Bandeiras políticas de Joe Biden refletem seu cotidiano e sua trágica história de vida

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Foto: AP Photo/Alex Brandon
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Por James Cimino, especial para Yahoo! Brasil de Wilmington (EUA)

Uma das paixões de Joseph R. Biden Jr., o 46º presidente eleito dos Estados Unidos da América, são os trens da Amtrak, companhia ferroviária que conecta as grandes cidades americanas de costa a costa. Por isso que, ao se chegar a Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade.

Ela foi reformada a um custo de US$ 37 milhões e reinaugurada em 10 de março de 2011, quando também foi dedicada ao então vice-presidente. Biden a utilizava diariamente e fez cerca de 7.800 viagens de trem, de ida e volta de Washington DC a Wilmington, durante os 36 anos em que esteve no Senado.

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Parte dessas viagens nos trilhos da Amtrak foi para estar o máximo possível ao lado de seus filhos Beau e Hunter Biden quando ambos perderam sua mãe Nelia e a irmã Naomi, ainda bebê, em um acidente de carro em 1972. Os meninos estavam muito feridos e Joe, em seu primeiro mandato, quase abandonou o cargo. Só não o fez porque a praticidade do trem lhe permitiu fazer o que milhares de americanos fazem todos os dias: trabalhar em um cidade e morar em outra.

Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino
Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino

Biden não é o único personagem histórico que utilizou a estação em missão nobre. Harriet Tubman, a escrava que, em 1849, fugiu das correntes em Maryland e depois voltou para buscar sua família e cerca de 300 outros escravos, usou a estação de Wilmington como parte de sua “estrada de ferro subterrânea”, que na verdade era um conjunto casas e estações usados para transportar e esconder negros cativos do sul até que chegassem ao norte.

Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino
Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino

Por isso que no parque em frente ao local encontramos uma estátua sua e de outro abolicionista, Thomas Garrett, um homem branco que deu comida, roupas, abrigo e dinheiro a Tubman. Ele comandava a estação e, por ter ajudado mais de 2.700 escravos a fugir, foi preso e multado ao ponto de ir à falência.

O presidente eleito, quando inaugurou a nova estação, destacou, com razão, a importância dos trens para desafogar o tráfego da I-95 (a rodovia interestadual que atravessa a costa leste do Maine até a Florida), em um país onde o transporte individual, movido a combustível fóssil, é quase que uma religião. “Os trilhos são uma artéria importante para essa região. Sem eles, seriam necessárias mais sete pistas na I-95”, disse ao reinaugurar a estação.

Mas talvez a história mais emblemática (e também trágica) envolvendo o novo presidente seja a morte precoce de Beau, em 2016, vítima de um câncer, com apenas 46 anos. Em uma entrevista à emissora CNN, Biden contara que ele e sua segunda mulher, Jill, haviam pensado em vender a casa para ajudar a família do filho, ex-procurador do Estado, que, ao perder o emprego, também ficaria sem salário e, portanto, impossibilitado de bancar suas despesas médicas. Como se sabe, a saúde nos Estados Unidos é privada e um tratamento de câncer cerebral custa por baixo US$ 150 mil por ano.

Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino
Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino

Quem o demoveu da ideia foi o presidente Barack Obama, que o fez prometer que não venderia a casa e se ofereceu para pagar as despesas de Beau. O patrimônio de Biden, declarado à receita em 2014, quando o câncer fora diagnosticado, era de US$ 388.844 anuais. Obama e Michelle haviam declarado US$ 477.383, embora a fortuna do presidente tenha crescido para US$ 5,5 milhões, provenientes de vendas de livros e de seu prêmio Nobel. Os números são públicos, o que mostra uma tremenda diferença entre o presidente eleito e o presidente atual, Donald Trump, que escondeu sua declaração de impostos o quanto pôde, até que o jornal The New York Times revelou durante a campanha que Trump tem uma história fiscal bastante controversa.

Todo mundo com quem a reportagem do Yahoo! conversou em Wilmington conhece a história de Biden com a Amtrak, as perdas de seus filhos e a oferta de Obama: o grupo de charuteiros que se reunia toda noite para assistir à apuração dos votos na adega Veritas; os diversos motoristas do Uber que hoje reclamam da crescente violência no outrora pacato Estado (o segundo menor do país, com uma área menor que o Distrito Federal); e Carol, uma mulher negra que trabalha na lojinha da estação. Ela cochicha na hora de me dar o recibo: “Eu gosto do Biden. Ele é humilde.” Segundo ela, já conversou algumas vezes com o presidente eleito, pois ele passava por ali todo dia. “Nada de política, coisas da vida apenas...”

Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino
Wilmington, a capital financeira do Estado de Delaware, com cerca de 70 mil habitantes, é possível ver o nome do novo presidente escrito nas portas de vidro da estação central da cidade - Foto: James Cimino

Esta história ajuda a entender boa parte das plataformas políticas do novo presidente. Afinal, há algo muito errado com o sistema de saúde americano uma vez que até um vice-presidente e um procurador de Estado se veem à beira da falência para tratar de um câncer. Por isso Biden acredita e pretende que o Estado se responsabilize por parte das despesas de saúde dos americanos.

