Johnny Massaro vive gay com HIV em filme 'Os Primeiros Soldados', sobre a luta LGBT

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um pacote de fotos Polaroid vai parar numa boate já tarde da noite, pelas mãos de um rapaz fraco e cambaleante. Na pista de dança, as imagens passam de mão em mão, como panfletos, e fazem reluzir sob a luz efervescente costas, braços, pés, nucas e várias partes de pele clara, interrompida por manchas escuras e doentes.

É dessa forma que a Aids se espalha em "Os Primeiros Soldados", filme que decide explicitar o nome da doença só em seus minutos finais e que lança mão de sutilezas e poesia para narrar um dos capítulos mais trágicos da história do movimento LGBTQIA+.

Dirigido por Rodrigo de Oliveira, o longa estreia agora nos cinemas e venceu o prêmio de melhor filme da seção Olhos Livres, da Mostra de Cinema de Tiradentes. A trama acompanha Suzano, um estudante de biologia vivido por Johnny Massaro que volta a Vitória, no Espírito Santo, depois de uma temporada em Paris. É o começo dos anos 1980 e ele sabe que contraiu aquela doença inominável, então chamada de forma pejorativa e equivocada de "câncer gay".

Por isso, é difícil para ele se relacionar com a irmã e o sobrinho, mesmo com a enxurrada de afeto e preocupação que existe entre os três. Ele também não frequenta mais as boates transantes e nem deixa um ex-namorado fazer sexo oral com ele —Suzano sabe que é perigoso, apesar de, no fundo mesmo, pouco saber sobre a epidemia que se inicia.

"Meu desejo era não fazer um filme sobre a Aids. A palavra só aparece no final e em meio a todo um contexto. O filme tenta reproduzir o que era o passado para aquela comunidade e o que ela projetava para o futuro", afirma Oliveira, que criou o roteiro em paralelo a uma pesquisa sobre a maneira como a doença foi registrada em jornais e documentos dos anos 1980. "Nós queríamos falar da vida possível para aqueles personagens, em meio a todas as limitações da época."

No set, ele ainda recebeu ajuda de uma de suas atrizes, Renata Carvalho, que há pouco passou a dividir os palcos, onde foi celebrada e atacada por "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", com as telas, em filmes como "Vento Seco". Antes, no entanto, passou uma década como agente de prevenção de DSTs, trabalhando com travestis e transexuais na prostituição.

Em "Os Primeiros Soldados", ela é uma das amigas de Suzano, que está despontando como uma performer de sucesso da noite capixaba quando descobre que também contraiu a doença. Os dois, então, se juntam a um terceiro rapaz infectado pelo HIV e se isolam numa casa na mata.

São três personagens sem paralelo direto com vítimas específicas da Aids, mas que Oliveira usou como arquétipos daqueles que mais foram atingidos pela epidemia em seu início no Brasil.

Suzano é o homossexual de classe média alta, que contraiu HIV no exterior. Humberto é um homem negro, vindo de um lar simples do interior e que ainda está no início de sua vida gay na cidade grande. Rose é uma travesti que larga a prostituição e trabalha na noite.

"O que tem acontecido em muitas das sessões é que as pessoas relacionam alguns conhecidos aos personagens. Há gente que diz que seu tio foi o Suzano, ou que a vizinha era a Rose e o primeiro namorado, o Humberto. Já eu sou o Muriel", diz o diretor nascido em 1985, em relação ao sobrinho do protagonista, um adolescente gay. "Eu faço parte dessa primeira geração que investe no amor que sente consciente desse caos no mundo —e apesar dele."

O cotidiano do trio é retratado por meio de gravações em VHS, que interrompem as imagens nítidas de "Os Primeiros Soldados" com cenas granuladas e mais quadradas . São momentos de descontração, carinho e cuidado mútuo, entre aqueles que lutavam para não perder a humanidade e a sanidade diante da morte. Apesar dos contextos totalmente diferentes, os três se unem por motivos que vão além da saúde debilitada, como explicita Rose num monólogo.

"Vocês acham que isso é uma coincidência? Que iam inventar uma doença que só mata puta, viado e drogado, sem querer? Meninos, eles tentam nos matar desde que o mundo é mundo, é isso o que eles fazem. E o que a gente faz é tentar sobreviver sendo linda."

Hoje se sabe que qualquer um pode contrair o HIV, e não só por meio de relações sexuais. Mas a fala, que mostra bem a escassez de dados científicos sobre a doença na época, encontra eco na lentidão e falta de comprometimento com que autoridades combateram a epidemia, já que ela estava concentrada num grupo tão marginalizado.

"É uma cena importante também para o momento que estamos vivendo. Se quem lê o texto não sabe que ele é de um filme sobre o HIV, pode fazer outra interpretação", diz Renata Carvalho. "É importante lançarmos um filme como esse, para provar que nós estamos resistindo desde 1980, desde o nazismo, a Santa Inquisição. Desde que o mundo é mundo."

"Os Primeiros Soldados", no entanto, não é uma tragédia. Claro, retrata um capítulo trágico da história, mas não quer se resumir a isso. É o que diz o protagonista Johnny Massaro, que entrou numa dieta que incluiu três semanas de jejuns diários de 14 horas para emagrecer para o papel. Ele dirigiu do Rio de Janeiro, onde mora, a Vitória num carro cheio dos apetrechos e ingredientes que precisaria para se alimentar durante as filmagens.

O resultado está em várias cenas em que ele passeia com o torso despido, mostrando a magreza inescapável dos portadores do vírus naquela época. O ator conta que, enquanto LGBTQIA+, a Aids sempre circundou seu imaginário e seu inconsciente, mas que ele não tinha noção clara disso até fazer o filme. "Era um fantasma, algo a se temer, de forma preconceituosa até. Então eu aprendi a lidar com isso, até porque a doença ainda está aí e já sabemos que afeta qualquer pessoa", afirma.

No fim do ano passado, Massaro tornou público o namoro com um amigo de infância, decisão que ele conta ter sido fruto, também, da preparação para "Os Primeiros Soldados". "A gente está num momento em que é importante que a gente fale cada vez mais disso para vivermos com plenitude quem somos", ele diz. "Eu não sou menos ator por ser gay."

"Filmes como 'Primeiros Soldados' me ajudam a afirmar esse lugar. A gente rodou com ele por muitos festivais e sempre fomos recebidos com muito acolhimento", continua, falando sobre a emoção que foi ter seus pais, que precisaram de "trabalho no sentido de aceitação da minha sexualidade", na plateia do Festival do Rio.

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