Japão não produz só mangás e animes quando se fala em arte gráfica; conheça movimentos locais

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Olhos e seios grandes, uma expressão de dúvida e leve sofrimento, uniforme apertado. Tudo na protagonista do vídeo "Powder", do grupo de animadores AC-bu, parece apontar para um estereótipo que povoa os quadrinhos japoneses --que até têm um termo próprio, o "ecchi", para falar dessas insinuações eróticas.

Mas demora pouco para percebemos que algo está fora do lugar. A garota dá uma volta e então vemos que todos desenhos estão desalinhados, em planos 3D diferentes, fazendo dela um amontoado de clichês. Tampouco há calcinhas à mostra, mas toda uma jornada surrealista para que essa moça, uma secretária, peça demissão.

Essa animação passa em uma pequena TV na Japan House, junto a duas outras, ao lado do início da exposição "Wave - Novas Correntes nas Artes Gráficas Japonesas", que vai até 1º de maio.

De certa forma, o trabalho não é a grande estrela da mostra que reúne 55 ilustradores e artistas gráficos japoneses de diversas gerações. Mesmo assim, quem for mergulhar nas obras, pode prestar atenção na curta obra de AC-bu para sentir como a arte gráfica japonesa desconstrói os mangás e animes, e vai além desse estilo.

"Nosso objetivo principal não é mostrar o passado ou a história", diz Kintaro Takahashi, um dos curadores da exposição e que também leva a pintura "April Girl", de sua autoria, para a mostra. "Compomos a exposição com artistas que têm poder de influenciar o agora e o futuro. A faixa etária dos participantes é de 20 a 80 anos. Além disso, a carreira, expressão ou forma de atuação de cada um são muito distintos", conta.

Já com a obra de Takahashi vemos algo bem distinto do usal, com um retrato de poucas pinceladas em preto e vermelho --o que ele define como uma busca pelas ideia de "shadatsu" (sem excesso, sem pretensão desnecessária)" e "iki" (elegante, refinado).

Mas não é preciso ir além da primeira parede da exposição, dividida em salas coloridas, para ver essa abundância de contrastes, quando vamos de uma capa de livro infantil com uma família de pandas feita pela dupla Tupera Tupera para a pop art delirante de Keiichi Tanaami.

Esse último aliás, é um dos veteranos do ramo, já com 85 anos, fortemente influenciado por Andy Warhol, e seus três quadros em exposição misturam ilustrações de livros do pós-guerra, glitter e anamorfoses dignas do alemão Hans Holbein, o Jovem.

Os trabalhos fazem parte de uma seleção itinerante que rodará as Japan Houses de São Paulo, Londres e Los Angeles, feita a partir da "Wave" realizada em Tóquio desde 2018, que chegou a reunir mais de 200 artistas.

E apesar de Takahashi afirmar que não há um fio condutor temático para os trabalhos, a maioria das obras cruza referências orientais e ocidentais, de forma a sugerir um desconforto por vias inusitadas.

Nisso, convivem quadros como "Cinco Tons", de Keiji Ito, que mostra uma paisagem calma com uma montanha de gelatina verde ao fundo, desenhos fotorrealistas como os de Mayu Yukishita (a mais jovem da mostra, com 27 anos) e Harumi Yamaguchi (outra veterana, com 81) até as piscinas e praias sem vestígios humanos de Hiroshi Nigai.

Mas as colegiais de minissaia não ficam fora da salada. Yuji Moriguchi faz questão de destacá-las no díptico "A-Un" --em que as garotas montam estátuas "komainu", os mitológicos leões que guardam os templos budistas japoneses-- e no painel "A Final", que ocupa toda uma parede, com uma gangue de meninas armadas até os dentes.

E o que falar do "neomangá" de Yuichi Yokoyama, com um traço simplório, que leva os painéis e onomatopeias dos quadrinhos em "busca do tempo e do espaço"?

"Na área da ilustração, surgiram vários artistas talentosos na década de 1980 e 1990, coincidindo com o período da bolha econômica do Japão, gerando uma grande onda no mundo da ilustração", explica Hiro Sugiyama, o outro curador da mostra, refletindo sobre a influência dos clichês dos mangás na seleção.

"Até então, o mercado de arte era quase que inexistente no Japão, e isso fez com que a ilustração se desenvolvesse de forma singular no país, construindo uma cultura em que os desenhos são muito próximos às expressões artísticas".

Em paralelo, para quem quer saber mais das raízes dos mangás, o mercado brasileiro também tem diversificado suas publicações para além dos títulos de massa. Vide a chegada de HQs como "Hokusai", de Shotaro Ishinomori (ed. Pipoca e Nanquim) --uma biografia do pintor de famosos "ukiyo-e" no século 19, como o clássico "A Grande Onda de Kanagawa"--, e o monumental "Vida à Deriva", de Yoshihiro Tatsumi (ed. Veneta) --sobre as transformações do gênero no pós-guerra.

Do balaio das HQs, a exposição ainda traz o "heta-uma" --estilo que se define como "mal desenhado, mas bem concebido"-- dos quadrinhos underground japoneses, representados por Teruhiko Yumura, com desenhos que mais parecem rascunhos com canetinha bem-humorados, e Suzy Amakane, que coloca uma morsa numa biblioteca.

Destaque também para as divertidas releituras da Mona Lisa assinadas por AC-bu (que em vez de uma mulher traz um golfinho na pose clássica) e Yu Nagaba (em traços minimalistas num bloco de notas de hotel).

E em meio a figuras folclóricas, dinossauros futuristas e pinturas abstratas, o percurso termina numa sugestão melancólica da jovem Jenny Kaori, de 35 anos, com o ultracolorido "A Vida É Boa". Os fãs de mangá logo devem identificar o cetro de uma certa garota mágica, ou as esferas de "Dragon Ball". Mas estes são apenas alguns itens sobre o qual está uma menina desmaiada, com um bolo de dinheiro na mão, sufocada pelas tensões do capitalismo tardio. Talvez nem os mangás sejam só aquilo que parecem ser.

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WAVE - NOVAS CORRENTES NAS ARTES GRÁFICAS JAPONESAS

Quando: Até 1º de maio. Ter. a sex.: das 10h às 18h; sáb.: das 9h às 19h; dom. e feriados: das 9h às 18h

Onde: Japan House - av. Paulista, 52, São Paulo

Preço: Grátis

Acessibilidade: Programação possui legendas descritivas que podem ser ativadas

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