Jojo Todynho na "Dança dos Famosos" é respiro em meio a país racista e gordofóbico

·6 min de leitura
Jojo Todynho é uma das atrações do Dança dos Famosos (Reprodução Instagram)
Jojo Todynho é uma das atrações do Dança dos Famosos (Reprodução Instagram)

Jojo Todynho é um dos destaques da nova edição da "Dança dos Famosos", e confessou, após sua primeira apresentação, que quase desistiu de realizar esse sonho por medo dos haters e da gordofobia que recebeu ao ser confirmada na atração.

"No primeiro dia de ensaio, eu chorei, né? Porque, às vezes, me saboto, leio comentários. As pessoas fazem tudo para botar para baixo, dizem que não vou conseguir. Aí também fiquei na minha limitação porque eu tô bem acima do meu peso, não tenho vergonha disso, sou orgulhosa de quem eu sou e o que puder fazer para melhorar, vou melhorar também", afirmou a funkeira, feliz com seu desempenho.

Jojo Todynho é um fenômeno: no começo da carreira, em 2017, foi logo uma das apostas do novo selo da Universal destinado ao funk. No Youtube, já tinha um canal elogiado e famosos falando sobre sexo e relacionamento. Em 2020, a artista venceu os ataques racistas e gordofóbicos e foi a vencedora do reality "A Fazenda". Jojo tem credenciais mais do que suficientes para não precisar justificar sua merecida presença no quadro, mas já entrou no palco de Luciano Huck se desculpando. O motivo? O mesmo racismo e gordofobia que tornaram sua trajetória em "A Fazenda" tão dolorosa e singular.

Nenhuma pessoa magra precisa automaticamente falar sobre peso ao subir no palco de um reality como o "Dança dos Famosos". Pessoas gordas dançam, são atletas, fazem esporte e malham, já que peso não é sinônimo de limitação, mas a trajetória de pessoas gordas em realities como "Dança dos Famosos" é sempre marcada por histórias de superação e heroísmo, como se o que elas fizessem fosse impossível para qualquer um que não seja normativo.

Pessoas gordas não precisam de narrativas condescendentes de "superação", e não são heroínas apenas por viverem suas vidas livremente. A gordofobia inerente a esses discursos subestima a capacidade de pessoas como Jojo, que foi muito elogiada pelos jurados e mostrou seu talento logo nos primeiros minutos da atração.

Nem toda dança é salto

Além da gordofobia presente na dúvida da capacidade de Jojo, é flagrante o capacitismo que só consegue pensar a dança como uma série de acrobacias impossíveis pensadas para pessoas de corpo padrão e sem nenhuma limitação de mobilidade.

O jurado Carlinhos de Jesus resumiu bem essa questão ao comparar a performance da atriz Vitória Strada e a de Jojo. Ao falar sobre a dança de Vitória, Carlinhos deu um toque para o coreógrafo da atriz alertando sobre a quantidade excessiva de pegadas no ar e acrobacias, afirmando que Jojo não precisou de nenhum subterfúgio para entregar um bom forró. Acrobacias e coreografias mais voltadas para a ginástica, por exemplo, não são um problema em uma performance de dança, mas a questão esbarra no capacitismo quando só são consideradas boas coreografias aquelas que podem ser feitas apenas por pessoas magras e leves.

Dançar é um ato que pode ser feito por pessoas magras, gordas e com deficiências. O problema não são as pessoas e suas limitações, e sim o contexto de exclusão das competições que definem profissionalmente o que é considerado "dança".

Histórico gordofóbico

Jojo não é a primeira pessoa gorda do "Dança dos Famosos", que já recebeu em seu palco artistas como Tiago Abravanel, Sergio Loroza, Leo Jaime, Ed Gama e Fabiana Karla. Em 2020, entretanto, o programa se envolveu em uma polêmica ao retirar de seu elenco o cantor César Menotti.

“Eu já tinha me programado para passar esse tempo lá. Em seguida, a minha assessora me ligou e informou que não estaria mais [no Dança dos Famosos] por causa da minha obesidade. Mas já quero deixar claro que isso não me chateou em nada, tô super de boa, só ri da situação porque será que ninguém viu desde o começo que eu era gordo?”, comentou César Menotti na época. De acordo com a justificativa da TV Globo, o cancelamento do convite aconteceu devido à pandemia da Covid-19, já que Menotti era considerado de alto risco para o desenvolvimento da doença.

Com a continuidade da pandemia, é impossível excluir pessoas gordas e com limitações físicas e de saúde de atrações de grande porte por mais tempo. O cancelamento do convite do sertanejo escancara a necessidade de repensarmos a segurança dos eventos e a inclusão de todas as pessoas em atrações na TV, já que todos deveriam ter o mesmo direito de acesso. A solução sempre deveria ser adaptar o evento, em vez de cancelar o convite de pessoas que fogem dos padrões normativos e exigem adaptações de acessibilidade e segurança sanitária.

Sonho de ser bailarina

Ao falar no "Encontro" com Fátima Bernardes sobre ter aceitado o convite para o reality, Jojo Todynho afirmou que sempre sonhou em ser bailarina, mas não conseguiu ter acesso ao mundo exclusivo e racista da dança clássica. "Quando veio o convite, falei, 'meu Deus, como vai ser isso?' Vai ser uma superação para mim, vou descobrir também uma nova Jordana porque eu queria fazer balé."

O balé é um espaço da cultura clássica notoriamente racista e gordofóbico: é comum o estereótipo supremacista de que mulheres negras não tem a "graciosidade" ou o "físico" necessário para praticar a dança, e grande partes das marcas que produzem peças para bailarinas simplesmente não disponibilizam collants em tamanhos maiores ou cores que funcionem para peles escuras. Nomes como Michaela DePrince, Ingrid Silva e Misty Copeland já despontam entre as bailarinas de renome no cenário mundial, mas o caminho ainda é árduo e muitas vezes impossível, especialmente em um cenário como o Brasil.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e a segregação racial continuou na ausência de oportunidades, de direito a voto, e posteriormente no sistema prisional (pessoas pretas representam 66,7% da população carcerária). O racismo está entranhado no mercado de trabalho, nas oportunidades educacionais, na televisão, no entretenimento e em todas as camadas da sociedade brasileira.

Realizar sonhos

Segundo uma pesquisa do Grupo Chroma veiculada no jornal especializado em mídia "Meio & Mensagem", 37% dos entrevistados acreditam que a publicidade brasileira ainda é racista, e que 70% das propagandas não são genuínas quando abordam diversidade em suas peças de marketing. A impressão negativa é fruto de um processo histórico que revela como as marcas do racismo estrutural em nossa sociedade ainda são visíveis – às vezes de forma grosseira e escancarada, outras de um jeito mais velado.

Em um país profundamente desigual como o Brasil, é essencial que mulheres pretas e gordas como Jojo Todynho possam realizar seus sonhos sob os olhos da TV aberta, diante de toda uma população que é subjugada pela opressão da branquitude. Jojo, mulher gorda e preta, tem o direito de dançar mostrar sua excelência, e se transformar na bailarina que a opressão racial e normativa lhe negou.