Coronavírus: Bolsonaro é quem aposta no caos

Foto: Mauro Pimentel / AFP via Getty Images


Peço perdão aos leitores.

Eu ontem escrevi um texto dizendo que Jair Bolsonaro parecia ter finalmente caído na real. Dizendo, não: repercutindo.

O próprio governador da Bahia, o opositor Rui Costa (PT), anunciou que a ficha do presidente caiu e o obrigou a mudar de postura, ensaiada numa videoconferência com os chefes dos Executivos estaduais.

Bolsonaro tinha elogiado a conduta dos governadores. Falou em cooperação e entendimento. E até recuou da ideia estapafúrdia de suspender de pagamentos a trabalhadores após a reação de congressistas e ministros do STF.

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No mesmo dia, uma outra versão do presidente apareceu na TV. Apavorado, pedia calma para a população e criticava a “histeria” em torno da quarentena -- que hoje afeta metade do Planeta. Atacava, como sempre, a imprensa e pedia para que as crianças voltassem para a sala de aula.

Em carta, secretários da Saúde do Nordeste manifestaram estarrecimento com o pronunciamento em cadeia nacional, dizendo que Bolsonaro “desfaz todo o esforço e nega todas as recomendações para combate à pandemia do coronavírus”.

No dia seguinte, em frente ao Palácio do Alvorada, disse que a orientação agora é: “cada filho que cuide do seu pai e seu avô. Isso não é obrigação do poder político. O povo tem que parar de deixar as coisas em cima do poder público”.

Como se não bastasse, o bate-boca com o governador João Doria (PSDB-SP), pela manhã, foi a prova cabal do destempero.

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As declarações são uma desautorização em tempo real de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cuja permanência no posto começa a ser questionada.

Mesmo para quem já identificou a estratégia bolsonarista de confundir para governar, fica difícil entender a mudança de postura em tão pouco tempo. A impressão é que Bolsonaro é uma biruta de aeroporto que fala e muda de ideia conforme assopram no seu ouvido.

Tem hora que quem assopra é a ala militar.

Tem hora que são os empresários preocupados com os negócios.

Em outras, os filhos e o chamado gabinete do ódio.

Qualquer análise sobre o que quer, exatamente, o presidente, ao contrariar uma orientação que vem sendo tomada por diversos países do mundo será mero achismo. Pode ser que o presidente não queira nada, apenas espalha o que ouve.

Pode ser que queira, e tenha dobrado a aposta de que cientistas, analistas, governadores e outros chefes de Estado estão todos errados, menos ele.

Talvez esteja seguindo seu feeling, e não avaliando fatos ou a curva de contaminação do coronavírus que ainda não chegou ao ápice.

Talvez um pouco de tudo isso.

Vamos combinar que não é fácil entender como um presidente vai evitar o caos espalhando o caos.

A essa altura já deu para perceber que entender o que se passa na cabeça do presidente não é apenas inócuo: é contraproducente.

A cada novo gesto, fica mais perceptível que Bolsonaro não tem mais condições de liderar a gestão da crise do coronavírus no Brasil, segundo a consultoria de imagem Curado & Associados. Após pronunciamento de terça-feira (24), foi reforçada, segundo o estudo, a percepção pública de um presidente “irresponsável” e “incompetente”. Em menos de uma semana, sua imagem se deteriorou e chegou a -4,30, nível em que a consultoria considera necessária a intervenção de terceiros para a solução. (A escala vai de +5 a -5).

O melhor seria deixá-lo falando sozinho. Dar a ele de vez um cavalo e um moinho para passar o tempo, enquanto o que resta de lucidez no mundo busca uma solução para evitar a carnificina.