José Roberto Aguilar conta história da cultura em telas cobertas de respingos

CLARA BALBI
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 15.10.2019 - O artista José Roberto Aguilar durante evento em SP. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 15.10.2019 - O artista José Roberto Aguilar durante evento em SP. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O artista José Roberto Aguilar pede a esta repórter para pensar num número. Feita a escolha -sete-, ele caminha até uma tela em que um jorro de tinta colorida cobre retângulos e quadrados pretos e brancos. O "Destino Sete", lê numa plaquinha, em voz alta, "personifica a infância e a brincadeira".

Os tais destinos, 35 no total, seguem todos a mesma fórmula: padrões geométricos monocromáticos aqui e ali ocultos por esguichos de cor. E, acompanhados das plaquinhas que adivinham o futuro, funcionam como um bom epílogo para a primeira parte desta mostra no Centro Cultural Fiesp. Afinal, as pinturas ao lado se propõem a narrar a história da cultura, dos filósofos pré-socráticos aos algoritmos.

Pode parecer ambicioso, mas o multiartista -Aguilar é pintor, videomaker, performer, escultor, escritor, músico e curador- já se debruçou sobre a origem da humanidade várias vezes nos seus 60 anos de carreira.

Um quarto de século atrás, no MAM, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, ele se inspirou numa tradução de Haroldo de Campos para a Gênesis para pintar os seis dias em que Deus criou o mundo. Depois, ilustrou o nascimento do homem -as pinturas, que destoam do universo do artista por serem em preto e branco, foram expostas de novo há dois anos.

A exposição de agora avança ainda um capítulo nesta história. Nele, "o homem inventa o homem", diz Aguilar. Questionado se o tema teve a ver com o momento de crise da cultura no país, ele assente. "É uma crise pré-pandemia."

As telas, muitas pintadas semanas antes da abertura, trazem as explosões de cores tão associadas ao artista, assim como a sua mistura característica de abstração, figurativismo e texto. As palavras ali rabiscadas, aliás, dão uma dica para o público de a que personalidade ou momento histórico Aguilar está se referindo.

"A Cidade de São Paulo", por exemplo, estampa nomes de bairros paulistanos, enquanto "Gil e Amigos" traz, numa caligrafia mais caprichada, os nomes de Caetano, Bethânia, Gal, Jorge Mautner -o último, companheiro de Aguilar no movimento performático-literário Kaos quando os dois eram só adolescentes.

Também há espaço para citações imagéticas nas pinturas, caso de "O Pêndulo da História (Guerra ou Paz)". Nela, uma reprodução da "Guernica" de Picasso convive com dois "loucões", como Aguilar chama as duas figuras caóticas que disputam um bastão com garras de tinta. A da esquerda, uma figura preta sobre um fundo branco, representa a harmonia, diz o artista. A da direita são "os 'bolsominions', o Donald Trump".

É um embate entre dois pólos que aparece em vários momentos da mostra. Em "O Destino de uma Nação (Cada Nação Inventa o Seu Destino)", uma bandeira do Brasil coberta de respingos tem uma metade nas cores originais e a outra em preto branco, como num negativo fotográfico.

Em "A Invenção do Algoritmo" o plano de fundo é rasgado por traços brancos que representariam "a luz surgindo, um nascimento", segundo Aguilar. "Tudo tem um lado positivo e um negativo", justifica o artista.

Essa dualidade também marca os 35 "Destinos". Mas se lá os futuros são leves, quase sempre otimistas, aqui eles são bem mais nefastos.

Concluindo a mostra estão duas telas. Uma delas, "o gostosão da exposição", segundo Aguilar, tem 8,5 metros de comprimento. Chamada de "Rio Amazonas", é inspirada nas paisagens de Alter do Chão, no Pará, onde o artista vive parte do tempo há mais de 15 anos. Mas a imagem que surge entre as pinceladas violentas lembra menos um rio plácido e mais uma queimada, o vermelho e o amarelo se infiltrando pela tela.

Aguilar afirma que a obra fala da destruição da natureza. E que, caso "essa ignorância que está mudando totalmente o planeta" continue, o que vai nos restar é o cenário da tela em frente. Seu título é "Casamento em Marte 2050".

DESTINOS, O HOMEM INVENTA O HOMEM

Quando Qui. a dom., 13h às 17h. Até 20/12

Onde Centro Cultural Fiesp - av. Paulista, 1313

Preço Grátis (agendamento p/ www.sesisp.org.br/meu-sesi)

Classificação Livre