Sua paixão por trens e sua descrença no transporte individual (que vitimou sua primeira mulher e filha) também demonstra sua preocupação com a já obsoleta infraestrutura dos Estados Unidos. Afinal, um trem elétrico transporta muito mais gente, mais rapidamente, sem engarrafamentos e com energia não-poluente. Em seus discursos, Biden tem destacado a importância de se reinventar a matriz industrial americana com foco na preservação do planeta, mas sem ferir a economia. “Quando penso em mudanças climáticas, penso em empregos”, disse ele.

A epidemia de covid e sua consequente crise econômica, os problemas mais urgentes e os primeiros a serem citados em seus discursos, também têm relação com essa história, já que a Amtrak é uma das diversas companhias americanas que sofreu tremendas perdas de receita após a pandemia. O jornal The Washington Post inclusive fez um artigo dizendo que o amor de Biden pelos trens demonstra como ele irá governar o país.

Uma professora e uma afro-americana na Casa Branca

Outro ponto importante e que faz parte da vida do presidente é sua conexão com a educação pública através de sua mulher, Jill, uma doutora em educação que foi a primeira segunda-dama a ter um emprego durante o mandato do marido como vice-presidente. Ela ensina inglês em uma faculdade comunitária no Estado da Virgínia e, quando conheceu Biden, era divorciada. Jill se tornou então a segunda mãe de Beau e Hunter, que ganharam mais uma irmã: Ashley.

No sábado, dia 7, quando conseguiu os 20 delegados eleitorais da Pensilvânia, seu Estado Natal, ultrapassando a marca de 270, necessária para ser eleito presidente, Biden incluiu em seu discurso de vitória um comentário direcionado a uma classe que, assim como no Brasil, tem sido muito desvalorizada nos Estados Unidos: os professores da rede pública.

Em 2018, a revista Time fez uma longa reportagem mostrando a precarização das escolas públicas, mostrando que professores precisam se dividir entre três empregos para sobreviver e, mesmo assim, não conseguem bancar simples despesas como a manutenção de seu carro ou . “Vocês terão uma de vocês dentro da Casa Branca”, disse ele se direcionando aos professores americanos.

Talvez por isso o enorme débito estudantil dos americanos, que ultrapassa o Produto Interno Bruto da Espanha (na casa dos US$ 1,3 trilhão), também esteja no alvo do novo presidente, que pretende oferecer descontos de US$ 10 mil anuais, por cinco anos, a trabalhadores comunitários e professores que ainda não tenham conseguido pagar seu débito com educação superior. “Você nem imagina o quanto isso vai ajudar minhas filhas”, disse ao Yahoo a eleitora democrata de New Jersey, Coleen Rand. Ela também estava com lágrimas nos olhos com o discurso de Kamala Harris, a primeira mulher negra, filha de imigrantes, a se tornar vice-presidente dos Estados Unidos.

Kamala Harris, aliás, é outro fator que irá determinar o tom do governo Biden. Durante seu discurso de vitória, ele destacou o pioneirismo da colega de Senado dizendo que ela era a prova de que nos Estados Unidos tudo é possível. Harris será sua conexão com questões imigratórias, de gênero e de racismo estrutural, que o presidente eleito citou em seu discurso ao final do dia da eleição como uma demanda da população. “Temos que dar fim ao racismo estrutural.”

Nem todo mundo, no entanto, admira Joe Biden em Delaware. Como Eric, um estudante de direito republicano de 25 anos que afirma ter ouvido rumores de um ex-namorado de sua filha de que o novo presidente é sustentado por um esquema de lavagem de dinheiro. Muita gente também acredita nas conexões de seu filho Hunter com a China e a Ucrânia, especialmente depois de uma controversa história postada pelo tabloide New York Post e que parece ter sido fabricada pelo advogado do presidente Trump, o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani.

Apesar de votado em Trump, Eric tem mais ideias alinhadas ao partido democrata do que gostaria de admitir, disse ele em entrevista ao Yahoo!: “Meus amigos me chamam de socialista porque sou a favor de que haja saúde pública nos Estados Unidos. O sistema que existe hoje é terrível e destrói as finanças da população. Eu também sou contra o colégio eleitoral. Sinto que meu voto não vale nada. Por isso muitos republicanos aqui em Delaware não votam, porque sabem que os democratas sempre ganham aqui. E acredito que o mesmo aconteça com eleitores. democratas no Texas e em outros Estados de maioria republicana. O voto popular faria com que o eleitorado dos Estados fosse mais equilibrado e heterogêneo.”

É bem provável que Biden não seja um santo e tampouco perfeito. Muitos eleitores democratas preferiam candidatos da ala mais à esquerda do partido, como Elizabeth Warren ou Bernie Sanders, mas sua eleição demonstra que há um sentimento de que os Estados Unidos não querem mais estar atrelados a um passado em que homens brancos ditavam as regras sozinhos e em que o capitalismo é a única resposta para seus problemas.

Muita gente acusa o partido democrata, Donald Trump especialmente, de estar atrelado a uma “esquerda radical”. O atual presidente chama as propostas de Biden para a saúde de “saúde socialista”, por exemplo. Mas é fato que a classe média americana está cada vez mais empobrecida e endividada. E a demanda por um Estado que provenha direitos básicos através da taxação das fortunas dos grandes capitalistas vem do povo. Resta saber se Biden vai conseguir fazer com que sua história de vida se converta em mudança, ou se ele, assim como como Obama e Trump, passará seu governo tendo sua agenda recusada pela oposição no Congresso.