Bolsonaro rebaixa Mourão a vice que não cabe na decoração

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro and Vice President Hamilton Mourao attend a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil January 12, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão. Foto: Adriano Machado/Reuters

Jair Bolsonaro é um presidente que não acredita em fantasmas, mas sabe que eles existem.

Alguns habitam a sua própria cabeça.

Outros estão na linha sucessória, antecipam mudanças no ministério, dão palpites em público sobre assuntos internos e precisam demitir assessores que saem por aí ensaiando golpe.

Dias atrás, o capitão mandou um recado ao general recrutado a vice na hora-limite da inscrição da dupla para a corrida presidencial.

“Lamento que gente do próprio governo agora passe a dar palpites no tocante à troca de ministros”, disse Bolsonaro, durante uma live. “O que nós menos precisamos é de palpiteiros no tocante à formação do meu ministério. Deixo bem claro que todos os 23 ministros sou eu que escolho e mais ninguém. Ponto final. Se alguém quiser escolher ministro, se candidate em 2022 e boa sorte em 23.”

Embora não tenha citado nome, a pedrada tinha um endereço: Hamilton Mourão.

Na terça-feira 9, o presidente deu mostras de que acertou o alvo.

Em uma reunião com os ministros, chamados um a um, o que mais chamou a atenção foi a ausência do vice-presidente, que no famigerado encontro de 22 de abril passado continha uma risada de Monalisa ao lado do ex-parceiro de chapa. Desta vez o sorriso decorativo foi dispensado.

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De lá pra cá não foram poucos os desencontros entre eles, como uma espécie de inversão de papéis. Três décadas após sair do Exército pela porta dos fundos da indisciplina, agora é o capitão que arranca os cabelos pelo subalterno que ignora seus apelos para fechar a boca.

O auge da tensão aconteceu quando um assessor de Mourão entrou em contato com o funcionário de um parlamentar para anunciar um racha nas forças armadas, na qual uma das alas já via o vice-presidente como a melhor opção para governar o país. Vazada a conversa, o assessor foi demitido, mas a fumaça não se dissipou.

Bolsonaro, dizem, desconfia que é Mourão o garganta que espalha por aí os planos e os segredos mal guardados de seu governo.

Em dezembro de 2015, quando as rusgas com Dilma Rousseff já não eram fofocas de bastidores, Michel Temer endereçou a ela uma carta com o potencial explosivo de uma bomba de hidrogênio. Nela, queixava-se por ter passado os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. O resto é história.

A ausência de Mourão na reunião presidencial foi mais do que um recado de desautorização. Foi o rebaixamento do vice a figura que não serve sequer para a decoração. Nem para sorrisos enigmáticos.

Desmoralizado, em público o general fez pouco caso do desdém presidencial. Para ele, se Bolsonaro considerava sua presença na reunião dispensável, tudo bem.

A resignação parece não chegar à segunda página.

Mourão marcou, para o dia seguinte, uma reunião do Conselho da Amazônia com 15 ministros do governo. No encontro, segundo a CNN Brasil, Mourão vai avisar que as Forças Armadas deixarão de comandar as operações de fiscalização da Amazônia a partir de 30 de abril.

Resta saber se o presidente está sabendo. E, se está, o que pensa a respeito.

Quem assiste ao tiroteio a distância pode pensar o que quiser. Inclusive em desembarque.