Na crise do coronavírus, ninguém está mais perdido do que o presidente

Bolsonaro ignora orientações do Ministério da Saúde e se refastela com apoiadores na marcha do dia 15. Foto: Sergio Lima / AFP)

A China, potência econômica em plena expansão, fechou as portas e janelas.

Três de seus vizinhos já restringem desde fevereiro a entrada de passageiros pelos aeroportos.

Com uma forte vigilância das doenças e rastreamento, Singapura detectou três vezes mais casos de coronavírus do que a média global. Propagandas oficiais e anúncios em jornais insistem para que pessoas com sintomas procurem seus médicos e deixem de ir à escola e ao trabalho. Os testes são gratuitos. 

Em Taiwan, as autoridades controlam a distribuição de máscaras cirúrgicas para evitar a explosão dos preços nos mercados. 

A Itália determinou quarentena. Ninguém mais sai de casa sem uma boa justificativa.

A Espanha, idem.

Os EUA cancelaram voos vindos da Europa.

A França proibiu reuniões públicas nas ruas e nos parques. Também desobrigou empresas de pagarem contas de luz, gás e aluguéis, suspendeu reformas como a da Previdência e as viagens por 30 dias para 26 países europeus. As eleições locais foram adiadas.

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Tudo para combater a pandemia do novo coronavírus, certo?

Evidente, mas não na cabeça do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

Para ele, tudo não passa de “interesses” de quem se alinhou globalmente para impedir o governante brasileiro de mostrar sua arte e salvar o mundo de tudo isso que está aí. “Você tem um caos muito maior. Se economia afundar, afunda o Brasil. E qual é o interesse? Dessas lideranças políticas [que o criticam]? Se afundar a economia, acaba o meu governo”, disse o presidente, preocupado também com a suspensão dos jogos do futebol nacional.

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Em um ano e três meses de governo, Bolsonaro teve inúmeras chances de mostrar grandeza. Perdeu todas.

No momento em que o mundo resolve cortar na própria carne e se contorce para entender que, nessas horas, a vida vale qualquer aperto financeiro ou previsão de crescimento, o capitão usa um pronome possessivo (“meu” governo) para demonstrar qual é hoje sua grande preocupação.

É uma aula gratuita de mesquinharia.

No domingo, após serem insuflados (e posteriormente desaconselhados) pelo presidente a irem às ruas e demonstrar o seu amor ao governante obcecado pelo culto à sua personalidade, os manifestantes anti-Congresso e anti-STF preferiram demonstrar a devoção em vez de cuidarem de si e dos seus, na contramão do mundo todo.

Bolsonaro viu as migalhas ao chão e se refestelou nelas, mesmo sabendo que na volta de sua viagem aos EUA 12 auxiliares contraíram o vírus, inclusive seu secretário de Comunicação.

Como presidente, Bolsonaro se comporta como um motorista incapaz de esperar um fim de semana enquanto o carro está na revisão. Todos os mecânicos avisaram dos perigos de correr sem freio na ladeira, mas ele, confiante demais ou inseguro o suficiente para acreditar que tudo não passa de uma grande conspiração mecânica, preferiu pagar para ver.

Agora o mundo todo se pergunta como conseguiu sua habilitação.

Alguns, como Janaína Paschoal, sua ex-futura-vice, falam abertamente em impeachment.

Outros preferem ignorar o presidente e conduzir as ações de fato.

O pacote que veio do ministério da Economia é limitado, pois não alcança quem vive de bico no país da informalidade. Mas está na mesa.

Governadores, senadores, deputados, juízes, líderes dos países vizinhos e ao menos um ministro estudam ações conjuntas.

Parecem convencidos de que se ignorarem o presidente ignorante o presidente ignorante deixará de atrapalhar.

A ver.

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