Grisalho não é desleixo: esta mulher usa as redes sociais para questionar padrões

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
Joanna Moura usou as redes sociais para questionar padrões de beleza, como o uso dos cabelos grisalhos (Foto: Instagram / Joanna Moura)
Joanna Moura usou as redes sociais para questionar padrões de beleza, como o uso dos cabelos grisalhos (Foto: Instagram / Joanna Moura)

Mulher de cabelo grisalho é bonito? E sem maquiagem? Aliás, pra quê serve a maquiagem? E a tintura de cabelo? Será que esses são recursos que, realmente, se propõem a explorar a beleza feminina ou foram inventados para pressionar mulheres a entrar em um padrão de beleza? Talvez você nunca tenha parado para se perguntar o porquê de pintar os cabelos e se maquiar todos os dias - e porque os homens não fazem a mesma coisa. Mas existem mulheres que têm usado a sua presença digital para questionar e até desafiar esses mesmos padrões.

Joanna Moura é uma dessas mulheres. A publicitária, que ganhou destaque online há muitos anos, quando criou o blog "Um Ano Sem Zara", tem trazido questionamentos como esses para os seus quase 100 mil seguidores no Instagram. Quem não conhece a história de Jo talvez pense que esses tópicos são novidades na sua pauta. No entanto, o seu blog começou, justamente, com um questionamento: será que a gente precisa mesmo de tantas roupas no guarda-roupa? E será que é preciso aumentar esse arsenal sempre que possível?

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Lidando com uma série de questões financeiras, Jo decidiu abrir mão das compras e passou um ano inteiro sem comprar uma nova peça sequer, usando apenas aquilo que já tinha no guarda-roupa. Na sociedade de consumo, isso, por si só, já é um questionamento e tanto. Anos depois, agora morando em Londres com a família - ela é mãe de uma menina pequena -, o desafio de não comprar nada já não faz mais parte da sua rotina, mas os ensinamentos e aprendizados que surgiram dali continuam acompanhando a sua vida e gerando novas questões. Uma delas é em relação aos cabeços brancos.

Joanna começou na internet um movimento chamado #grisalhonãoédesleixo, uma forma de questionar a ideia de que toda mulher precisa esconder os grisalhos, que eles são considerados "feios" ou, como diz a hashtag, um sinal de desleixo. "Tenho cabelos brancos há muito tempo, mais precisamente desde os meus 18 anos, e já tive fases de querer cobrir com outra cor e fases de desencanar e deixar a raiz crescer e ele aparecer. Quando engravidei parei totalmente com o tingimento por conta do processo químico, mas foi durante a pandemia que resolvi tomar a decisão consciente de adotar o cabelo branco", diz ao Yahoo Vida e Estilo.

Para ela, o movimento #grisalhonãoédesleixo surgiu de uma vontade de quebrar os esterótipos que ainda existem relacionados à mulher que assume os cabelos grisalhos.

A ideia é mostrar uma diversidade de mulheres que têm orgulho dos seus cabelos brancos e, assim, criar referências. Afirmar que cabelo branco é normal, bonito e uma alternativa possível e válida

O resultado tem, de fato, aparecido no feed. Segundo ela, muitas mulheres estão se permitindo pensar na possibilidade de assumir os grisalhos pela primeira vez, e tantas outras estão passando a enxergar beleza nesse processo - que, se formos sinceras, é absolutamente natural do corpo humano.

Sem filtros

Questionar a beleza de um cabelo grisalho foi apenas a ponta do iceberg para Joanna, que passou também a compartilhar uma série de outras questões na internet, inclusive se tornando adepta de fotos e Stories sem filtros e sem maquiagem.

"Acho que quando a gente começa a se questionar é um caminho sem volta. A gente começa a pensar sobre quais são as coisas que fazemos porque realmente gostamos e quais que a gente faz porque a sociedade espera aquilo de nós", diz ela. "Outro dia escrevi no Instagram sobre o dia em que olhei pro meu marido e me perguntei porque ele já acordava tão bonito mesmo com suas olheiras. Nesse dia mesmo aposentei o meu corretivo."

Jo continua usando batom e rímel - recentemente, ela contou que refez as pazes com o vermelho -, e reforça que toda mulher tem o direito de usar ou não o que quiser. "Mas tem sido libertador entender que não sou escrava desses artifícios e consigo ver beleza também na minha versão natural", explica.

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Usar as redes sociais para levar questões importantes como essa parecem, para a publicitária, uma maneira de reverter o efeito negativo que elas podem ter. Muitos estudos já confirmam como o seu uso tem um efeito direto na autoimagem de meninas e mulheres e a plataforma até mesmo baniu filtros que imitam procedimentos plásticos por conta do impacto que estavam causando em adolescentes - o número de buscas por procedimentos plásticos que deixam o rosto mais parecido com o efeito gerado por esses filtros disparou no mundo todo.

"Acho que as redes sociais podem ter um efeito muito negativo na autoestima das mulheres", continua. "É uma busca eterna por uma perfeição que tá longe de ser a realidade. A gente acaba se comparando com pessoas que não existem. Por isso acho importante também me mostrar sem esses artifícios. Faço questão de estar sempre postando fotos sem filtro, de desmistificar a minha figura online."

A boa notícia é que a publicitária vê os seus esforços dando resultados. Segundo ela, a ficha está caindo para muita gente, uma demonstração de como a mudança acontece quando esses discursos viram coletivos. "Hoje a gente já vê a mídia abordando esses assuntos, marcas apostando em mais diversidade e oferecendo produtos específicos pra públicos que antes eram invisibilizados. Mas estamos só no início, ainda tem muito o que fazer pra desconstruir tabus e sermos de fato inclusivos", reflete.

Voltando ao #grisalhonãoédesleixo, Joanna vê esse resultado também no uso da hashtag. Ela percebeu que seu público online é muito participativo, e muitas mulheres compraram a ideia e resolveram se mostrar também, postando fotos dos próprios cabelos grisalhos para inspirar outras pessoas.

Toda essa jornada dá, sim, resultados, mas não significa que não tenha os seus altos e baixos. Joanna, no entanto, parece aproveitar tudo com muita consciência, o que, de fato, deixa o caminho mais leve: "Acho que a maior dificuldade é aceitar que eu também sou influenciada por esses padrões de beleza. E que ainda tenho pensamentos e me faço cobranças que gostaria de não ter mais", conta. "A maior alegria é receber as mensagens de mulheres que, acompanhando o meu processo, também começaram a se questionar e estão passando a ser mais generosas consigo mesmas."