Jean-Luc Godard, o diretor que encarnou o cinema francês

Com um cigarro na boca e um espírito sempre rebelde, o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, que faleceu nesta terça-feira (13) aos 91 anos, deixou sua marca entre gerações de cinéfilos como um dos pais da Nouvelle Vague, com clássicos como "Acossado" e "O Desprezo".

"Quero apenas falar de cinema. Por que temos que falar de outra coisa? Com o cinema é possível falar sobre tudo", afirmou uma vez com convicção o diretor que "virou de cabeça para baixo" a sétima arte, nas palavras de seu amigo François Truffaut.

Os dois foram os líderes da "Nouvelle Vague" (Nova Onda), que sacudiu o mundo cinematográfico nos anos 1960.

Godard foi o mais arriscado de todos os diretores, com mais de de 50 filmes em sua carreira, além de dezenas de vídeos e curtas-metragens.

Durante décadas, seu estilo oscilou entre a experimentação absoluta e os grandes sucessos de bilheteria. Para alguns, ele era e é um gênio, às vezes incompreendido, para outros um cineasta que nas últimas décadas se tornou excessivamente hermético.

De qualquer maneira, Godard é um dos cineastas mais estudados do mundo.

Em 1987 recebeu um César honorário pelo conjunto de sua carreira. Em 2010, recebeu um Oscar honorário por sua obra. E o Festival de Cannes também concedeu uma Palma de Ouro especial em 2018.

- Recluso na Suíça -

Os filmes de Godard são inconfundíveis pelo estilo de montagem, o uso de citações literárias, a presença da questão política e o uso inovador da música.

E com seus óculos e ar de intelectual, Godard assumiu sem complexos o papel de pontífice de uma nova maneira de entender o cinema. "Quando alguém vai ao cinema, levanta a cabeça. Quando assiste televisão, abaixa a cabeça", afirmou uma vez.

Uma frase que não o impediu de cultivar também uma paixão pelos vídeos para a pequena tela.

Outra frase para a posteridade: "O cinema não escapa da passagem do tempo. O cinema é a passagem do tempo".

Há vários anos estava recluso na Suíça, mas seu nome, que virou lenda, ainda era citado pelas novas gerações que não tem a exata dimensão de sua contribuição para a sétima arte.

"Era a estrela de sua geração", afirma Jean-Michel Frodon, ex-editor da revista "Cahiers du cinéma", a "bíblia" dos cinéfilos franceses.

- Boêmio e cleptomaníaco -

Jean-Luc Godard nasceu em Paris em 3 de dezembro de 1930. Seu pai era médico e a mãe pertencia a uma rica família protestante.

Ele cresceu na Suíça em um ambiente refinado, mas era um estudante irregular e enfrentou dificuldades em sua formação em Lausanne. Gostava de esportes. Os pais se divorciaram e a mãe faleceu em 1954.

Com uma adolescência difícil, Jean-Luc se tornou um boêmio e cleptomaníaco. Sua família prefere deixá-lo de lado.

Ele se muda para Paris e se matricula na Sorbonne para estudar Etnologia, mas logo depois optar por frequentar os cineclubes e enviar artigos para a "Cahiers du cinéma". Na década de 1950, ele conseguiu estabelecer seu nome no meio cinematográfico, ao lado de François Truffaut, Eric Rohmer e Claude Chabrol.

Todos eles desejavam romper os moldes do cinema tradicional na França, berço histórico da sétima arte ao lado dos Estados Unidos.

Godard lança "Acossado" em 1960, protagonizado por Jean-Paul Belmondo. O filme vira o manifesto estético da Nouvelle Vague e seu maior sucesso.

Um ano mais tarde se casa com Anna Karina, jovem atriz dinamarquesa que foi sua mesa em sete filme, incluindo "O Pequeno Soldado", sobre um desertor durante a Guerra da Argélia, que foi proibido durante anos.

Karina também participou de "O Demônio das Onze Horas" em 1965, outra vez ao lado de Jean-Paul Belmondo, uma de suas obras-primas.

Em 1963 teve outro sucesso de público com "O Desprezo", com Brigitte Bardot.

- Anna, Anne e Anne-Marie -

Dois anos mais tarde conhece outra atriz, Anne Wiazemsky. O casamento durou quatro anos, um período muito conturbado politicamente, com um polêmico fascínio pelo maoismo chinês, refletido em "A Chinesa" (1967).

Em seguida acontece o vendaval de maio de 1968. Godard desembarca em Cannes, que foi arrastado pelo terremoto político. Com sua liderança, o comitê de direção do festival decide algo histórico: suspender o festival.

"Peço solidariedade com os estudantes e os operários e vocês estão falando de 'traveling' e primeiro plano. Vocês são uns imbecis", gritou com a plateia.

Suas ideias políticas ficaram mais radicais com o passar do tempo. Ele passou a apoiar a luta armada dos palestinos e gerou várias polêmicas. Sua esposa Anne afirma não entender o cinema de Godard e o casal se separa em 1970.

Emn 1971 sofre um grave acidente de moto. A roteirista Anne-Marie Miéville se torna sua nova companheira. Godard entra em uma espiral de depressões que o levam a tentar o suicídio em várias ocasiões, de acordo com o biógrafo Antoine de Baecque.

Ele segue para Grenoble e começa a fazer experimentações com vídeo, seu novo meio de criação.

Godard e Anne-Marie se mudam para a localidade suíça de Rolle.

Nos anos 1980, ele volta ao cinema com "Carmen" (1983). E dois anos depois com "Eu Vos Saúdo Maria", que provocou grande polêmica nos países católicos por sua maneira iconoclasta de abordar a questão da virgindade da mãe de Jesus.

Entre 1988 e 1998 dedica seus esforços a elaborar uma gigantesca "História(s) do cinema".

Em 2010 apresenta em Cannes, sem comparecer ao festival, "Filme Socialismo". Em 2014 exibe "Adeus à Linguagem", que recebe o Prêmio do Júri. Aposta na experimentação e em 2018 apresenta "Imagem e Palavra", dedicado em grande parte ao mundo árabe. No mesmo ano recebe uma Palma de Ouro "especial".

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