Indicado a 6 Oscars, ‘Jojo Rabbit’ faz piada com nazismo e Hitler

Por Diego Olivares

'Jojo Rabbit', que estreia no Brasil nesta quinta-feira (6) começa com uma versão em alemão de ‘I Wanna Hold Your Hand’, dos Beatles, enquanto imagens em preto e branco de fãs ardorosos correndo atrás de seu ídolo enchem a tela. Um espectador menos atento pode pensar que está vendo cenas da Beatlemania, mas logo fica claro que trata-se da multidão que se reunia entre o final da década de 1930 e o começo dos anos 1940 para demonstrar sua admiração por Adolf Hitler.

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É a forma carregada de sarcasmo com a qual o diretor neo-zelandês Taika Waititi apresenta uma das premissas principais de seu filme: o führer era o principal ídolo de muitos alemães à época, movido por uma avassaladora campanha de propaganda e discursos explosivos, nem sempre preocupados com verdades factuais ou diplomacia. 

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Trata-se de uma receita que permanece viva até hoje no campo político, capturando corações e mentes de quem acredita em líderes extravagantes que se dizem “anti-sistema” e está à procura de um grupo hegemônico para integrar. É o caso de Jojo (Roman Griffin Davis), solitário garoto de dez anos, que vê num acampamento para jovens nazistas sua chance de enfim fazer novos amigos, sem refletir muito sobre a ideologia dominante naquele ambiente.

“Naquela época, se você não fizesse parte da Juventude Hitlerista, você seria alvo de muito bullying”, contou Waititi, em entrevista ao site 'Collider’, aludindo às pesquisas que fez para adaptar para a tela grande o livro de Christine Leunens que deu origem ao roteiro. “Era algo que toda criança queria fazer parte. Então você não tinha muita escolha”.

Como se não bastasse, Jojo ainda transforma Hitler em seu amigo imaginário, abrindo espaço para aparições do próprio cineasta interpretando o expoente máximo do nazismo. “O personagem é um bufão e um idiota, assim como eu”, brincou na mesma entrevista, explicando sua visão para um dos personagens mais odiosos da História.

Sátira anti-ódio

Por mais que os diálogos divertidos e a representação quase inofensiva do capítulo mais doloroso do século 20 deem uma certa leveza ao filme - o que certamente deixa espaço para críticas de quem não vê graça nenhuma no assunto -, o drama humano está presente. Este aspecto fica evidenciado de vez quando o jovem protagonista encontra Elsa (Thomasin McKenzie) uma garota judia escondida em sua casa, salva pela mãe dele (papel de Scarlett Johansson).

Para a surpresa de Jojo, a menina não traz chifres na cabeça nem tem o poder de ler mentes, ao contrário do que seus colegas e tutores diziam sobre os judeus. Ela é apenas uma adolescente assustada e acuada, com sonhos de reencontrar o namorado e viver um futuro tranquilo na França.

Fica claro, então, que 'Jojo Rabbit' é, acima de tudo, um filme sobre esperança e tolerância, contada de forma até bastante tradicional, apesar do ponto de partida inusitado. Os risos dão lugar às lágrimas, e o tom fica cada vez mais carregado no longa que se define, em seu pôster internacional, como uma “sátira anti-ódio”.

Indicado a seis Oscars, (melhor filme, melhor atriz coadjuvante, melhor edição, melhor figurino, melhor design de produção e melhor roteiro, única das categorias na qual é favorito) o longa traz uma mensagem importante para os dias atuais, embalado em um viés cômico, escolha que não tem nada de acidental.

“A comédia sempre foi, por milhares de anos, uma forma de conectar o público e entregar mensagens mais profundas ao desarmar o espectador e abri-lo a receber essas mensagens”, filosofou Waititi, em conversa do final do ano passado com o jornal britânico 'The Guardian'.

“Comédia é bem mais poderosa que o drama puro e simples, porque com o drama as pessoas tendem a se desligar, se sentir culpadas ou ficar deprimida no final… Geralmente a mensagem não permanece com elas tanto quanto numa comédia”.