que muitos deles estão por aí, na ativa e lotando shows com um público diverso que sabe todas as músicas na ponta da língua.

Grande parte desse público vem de um movimento crescente que está chamando atenção: uma plateia mais jovem, na faixa dos 20 anos. São eles que estão ligados nos aplicativos de vídeos instantâneos e que alimentam os algoritmos para que as músicas desses artistas cheguem a mais pessoas que compartilham o estilo musical.

Um exemplo é o mestrando em História, Felipe Camargo, de 24 anos. Apesar de não frequentar tantos shows por ser de uma cidade que não é a capital do estado e que, portanto, recebe menos atrações musicais - ele mora em Londrina, no Paraná -, o pesquisador conta que já esteve presente na plateia de artistas como Ivan Lins e Djavan.

Mas a grande paixão musical de Camargo é mesmo o grupo de artistas baianos que surgiu no final dos anos 1960, formado por Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso e Tom Zé. Inclusive, Gal Costa é tema da dissertação do mestrado de Camargo, onde ele pesquisa a trajetória artística da cantora na contracultura dos anos de ditadura militar.

Felipe Camargo brincando com um disco de Gal Costa em uma loja de vinil (Foto: Arquivo pessoal)
Felipe Camargo brincando com um disco de Gal Costa em uma loja de vinil (Foto: Arquivo pessoal)

Ele também revela que possui uma formação musical mais eclética. Por influência de sua mãe, Camargo diz saber cantar desde músicas sertanejas da antiga geração até Raul Seixas, chegando no grupo da MPB mais raiz como conhecemos.

Por mais que a gente perceba que há uma renovação musical acontecendo, de interesses de novas gerações, eu acho que ainda é uma tradição que é mantida muito por conta de ser uma coisa que passa de geração para geração”.Felipe Camargo, mestrando em História

“Existe a predominância de outros estilos, outros gêneros, mas a MPB ainda permanece viva e vai continuar permanecendo nas gerações futuras”, acrescenta.

Camargo conta também que, pessoalmente, conhece poucas pessoas da sua faixa etária que se interessam pelos mesmos artistas que ele, mas que na graduação conheceu uma grande amiga pelo gosto em comum. Já na internet, o mestrando criou uma rede de amigos que compartilham do seu interesse por artistas da MPB e há anos mantém contato.

Outra jovem que compartilha do interesse por outra geração musical é a recém-formada jornalista Eduarda Ramos, de 22 anos, da cidade de São Paulo (SP). Apaixonada pela banda goianiense Boogarins desde 2018, ela decidiu abrir seus horizontes para outros sons. Pesquisando as referências da banda do coração, conheceu o grupo Os Mutantes, formado por Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias.

A paixão pelos Mutantes foi tão forte que o grupo virou tema do TCC de Eduarda, onde ela relaciona como a música do passado conversa com a música do presente. “No TCC, falo muito dessa coisa da contracultura, desse som que não é hegemônico feito por Os Mutantes e traço esse comparativo com a atual indústria cultural brasileira que é muito pautada no sertanejo”, explica.

Para além do grupo paulista, a jovem também é fã de Caetano Veloso, apresentado a ela por um ex-namorado. Eduarda conta que começou a ouvir por influência desse ex e lembra que o primeiro disco do baiano com que teve contato foi "Transa", de 1972. “Eu fiquei fissurada no álbum, de não conseguir parar de ouvir por uns quatro meses seguidos, e a partir disso eu hoje sou 'mundinho Caetano Veloso'”, brinca.

Naquele mesmo ano de 2018, ela viu o ídolo num palco pela primeira vez. Foi na Virada Cultural de São Paulo. Hoje, espera poder ir à nova turnê do artista, que está rodando o Brasil divulgando seu mais recente lançamento, o álbum ‘Meu Coco’ (2021). Mas, segundo Eduarda, “conseguir ingresso é brigar com as fãs, muito difícil”.

Choque de gerações

Essa briga por ingressos faz parte do choque geracional que acontece nos shows de cantores da MPB. Isso porque, além de cativar um público novo, esses artistas ainda possuem uma base de fãs sólida, que os acompanhou com o passar das décadas e segue presente nos shows.

O crítico musical Luciano Matos diz que existe uma máxima que se fala – e que ele concorda –, de que “música de qualidade não tem época, não morre e não é perecível ao tempo”. Ele avalia que “a tradução dessa MPB vai permanecer independente da época dela”, principalmente porque boa parte desses artistas “continuam produzindo trabalhos interessantes e mostrando relevância”.

“Claro que em alguns casos é o repertório mais antigo que chama mais atenção, mas acho que é natural. O público jovem é muito bem-informado, tem muito acesso a muita coisa”, diz Matos. “O mesmo público que enche esse show dos veteranos é o mesmo público que está acompanhando Rachel Reis surgir, indo aos shows dela, lotando os shows de Baco Exu do Blues, por exemplo”, acrescenta.

