Johnny Rice: o índio-surfista

O índio mais surfista da história dos EUA – e até do Brasil (Reprodução)

Por Emanoel Araújo

Como pode um índio nascido na Dakota do Norte rodar o mundo, parar no Brasil e ser decisivo no desenvolvimento do surfe no país? O Yahoo Esportes apresenta a história, no mínimo curiosa, de Johnny Rice

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Filho de uma mãe não-nativa e o pai, um índio americano, Johnny nasceu no nordeste do país, em Indiana. Graças ao emprego da família na Marinha, logo eles se mudariam para Califórnia. Ainda na infância Johnny é abandonado pelo pai e devido ao preconceito da época, a mãe esconde do garoto suas verdadeiras raízes. A redescoberta de seu origem será um marco na sua vida, como veremos a seguir.

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:: O INÍCIO

Índio americano saiu do meio dos EUA para se destacar na Califórnia (Arquivo Pessoal)

Johnny Frances Rice viveu a adolescência dentro da água. A popularização do surfe estava a poucos metros de casa, na praia de Malibu. Vivendo no epicentro do esporte, ele surfou com os melhores e chegou a conquistar alguns títulos como competidor.

Sua vida mudou após conhecer o ‘pai dos shappers’, Dale Velzy, o jovem Johnny aprende a arte de modelar uma prancha. Como você descobrirá ao longo da história, estar no lugar e hora certos parece ser uma vocação dele.

A sorte de um aluno aplicado encontra terreno fértil para desenvolvimento com a descoberta do foamy (isopor). Material mais leve e barato fizeram os californianos abandonarem as tábuas de madeira. O equipamento que prometia mobilidade e velocidade mudou para sempre o mercado do surfe.

:: SURFSHOP

Prancha feita pelo ícone dos shappers e seu professor, Dale Velzy (Arquivo Pessoal)

Como já falamos, a predestinação faz parte da vida do shapper americano. A prancha de isopor não foi a única novidade. A roupa de neoprene também garantia sessões de surfe durante todo ano. Dessa forma, aumenta o consumo pelos materiais e Johnny vê a oportunidade de ganhar dinheiro com isso. Em 1957 ele é um dos primeiros funcionários dos irmãos Mitchell, que abriam a primeira surf shop de Santa Cruz.

Esse período serviria como um preparação para aquilo que ainda estava por vir.

:: DO HAWAII AO GUARUJÁ

Se o mar já era diversão, virou meio de vida após se formar na escola e arrumar um emprego na Guarda Costeira. Não demora e ele foi transferido para vários destinos entre as costas leste e oeste até chegar no Havaí.

Lá, ele abandona a carreira e começa a trabalhar como um dos Beach Boys (grupo turístico de apresentação de surfe), onde aprimora as técnicas de waterman e aproveita as folgas para surfar nas pesadas ondas do North Shore. Em um desses passeios pelo litoral, ele encontra os brasileiros Alan Birnbaum e Sérgio Sachs. Naturais do Guarujá, eles convidaram o americano para conhecer o Brasil

Nome de Johnny Rice na calçada da fama do surfe no Guarujá (Arquivo Pessoal)

:: “BOA MÚSICA, BOAS PESSOAS, BOA COMIDA E BOM SURFE”

A chegada foi terrível. Sem nenhum centavo no bolso, Johnny vive da caridade do grupo de surfistas da região. Ele consegue um espaço na praia do Tombo, com a qual mantém uma relação (ainda) muito especial. Veja entrevista dele na Trip TV:

Basicamente, era como se o Ronaldinho Gaúcho aparecesse no seu time da pelada. A presença de um shapper com a experiência de Rice em um país que ainda surfava nos pranchões de madeira. Dominar a técnica de shapear com isopor e a experiência com a venda dos demais equipamentos, ele prospera rapidamente. Mais uma vez no lugar certo, é ele quem inicia um salto de qualidade no surfe nacional.

“A era das pranchinhas ficou cada vez maior e agora o surfe estava enorme. Alguns desses caras tinham medo daquelas novas pranchas feitas de isopor. Então, fiz algumas pra eles e agora eles são campeões no Brasil. Eles ganham prêmios, compram casas para seus pais e não são mais pobres”

Johnny Rice, em entrevista para o site Coastal News (2001)

A surf shop de Johnny Rice na praia do Tombo, no Guarujá (Arquivo Pessoal)

Muitos desses ricos vencedores até hoje se lembram do prazer de “surfar com uma Johnny Rice”. As pranchas viraram uma marca e o índio americano patrocinou os garotos da praia do Tombo. Tinguinha, por exemplo, tinha talento, mas não dinheiro para prancha. Responsável por uma das primeiras equipes de surfe no país, Johnny revelou muitos surfistas e influenciou uma era. Alfio Langnado, da Hang Loose, é um exemplo da influência de Johnny no surfe brasileiro.

:: ALMAS GÊMEAS

Foram quase seis anos no Brasil e a volta para Ventura, na Califórnia, foi um período difícil. Quando não trabalhava em um navio mercante, ele estava em terra firme, shapeando pranchas para vender.

Johnny e Rosemari enquanto namoraram na adolescência (Arquivo Pessoal)

Em 1986, Johnny se muda de uma vez por todas para Santa Cruz e abre sua própria surf shop. O retorno a cidade da infância seria também um reencontro com o primeiro amor da sua vida. Entre as mulheres, Rosimari Reimers é um ícone do surfe e, com tantos gostos em comum, não foi difícil para o casal se reencontrar – após trinta anos.

O casamento está registrado nesse vídeo abaixo (minutagem 2’37”). Entre os dois, tudo o que era necessário: um padre, duas pranchas e o oceano como testemunha. Juntos, o casal mais surfe da história combateram o alcoolismo de Johnny a ponto dele mesmo se tornar membro do conselho dos Alcoólicos Anônimos do estado.

Graças ao estímulo de Rosemari, o índio-surfista se reconectou com sua origem. Ele encontrou parentes nas tribos Santee Dakota e Potawatomie e foi além. Distribuiu wetsuits e pranchas aos índios que habitam o norte da Califórnia, pois acreditava que o surfe deveria ser experimentado como cura espiritual. Quis o destino que ele passaria aos índios lições aprendidas com o homem branco.

Johnny Rice foi o homem certo na hora exata. Ele encerrou suas contribuições ao surfe em 2015, aos 77 anos.

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