Polêmica com voo da FAB mostra os dois pesos e seis medidas do governo Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro participa da cerimônia de entrega da aeronave KC-390 para a Força Aérea Brasileira. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jair Bolsonaro não vê problemas em manter em sua equipe um ministro acusado de usar candidatas laranja na campanha de 2018. Nem um secretário de comunicação que negocia contratos públicos com clientes de sua empresa particular. Nem franze a testa com as trapalhadas do aliado que passou quase um ano no Twitter xingando adversários e não conseguiu realizar o Exame Nacional do Ensino Médio minimamente confiável.

Achou um absurdo, entretanto, que o ministro em exercício da Casa Civil (o titular está em férias) usasse um voo da Força Aérea Brasileira (FAB) para acompanhar as comitivas do governo em viagens oficiais à Suíça e à Índia.

Vicente Santini foi exonerado porque, segundo o presidente, deveria ter viajado em voo comercial, como outros ministros fizeram na ocasião.

A escolha não foi ilegal, mas “completamente imoral”, cravou o capitão, jogando o esqueleto do amigo dos filhos para a cova das redes sociais, de onde se ouvia “Mito! Como é honesto o meu presidente!”.

Acontece que a Santini não foi o único a utilizar um avião da FAB a trabalho. Levantamento da “Folha de S.Paulo” mostrou que outros seis integrantes do primeiro escalão fizeram o mesmo, entre eles Sergio Moro e Paulo Guedes.

Se o uso de avião oficial, previsto para ministros de Estado em casos de segurança, emergência médica e serviço, estava vetado, faltou a Bolsonaro explicar por que adotou dois pesos e seis medidas para outros auxiliares.

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Se o alvo era Onix Lorenzoni, o titular da Casa Civil com quem o presidente prometeu se encontrar para definir outras mudanças, o tiro saiu pela culatra. O amigo dos filhos, que aparece em fotos com a família, logo ganhou um novo cargo -- aparentemente após intercessão dos herdeiros.

Destituído da Casa Civil, ele foi nomeado na quarta-feira (29) como assessor especial da Secretaria Especial de Relacionamento Externo da Casa Civil, com um salário similar ao posto anterior.

O drible do tipo meia-lua, desses que você se afasta da bola para reencontrá-la no contrapé do adversário, pegou mal, e Bolsonaro teve de ceder novamente, desta vez à pressão de quem via na jogada uma forma de manter a boquinha.

Foi assim que, nesta quinta (30), Bolsonaro escreveu em suas redes que a admissão do servidor não tinha mais efeito.

O episódio dos voos da FAB não foi a primeira das muitas idas e vindas de Bolsonaro ao sabor das opiniões. Nem o primeiro desencontro entre pesos e medidas de um governo que mantém o discurso da moralidade na superfície das conveniências.

Mas reforçou, como nunca, a sensação de que não falta aeronave para o governo. Falta plano de voo.