Para ele, a marca da atual geração é “ouvir de tudo sem discriminação”, principalmente pelo fato de estarem imersos na internet e suas tecnologias, tendo acesso ao que está chegando e buscando suas referências, como foi o caso de Eduarda. “É definitiva uma geração muito aberta a gêneros musicais diferentes, diversos”, analisa Matos.

Esse é o caso de Tiago dos Santos, 19 anos, morador de Valinhos (SP). O estudante conta que quando era mais novo, ouvia apenas música pop internacional e não era muito chegado à música brasileira. O primeiro contato com a MPB foi com a abertura da novela Senhora do Destino, que tinha como tema a música "Encontros e Despedidas", de Maria Rita.

O interesse pela música o fez pesquisar quem cantava, o levando a conhecer a mãe da cantora, Elis Regina. Hoje, Santos se considera um grande fã de Elis e acredita ter visto quase todas as suas entrevistas disponíveis na internet. “O jeito dela de pensar repercutiu muito na minha cabeça. Eu era uma pessoa antes, e depois de gostar da Elis me considero outra. Abriu minha mente”, conta.

Outros dois artistas do coração de Santos são Milton Nascimento e Rita Lee. O estudante nunca encontrou nenhum dos dois artistas, mas recentemente ele adotou um cachorro que a cantora paulista apadrinhou e divulgou nas redes sociais detalhes para quem tivesse interesse em cuidar do animal. Tiago foi o primeiro a ligar. “Fui em São Roque buscar o cachorrinho, numa distância considerável daqui. Dei para ele o nome de Bituca, em homenagem ao Milton”, revela.

A dona dos cachorros apadrinhados por Rita contou para a cantora sobre o nome escolhido por Santos e ele diz que, por conta disso, quando foi buscar o cachorrinho, recebeu da amiga de Rita um livro da cantora autografado e com dedicatória. “Está escrito: 'Para Tiago, um beijo'. Foi bem no meio da pandemia, então acredito que por causa disso que a Rita não estava lá. Mas, nossa, ganhei um autografo da Rita e um cachorro, que era um sonho. Um tempo depois, a Rita postou no Instagram dela a foto que eu tirei com o cachorrinho. Todos que adotaram estão lá no feed dela”, diz o estudante.

Santos conta ainda que desde o momento que passou a se interessar por esses artistas já foi diversas vezes em seus shows. No de Maria Rita, por exemplo, ele já esteve presente em quatro espetáculos. Bethânia, Gal e Caetano, uma vez cada. Já está com ingressos garantidos para os shows de Marisa Monte e Roberto Carlos.

Santos também esteve no show de encerramento da turnê do Clube da Esquina, de Milton Nascimento, um dos seus ídolos. Ele já garantiu os ingressos para a turnê de encerramento de carreira do cantor mineiro, A Última Sessão de Música. O estudante irá no primeiro show, que acontece na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, como também no último show da turnê, a ser realizado no Mineirão, em Belo Horizonte.

Jhonatan Zati também com um disco de Gal Costa (Foto: Arquivo pessoal)
Jhonatan Zati também com um disco de Gal Costa (Foto: Arquivo pessoal)

Há também uma parte do público mais jovem que, apesar de não frequentar os shows, ainda se dedica a ouvir e tentar entender esse movimento que atinge sua geração. É o caso do mestrando em educação Jhonatan Zati, 27 anos, morador da cidade de Elói Mendes (MG).

Fã de Maria Bethânia, ele acredita que, culturalmente, nós nunca superamos a Tropicália como movimento, e é por isso que tantos jovens ainda hoje buscam por esses artistas.

Ela promoveu uma vanguarda tão profunda de pensamento, performance, ser e estar no mundo, que eu acho que até hoje quem promove uma arte disruptiva, fora dos padrões, ainda bebe da fonte da Tropicália. Seria um tanto estranho que a nossa geração tivesse parado de ouvi-los".Jhonatan Zati, mestrando em educação

“Todo mundo recorre aos tropicalistas em algum sentido. Quando ouço Duda Beat, por exemplo, eu ouço a Tropicália. Ouço a tropicália na Linn da Quebrada também”, cita o mestrando.

Zati acredita que o que contribui para o interesse de sua geração por esses artistas é o fato de a MPB não renegar as novas gerações. Ele cita algumas colaborações de artistas veteranos com os novatos, como foi o caso de Alcione, que gravou com As Baías, e Fafá de Belém, que gravou com Jhonny Hooker. “Eles não renegarem os novos artistas é um convite para a nova geração conhecê-los também. Eles são, de fato, populares”, finaliza.