'Jesus Kid' tem Paulo Miklos em boa atuação, mas cai em monotonia

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 07.03.2020 - O músico Paulo Miklos durante estreia de
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 07.03.2020 - O músico Paulo Miklos durante estreia de

INÁCIO ARAUJO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Jesus Kid" começa quando se reúnem, num vasto salão de restaurante, um escritor de livros de faroeste, um produtor de cinema e um diretor de filmes publicitários que pretende passar ao longa-metragem. O tímido escritor contrasta com os dois outros exuberantes personagens, construídos como óbvias caricaturas dos tipos que representam.

Embora tente cair fora, algumas circunstâncias forçam o escritor a topar a proposta dos cineastas: passar alguns meses de confinamento num hotel a fim de criar um roteiro que envolva o sofrimento da criação, mas com pegada pop e muita ação.

Alguns bons elementos para um filme cômico estão lançados aí, inclusive menções à boçalidade própria da era Bolsonaro. O confinamento do escritor nos lançará a dois territórios cinematográficos conhecidos: o "Barton Fink", dos irmãos Coen, com a trágica evolução do personagem do roteirista, fechado num hotel, e o Wes Anderson, sobretudo o de "Grande Hotel Budapeste".

Algum curto-circuito se manifesta aqui, pois é possível pensar numa paródia à maneira chanchadesca —ou seja, de apropriação— de "Barton Fink". É um pouco mais complicado quando se trata de Wes Anderson, que já é um cineasta paródico.

A evolução se dá no sentido do nonsense. O personagem central da obra do escritor, o pistoleiro Jesus Kid, salta das letras para a imagem, trazendo a carga previsível de clichês do Velho Oeste. Surge também Nurse, a enfermeira, com quem o desajeitado escritor deseja transar. Sem falar de Chet —ou Arlindo—, recepcionista do hotel pedante a mais não poder.

São elementos para um filme que busca ser popular, pelo lado comédia e pelo histrionismo de alguns personagens, cujo interesse se perde um tanto desde que os personagens começam a intervir na trama que se desenvolve. Pode-se chamar a isso de metalinguagem, mas, à medida que essas intervenções tornam-se o próprio fundamento da ficção e a comandam, elas remetem mais à ideia de certa facilidade: basta um personagem tomar do computador que todos os problemas desaparecem.

Não se resolvem, mas se ajeitam. O simpático nonsense esmorece um tanto. Desenvolvem-se situações sem nenhum interesse para a trama —a desaparecida tampinha do banheiro, por exemplo— ao mesmo tempo em que as soluções "ad hoc" se acumulam.

A isso se acrescente um problema de mise-en-scène, que o diretor Aly Muritiba não conseguiu contornar: um filme que se passa basicamente em um ambiente só —o interior de um hotel— exige um tratamento de imagem particular para que as imagens não se tornem repetitivas e essa monotonia incida sobre o conjunto do filme.

Esses problemas serão contornados e mencioná-los parecerá um tanto fútil caso justamente as facilidades que o filme assume consigam elevá-lo à categoria de fenômeno popular, isto é, de eventual sucesso.

Talvez contribua para isso uma distribuição de elenco feliz, especialmente pelo personagem do escritor —Paulo Miklos, no século passado marcante como integrante da banda Os Titãs, tornou-se ator marcante desde que lançado por Beto Brant em "O Invasor", em 2001), mas não só: também Chet —interpretado por Leandro Maciel— se sai bem. O aspirante a produtor e seu diretor sofrem de ter sua ação sublinhada todo o tempo, mas também não se saem mal e a composição caricatural do diretor gênio publicitário funciona.

Esses aspectos positivos contrabalançam, ao menos em parte, o hábito de sublinhar cada gesto, de preenchê-los de significação, quando toda a ação se apoia, justamente, nos significados prévios da maior parte dos personagens e dispensariam, portanto, esse tratamento.

JESUS KID

Quando Estreia nesta quinta (9)

Onde Nos cinemas

Elenco Paulo Miklos, Sérgio Marone, Maureen Miranda

Produção Brasil, 2021

Direção Aly Muritiba

Avaliação Regular

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