Suposta fraude eleitoral é mais um episódio do mito do "salvador" acorrentado

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Marco Bello/Reuters

Mal tinha tirado o celular do módulo avião e a primeira notificação que me chega, ainda na pista de pouso, era que Jair Bolsonaro havia acabado de dizer que a eleição de 2018, a que o elegeu, foi fraudada.

Em dez dias fora do Brasil, confesso que tive dificuldades para explicar aos estrangeiros algumas notícias vindas daqui. Traduzir a história de um senador baleado após tentar encerrar uma greve de policiais amotinados com uma retroescavadeira exigiu ajuda do Google Translate. 

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Também não foi tarefa fácil explicar quem era quem na famosa coletiva com o cosplay de presidente após a divulgação do PIB. 

O mesmo sobre os protestos endossados pelo presidente contra o Congresso e o STF.

Respirei aliviado por não precisar explicar a última. “Mas por que ele fez isso?”, ouvia recorrentemente nessas andanças.

Como se estivesse em outro fuso, inconscientemente tentava traduzir, em linguagem racional, qual a lógica de sabotar apenas um turno de eleição.

“Ah, ele não pode ganhar em primeiro turno. Mas no segundo tá tudo certo, vai de boa”.

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O exercício exige outro questionamento. Por que alguém, quase um ano e meio após a vitória nas urnas, apontaria o dedo contra o sistema eleitoral? Por que alguém resolve dizer que foi vítima de um boicote pela metade? 

E, levando-se em conta que nem mesmo o autor da conversa acredite na história, por que jogar isso agora no ventilador?

Respostas eu também não tenho. Tradução, menos.

Mas questionar ainda é permitido, e uma pergunta quase básica é se uma pedrada dessas em um sistema de sufrágio reconhecido internacionalmente não seria uma maneira de tirar do centro das atenções outros assuntos mais espinhosos. O que fazer para conter a alta do dólar? Até onde intervir? Temos planos de emergência? O que explica o desempenho até aqui medíocre da economia após tanta expectativa pelas reformas?

Se os analistas não têm respostas, o governo tem menos.

Como não tem respostas, precisa de narrativa. E mais velha do que andar pra trás é a conversa de que só não estamos, neste momento, nadando no leite e no mel da prosperidade porque forças ocultas impedem Bolsonaro de fazer o que precisa ser feito.

A história sobre uma suposta eleição fraudada é parte dessa conversa. Pode ser também uma forma de não precisar se submeter a essas mesmas urnas daqui a menos de três anos. Como? Jogando a credibilidade delas no lixo.

Só que antes Bolsonaro precisa explicar qual é, afinal, seu plano incrível de salvação que provoca tanto medo nas forças ocultas? Do que elas querem nos impedir, afinal?

Que cada brasileiro possa sair por aí empunhando sua arma? Esse é seu grande projeto?

Culpar forças ocultas, sem exatamente nomeá-las, pela paralisia do governo é uma forma de distrair a plateia mais fanática de pensar sobre a capacidade técnica de uma equipe formada majoritariamente por aliados despreparados, dos quais o ministro da Educação é até aqui o maior exemplo.

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Não é exatamente admitir a culpa pelo que não funciona, e sim a responsabilidade pelas escolhas.

Bolsonaro morrer abraçado ao mito do salvador acorrentado. Em quase 30 anos como deputado, foram as forças ocultas que o impediram de brilhar no Congresso. O mesmo em sua passagem pelo Exército. O mesmo agora como presidente: não foi ele quem falhou, e sim as condições impróprias de voo que o impediram de mostrar sua arte.

A criação de espantalhos pode não servir de escudo por muito tempo.