Bolsonaro fritou presidente da Petrobras no óleo da mesquinharia

Matheus Pichonelli
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Roberto Castello Branco President of Brazilian oil company Petrobras, gestures during a press conference to announce the company's operational and financial results for the year 2018, at Petrobras headquarters in Rio de Janeiro, Brazil on February 28, 2019. - Brazil's state oil company Petrobras said on Wednesday it registered its first profit in five years, making 25.8 billion reais ($7.058 billion) in 2018.
O presidente da Petrobras Roberto Castello Branco. Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)

Se aparecesse de camisa vermelha, com o Che Guevara na peita, e boné de Lula Livre na cabeça, o futuro ex-presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, talvez não tivesse irritado tanto o chefe como o fez na reunião do último dia 5.

Segundo relato de Lauro Jardim, do jornal O Globo, o executivo entrou na mira de Jair Bolsonaro por aparecer em uma reunião no gabinete presidencial usando máscara N95 e óculos de proteção. Pior: em vez de abraços e apertos de mão aos presentes, eles os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), ofereceu cumprimentos de acordo com os protocolos de segurança. Foi como levar uísque na festa de um aniversariante abstêmio.

Da turma apenas Guedes usava máscaras, que ainda assim tirava ao falar. Castello Branco chegou a ser alvo de bullying dos presentes, que queriam saber por que ele estava vestido de astronauta.

Determinante para decidir o futuro dos subordinados, o alinhamento ideológico irrestrito com o presidente tem seu próprio figurino. Para o capitão, cumprir protocolos de segurança é “palhaçada”, conforme o relato do colunista. (Quem acompanha as declarações do presidente sobre “bundões”, “maricas” e a necessidade de enfrentar a pandemia como “homens” pode imaginar os adjetivos derivados em uma reunião privada).

Nos escombros do sítio arqueológico aterrado no Brasil pós-Bolsonaro, algum investigador do futuro precisará se questionar em que momento o episódio “menor” foi determinante para o cavalo de pau ensaiado pelo governo na petrolífera.

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Com este ensaio rasgou-se a fantasia de candidato dócil e facilmente manipulável pelas mãos invisíveis e habilidosas do mercado.

Para quem buscava segurança e previsibilidade antes de apostar suas fichas no capitão-fã-de-ditadores, o episódio é sintomático de como os desenlaces de um país estão hoje atrelados não a um projeto ou programa — digamos, uma política de preços—, mas aos humores pautados pela bile de quem governa. Como já escrevemos por aqui, os rompantes permitem concluir que ninguém está mais seguro no Brasil de Bolsonaro. Estamos apenas mais tensos e vulneráveis para a guerra. Com ou sem armas.

Nos seis primeiros meses de governo, o cientista político da Fundação Getúlio Vargas Sérgio Praça chamava a atenção, em uma entrevista para o UOL, para a dedicação de Bolsonaro a temas “bobos, sem valor real e sem perspectivas de se transformarem em algo concreto”.

Para mudar tudo isso que estava aí o presidente declarou guerra ao horário de verão, às cadeirinhas para crianças em automóveis, à tomada de três pinos, às urnas eletrônicas e outras alavancas que impediam a transformação do país em potência econômica global.

Com mais de dois anos de governo, as pequenas causas se converteram em mesquinharia pura. Interesse público e privado se amalgamam hoje em ideias fixas e implicâncias de ordem pessoal. Ou imperial.

A devoção à mesquinharia pode ter tido um peso maior do que imagina-se na fritura do presidente da Petrobras e outros ex-aliados. Bolsonaro intervém até onde pode em propagandas de bancos públicos, órgão de controle e montagem da equipe de aliados —qualquer contraponto ou indisposição a se curvar ao grande líder dá ao interlocutor o selo de inimigo esquerdista e traidor. Sergio Moro, que aceitou calado o veto de sua escolhida para o Conselho de Política Criminal, puxa a fila.

Na cruzada negacionista de Bolsonaro contra a doença que já mata 1.500 compatriotas por dia, temer ou dar bandeira demais, em gestos e vestuário, de cuidados para evitar a contaminação pode render ao futuro-ex-aliado uma passagem só de ida ao paredão do capitão.

Nos círculos de discussões dos adeptos do livre-mercado já se especula se Bolsonaro é mesmo um aliado no Planalto. Em 2021, eles talvez comecem a desconfiar só agora que o Brasil não povoou o suficientemente meio-de-campo da equipe para enfrentar a Alemanha na Copa que acabou há quase seis anos.