Por que estamos tão preocupados com a idade de Jennifer Lopez?

Jennifer Lopez no Super Bowl (Foto: Getty Images)

Jennifer Lopez é uma potência da música. Atriz e cantora de sucesso, com um estilo que respira sex appeal e toda a sensualidade latina, ela foi, ao lado de Shakira, a primeira mulher latina e mãe, a se apresentar no show de intervalo do Super Bowl, um dos eventos esportivos mais importantes do mundo. 

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Porém, o que gerou conversa na internet não foi o pioneirismo da apresentação - que colocou não uma, mas duas mulheres latinas no palco -, mas, sim, a sua idade. Aos 50 anos, Jennifer se tornou assunto justamente porque parece ainda agradar em uma idade considerada avançada para uma mulher — jamais para um homem, não é mesmo? 

De fato, Jennifer estava incrível no palco (e como tem sido, também, fora dele). Com um corpo super em forma, um fôlego impressionante e a capacidade de fazer pole dance na frente de milhares de espectadores em cima de um palco que impressiona qualquer um. Porém, o que incomoda ainda é a sua idade ser um parâmetro de sucesso. 

O Twitter ficou repleto de comentários do tipo "vamos tirar um minuto para lembrar que Jennifer Lopez tem 50 anos", como se isso fosse, realmente, necessário. O mesmo vale para Shakira. Aos 43 anos, a cantora colombiana segue impressionando, cantando e dançando como se tivesse acabado de começar a carreira. 

Vale lembrar que as duas, além da carreira artística, são mães e empresárias. Jennifer tem dois filhos, os gêmeos Emme e Max. Shakira também: Sasha e Milan, fruto do relacionamento com o jogador de futebol Gerard Piqué. 

Porém, todas as suas conquistas, a maternidade e todo o trabalho duro que fazem é ofuscado pelo fato de as duas terem acima de 40 anos e ainda conseguirem fazer o que fazem. Até quando?

Shakira e Jennifer Lopez durante apresentação no Super Bowl (Foto: Kevin Mazur/WireImage)

Se você tem dificuldade em entender o porquê da incredulidade, é simples. Historicamente, mulheres com idade acima dos 40 se tornaram invisíveis para a sociedade. Quem dirá acima dos 50. Isso fica particularmente claro quando olhamos para a indústria do cinema. Hollywood fez questão, ao longo do tempo, de reforçar que a mulher desejável é aquela jovem, bonita, com um corpo atlético e que tem uma personalidade que combina o santo com o devasso. 

Isso, claro, vem mudando. Segundo um estudo da University of Southern California, 11 dos 100 filmes que mais arrecadaram em bilheteria em 2018 tinham mulheres com 45 anos ou mais no elenco. Parece pouco? Pense que, no ano anterior, era menos da metade: apenas cinco filmes tinham mulheres nessa faixa etária na equipe principal de atores. De filmes como ‘Otherhood' a séries como 'Frankie', temos visto cada vez mais espaço para diversidade no que diz respeito ao espectro de idade feminino. 

Mas o problema de base parece continuar. Existem muitos estudos que explicam como mulheres de 50 anos se sentem completamente invisíveis para a sociedade. Em 2016, um deles, desenvolvido pelo site A.Vogel, foi feito com duas mil mulheres e mostrou que dois terços daquelas com idade acima de 45 anos se sentem completamente ignoradas pelo sexo oposto quando entram em uma sala. E mais da metade explicou que se sente deixada de lado ou julgada de forma negativa por conta da idade. O mais complicado? Mais da metade também disse se sentir intimidada quando uma mulher mais nova está no mesmo ambiente. 

Basicamente, o que o padrão a respeito das mulheres determina é que as mais novas são mais desejáveis e melhores do que as mais velhas. O resultado é algo que conhecemos como competição feminina. Mulheres competem umas com as outras pela atenção masculina, que privilegia apenas aquelas que estão o mais próximo possível do padrão. 

Dois pesos, duas medidas

O músico Mick Jagger (Foto: Elisabetta A. Villa/WireImage)

O jeito mais simples de entender como esse sistema funciona é olhando para o outro lado. Mick Jagger tem 76 anos. Quando se apresenta no palco, dificilmente vemos comentários semelhantes aos feitos para Jennifer e Shakira. George Clooney tem 58 anos e ainda é visto como galã. Will Smith também já passou dos 50, mas não vemos ninguém comentando sobre o assunto. 

A diferenciação de tratamento é algo que acontece entre os gêneros porque funciona à base de confirmações de estereótipos e padrões de beleza. Não é sem motivo que a autoestima de meninas e mulheres acaba tão desestruturada. 

E isso não acontece apenas em termos de aparência e relacionamentos amorosos. Um estudo interno feito pela Hewlett Packard mostra que os homens se sentem confiantes para aplicarem para um novo emprego ou promoção quando têm apenas 60% de compatibilidade com a vaga. Para as mulheres, essa porcentagem sobre para 100%. 

Um outro estudo mostra que, conforme ganham mais experiência profissional, a confiança das mulheres aumenta. Com os homens, ela se mantém estável independente da fase da vida. Sem contar que, ao chegaram em certa idade, as mulheres passam a se sentirem invisíveis. 

Enfim, Jennifer Lopez e Shakira fizeram história ao serem mulheres, mães e latinas, se apresentando em um evento feito para conectar um esporte tipicamente norte-americano com a gigante comunidade latina que vive nos Estados Unidos. Uma pena que o fato ficou obscurecido por algo tão pequeno quanto a idade de alguém.