Jornalista negro processa CNN por racismo e diz ter sido tratado como segurança

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um caso raro, um jornalista negro está processando a CNN por racismo estrutural. Fernando Henrique de Oliveira, que trabalhou em 2020 para a afiliada brasileira do canal, produzindo imagens e reportagens para a emissora como correspondente em Nova York, entrou com uma ação judicial em novembro daquele ano contra a empresa, pedindo indenização por danos morais.

O caso foi revelado pela revista Piauí nesta sexta-feira (4) em uma reportagem baseada no processo, que agora corre em segredo de Justiça. A ação não acusa nenhuma pessoa específica de discriminação racial, mas a emissora, que nega as alegações do jornalista.

Um dos exemplos discriminatórios que o jornalista alega ter passado foi um pedido de uma editora da CNN em São Paulo para que ele desse um testemunho pessoal, no ar, sobre preconceitos que sofreu, como no caso em que foi agredido e xingado verbalmente ao fazer imagens nos arredores de um estádio de futebol em Paris.

"Para Oliveira, a CNN lhe destinar uma tarefa como aquela é tão invasivo quanto solicitar a um repórter judeu que, durante a cobertura de uma passeata contra os neonazistas, evoque as perseguições antissemitas que já enfrentou", diz a reportagem.

Oliveira diz ainda que jornalistas negros ganham menos do que os brancos na CNN, mesmo realizando as mesmas atividades, e cita uma ocasião em que a emissora pediu a ele que fosse segurança da repórter Luiza Duarte, ex-colunista da Folha de S.Paulo, em pautas noturnas em Nova York.

O jornalista cita ainda um pedido do canal para que ele trouxesse 38 equipamentos de Nova York, "entre microfones, cabos, baterias, refletores e um iPhone 11", quando retornou para São Paulo depois de ser demitido.

O motivo da demissão, segundo a reportagem, foi divergência salarial. Ao pedir que o profissional voltasse para São Paulo, a emissora não quis manter no Brasil o salário de US$ 4 mil, equivalentes a cerca de R$ 21 mil hoje, que ele recebia nos Estados Unidos.

Em sua defesa, a CNN nega todas as alegações, de acordo com a Piauí, e diz que o ex-funcionário age de maneira "leviana" por criar fatos que não existiram.

Segundo o advogado da emissora, Marcelo Costa Mascaro Nascimento, caso o canal fosse racista, não teria permitido que Oliveira expusesse no ar situações de preconceito pelas quais passou. Também não teria dado espaço para que outros profissionais negros se pronunciassem durante a cobertura do assassinato de George Floyd, fato que desencadeou uma onda mundial de protestos em prol de vidas negras.

"A empresa-ré adota comportamento totalmente diverso daquele relatado [pelo ex-funcionário]. Observa-se claramente que a reclamada abriu espaço para seus colaboradores externarem sua opinião, como forma de reforçar a importância de assegurar o respeito ao ser humano, independentemente da cor da pele", diz o advogado, segundo a reportagem.

O advogado da CNN sustenta ainda que nenhum chefe exigiu que Oliveira se manifestasse no ar sobre situações de preconceito, e que o pedido que recebeu da editora de São Paulo seria uma indagação que poderia ser negada, e não uma ordem. O jornalista não declinou o pedido.

Sobre a suposta disparidade de salários entre negros e brancos, a empresa não abriu sua folha de pagamentos para a Justiça e afirmou que a acusação é "infundada". A respeito de ter pedido que Oliveira fosse segurança de Luiza Duarte em pautas noturnas, a defesa afirma que queria apenas que o profissional desse suporte aos boletins da correspondente, se encarregando de questões técnicas, como a luz, por exemplo.

Além das acusações de racismo, o profissional afirma que a emissora lhe deve horas extras e adicionais noturnos. O montante pedido por ele como indenização é R$ 700 mil, dos quais R$ 50 mil seriam a reparação pelos atos racistas. Caso ele perca, terá que pagar o advogado da CNN e outros custos da Justiça.

A ação tramita na 27ª Vara do Trabalho de São Paulo e, como está em segredo de Justiça, as partes não podem se manifestar publicamente.