Janaina Paschoal diz que demorou a aceitar o Dia da Mulher: 'discriminação'

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Por Susana Cristalli 

Dia de brigar (de novo) na internet? Dia de lutar por direitos e expor desigualdades ou de receber mimos e mensagens no WhatsApp? Nesta época de opiniões polarizadas, em que as pessoas se sentem mais confortáveis em suas próprias bolhas e só acreditam naquilo que confirma suas crenças, o 8 de Março tem potencial para ser mais um divisor entre progressistas e conservadores, feministas e não feministas.

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Ou seja, na internet, o Dia Internacional da Mulher é um campo minado onde a declaração de um político, celebridade ou até de uma marca pode virar a treta do mês. E, claro, uma ocasião para se posicionar, alfinetar e revirar os olhos para o famoso “outro lado”, seja ele qual for.

Uma data política

De acordo com o site International Women’s Day, o Dia da Mulher surgiu em diversos países europeus em 1911, inspirado pela luta das sufragistas britânicas pelo voto feminino, e por campanhas pela igualdade de gênero apoiadas pelo Partido Socialista americano. Hoje, as feministas são contra a ideia de um Dia da Mulher feito de flores, bombons e “parabéns” em um mundo onde, de acordo com a ONU, a cada hora que passa seis mulheres são vítimas de feminicídio.

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Nas eleições de 2018, o movimento #EleNão, de oposição à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), nasceu organicamente da iniciativa de mulheres e levou milhões de pessoas às ruas em 29 de setembro do ano passado. No dia seguinte, Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do Presidente da República, comentou que “as mulheres de direita são muito mais higiênicas que as da esquerda”. “Não mostram o peito na rua e não defecam para protestar”, disse.

Mas o que pensam do 8 de Março as mulheres conservadoras?

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Numa eleição marcada por vitórias da direita e extrema-direita, houve um aumento de 50% de mulheres na Câmara de Deputados, que passaram de 51 para 77 representando 15% do total. Destas, 43 ocupam o cargo pela primeira vez. Entre elas há ativistas feministas como Sâmia Bomfim (PSOL) e Talíria Petrone (PSOL), mas os números do PSL impressionam. Joice Hasselmann, ao somar 1.078.666 votos, foi a mais votada da Câmara. Já na Assembleia Legislativa de São Paulo o partido elegeu com dois milhões de votos Janaina Paschoal (PSL), deputada mais votada da história do Brasil.

A jurista foi uma das mais ferrenhas defensoras do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que por sua vez foi a primeira mulher a ocupar esse cargo no Brasil. Católica fervorosa, heavy user de redes sociais, militante contra o aborto: Janaína Paschoal conta que sua opinião sobre o Dia da Mulher mudou com o tempo.

Acabei me rendendo à data, por ver sinceridade nas comemorações e homenagens, bem como a alegria no olhar das mulheres quando cumprimentadas

Mas não foi sempre assim. “Preciso ser honesta, demorei para aceitar”, segue Janaina. “Em um primeiro momento, ficava até irritada quando alguém me cumprimentava pelo Dia da Mulher, via a própria existência do dia como uma forma de discriminação. Mas talvez seja meio radical com essas coisas. Entende?”.

Celebrar conquistas

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Já para as representantes do Partido Novo, o foco do discurso é na meritocracia. Para a deputada Júlia Lacy do Distrito Federal, o que vale ser comemorado é ”nossa capacidade criativa, empreendedora, libertária”. Ela acredita que “se partirmos de pontos iguais, podemos chegar aonde quisermos”.

Isso não significa que ela apoie cotas para mulheres. “A baixa participação de mulheres na política possui causas que precisam ser atacadas de forma consciente e não simplesmente focando em sintomas, sob pena de gerar outras distorções, tais como a utilização de mulheres como laranjas em partidos. Não fui eleita porque alguém disse que eu poderia ser útil para cumprir um patamar mínimo de mulheres na chapa”.

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Janaina Lima, nascida no Capão Redondo, periferia de São Paulo, foi líder e porta-voz do movimento pró-impeachment “Vem Pra Rua”, e em 2016 se tornou a primeira vereadora do Partido Novo na capital paulistana. “O Dia da Mulher é importante para lembrar da mulher como indivíduo livre e cidadã de direito, e também celebrar suas conquistas […] reforçar o valor e a força da mulher e mostrar que ela pode chegar aonde ela quiser, inclusive na política. O número de mulheres eleitas cresceu nas últimas eleições, mas ainda somos minoria”.

Sem “ódio aos homens”

Claudia L. Medeiros, gestora na área da saúde em São Leopoldo (RS) se considera liberal na economia — “defendo um Estado pequeno” — e votou no candidato Álvaro Dias. No segundo turno, apertou 17. Quanto ao 8 de Março, não gosta que ele seja explorado comercialmente. “Não acho que seja um dia de luta, mas sim de celebração pelas conquistas e de orgulho. A luta é diária”. E sobre o feminismo? Depende. “Defendo direitos iguais”, diz.

“Mas não sou do tipo que fica brava com gentileza masculina. Já convivi em meios bastante ‘masculinos’ tanto profissionais quanto sociais e sempre consegui ser respeitada. Acho que esse é meu jeito de defender as mulheres”.

A massoterapeuta F.B., preferiu ser citada apenas com suas iniciais, porque disse ter sofrido nas redes sociais ataques de opositores de Bolsonaro, em quem votou. “Já fui filiada a um partido de esquerda e hoje abomino o discurso vitimista esquerdista, e não me considero preconceituosa nem fascista, como querem nos pintar”, diz.

Ela não tem medo da palavra “feminista” e defende a importância do Dia da Mulher até para que não se esqueçam a forma como as mulheres são tratadas no mercado de trabalho. No entanto, minimiza os privilégios masculinos na sociedade.

Nós mulheres precisamos sim lutar, criar nossos filhos homens respeitando as mulheres, não admitir machismo, mas também sem pregar o ódio aos homens, pois o mau caráter independe de sexo

Vale ressaltar que de acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), metade das mulheres entre 25 e 35 anos que tiveram filhos perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. Além da disparidade salarial. Segundo pesquisa realizada pelo site de empregos Catho em 2018, mulheres ganham menos que homens em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolaridade pesquisados – a diferença chega a quase 53%.

Empoderamento é processo extremamente coletivo

Do outro lado Mônica Seixas, eleita em São Paulo pela Bancada Ativista do PSOL, acredita que é o momento de “celebrar, marcar e continuar o histórico de luta do 8 de Março”. E bate de frente com a ideia de que mulheres podem conquistar seu espaço sozinhas.

“Tentam colocar que mulheres merecem estar em mais ou menos lugares por conta do seu esforço, do seu mérito, quando para mim, por exemplo, terceira mulher negra eleita para a Alesp, estar aqui é resultado de uma luta coletiva, de muitas e muitas mulheres que vieram antes de mim abrindo espaço”. Para o PSOL a data também tem um gosto amargo, já que em março completamos um ano do assassinato de Marielle Franco.

Empoderamento não é só um processo individual, de construção de autoestima, é um processo extremamente coletivo, e a Marielle, resultado de vários processos de luta, foi morta quando chegou lá.