José Simão se abre em livro de memórias que não fecha a cara nem para Jair Bolsonaro

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 12.07.2016 -  José Simão no evento  -  Show
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 12.07.2016 - José Simão no evento - Show

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há anos, o jornalista José Simão almoça toda semana num restaurante nos Jardins com o amigo Matinas Suzuki. De estômago delicado, pede invariavelmente espaguete com aspargos, meia porção.

Já Suzuki -o responsável por lançar Simão como colunista na Ilustrada, nos anos 1980- varia o menu. Mas sempre, antes, dividem bolinhos de arroz, e depois, merengue.

Pois foi num desses encontros que Suzuki, hoje diretor da Companhia das Letras, convenceu Simão a escrever suas memórias para a editora. Feito durante todo o ano passado, "Definitivamente Simão" será lançado nesta segunda, com noite de autógrafos no restaurante Spot, na mesma avenida Paulista onde o autor nasceu há 78 anos e meio.

"A ideia original era escrever sobre a história recente do Brasil através de minhas colunas", conta Simão. "Isso acabou virando um livro com as experiências que vivi no Brasil, país que amo."

Só que, mais do que isso, o jornalista conta ali sua própria trajetória, da infância em São Paulo ao desbunde no Rio de Janeiro, da paixão pela Bahia às suas viagens pelo mundo.

O resultado é perfeito para quem já é fã do Macaco Simão -e quem não é? O jornalista desfia suas memórias como num fluxo de pensamento, no mesmo estilo literário em que escreve sua divertida coluna há décadas. Frases rápidas. Exclamações no final! Bom humor a toda prova.

Com 280 páginas, não é uma autobiografia cheia de detalhes da vida ou mesmo de histórias sobre o Brasil. Também não respeita a cronologia. "É um livro afetivo", diz ele. "Memórias do coração. Quando o coração lembrava, eu escrevia. Não fiz pesquisa nenhuma."

Entre as memórias do coração de José Simão estão momentos como aquele em que ele dançou com Rudolf Nureyev, um dos melhores bailarinos do século 20, numa balada em Amsterdã (e ainda foi chamado de atraente pelo astro soviético).

Ou quando passava o dia nas chamadas dunas da Gal, em Ipanema, no Rio de Janeiro do início dos anos 1970, ao lado do poeta Waly Salomão e esnobando o adolescente Cazuza (que tentava se enturmar, mas era jovem demais).

E a época em que andava de gola rolê e um livro de Sartre debaixo do braço ("nem lembro se lia, era só pelo carão!").

Mas "a vida não é um eterno hahaha!", escreve José Simão em algum ponto de seu livro.

De fato, também estão ali os momentos ruins, como quando seu companheiro de três décadas, Antonio Salomão (sobrinho de Waly), morreu numa manhã de 2006.

Mas mesmo aí, ele não se entrega. "Depois do velório, pedi para Astrid [Fontenelle] dormir em casa. Quando acordei com ela ao lado na cama, eu disse 'fiquei viúvo, mas não virei hétero'. Rimos!"

Tempos depois, conheceu o sobrinho de outro grande amigo, Paulo Borges, o idealizador e diretor da São Paulo Fashion Week. Basta dizer que o livro é dedicado a esse rapaz, Gustavo, para sabermos que houve um final feliz.

No início da produção de "Definitivamente Simão", Simão ganhou um exemplar das memórias de Oswald de Andrade, uma obra chamada "Um Homem sem Profissão".

"Esse livro acabou me influenciando bastante quando comecei a escrever o meu", afirma Simão. "Eu fui entendendo aos poucos o que dava consistência ao livro, como a história do Rudolf Nureyev, quando escrevo que eu estava 'saindo da casca'."

Madrugador, desses de acordar antes das galinhas, Simão escreveu suas memórias às cinco e meia da manhã de diversos dias. "Acordo muito cedo e às cinco e meia da manhã, ainda tudo escuro, vou para o sofá da sala pensar. E foi quando escrevi." E música? "Sem música. Nunca escuto nada. Só em show a vivo."

E, para quem acha que a escrita taquigráfica do Macaco Simão é fácil porque é enxuta, ele esclarece que "esse livro é fácil de ler, mas foi difícil de escrever". "Como transformar um pensamento complexo numa frase?", pergunta.

"Porque uma frase é muito mais impactante que um parágrafo. Passei meses pensando em frases", diz o jornalista.

E, para não dizerem que não falamos de política, há um capítulo em que Simão solta opiniões e lembra encontros com uma dúzia de expoentes, entre eles o atual presidente.

"Bolsonaro! A desgraça! O genocida! O coisa-ruim! O cão! O insepulto! O miliciano psicopata! O Brasil passou a ser o pior país para se viver. Essa façanha ele conseguiu!"

"Quando um povo está fodido e perdido se agarra ao primeiro salvador que aparece. Quando o Rio estava perdido e fodido, aplaudiu o surgimento das milícias. A dinâmica é a mesma!", compara Simão.

"A família Bolsonaro é paranoica, sexualmente mal resolvida e sofre de complexo de inferioridade! Todos são seus inimigos! Inclusive o vírus! Bolsonaro não sabe o que é amor nem misericórdia. Não se importa com a morte das pessoas. Porque nas milícias é assim! Morte é natural!"

E, de novo, parece que ele vai entregar os pontos, mas não entrega. "Eu não fico de mau humor por causa do Bolsonaro", afirma José Simão. "De jeito nenhum. Esse gostinho eu não vou dar para ele."

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