Depravação? Até quando Bolsonaro precisará de espantalhos para governar?

Jair Bolsonaro fala durante cerimônia dos 400 dias de seu governo no Palácio do Planalto. Foto: Adriano Machado/Reuters

Alexandre Garcia, ex-apresentador de TV que acredita que os brasileiros destruiriam o Japão e os japoneses transformariam o Brasil em potência caso as populações fossem trocadas no berçário, contou a Jair Bolsonaro a história de uma jovem que teve o primeiro filho aos 12 anos, o segundo com 15 e, quando veio o terceiro, já estava com HIV.

Foi o suficiente para levar o mandatário a justificar a política para mulheres de sua ministra Damares Alves. Afinal, uma pessoa com HIV não é um problema só para ela; é uma “despesa para todos no Brasil”.

Na mesma frase, Bolsonaro conseguiu colocar HIV, gravidez precoce e penumbra financeira num balaio sem nexo, mas perfeitamente de acordo com o discurso do medo que maneja desde a campanha para justificar sua presença no Palácio do Planalto como um espantalho diante da plantação. 

Não fosse ele, e o olhar vigilante do pai de família que ele diz representar, as nossas estariam sob risco, afrontadas por mamadeiras em formato de pênis, guias de iniciação sexual precoce distribuídos nas escolas, mães brincando de casinha com bebês de verdades e doenças sexualmente transmissíveis correndo soltas.

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“Essa liberdade que pregaram ao longo (do governo) do PT todo, que vale tudo, se glamoriza certos comportamentos que um chefe de família não concorda, chega a esse ponto, uma depravação total. Não se respeita nem sala de aula mais”, disse Bolsonaro, trazendo para a conversa seu espantalho favorito, o antipetismo.

É atrás desse espantalho que Bolsonaro tenta atravessar os tiroteios que ele mesmo provoca ao bancar aliados enroscados em sua equipe e desafiar os governadores a zerarem a cobrança de ICMS, parte importante da arrecadação dos estados, para combustíveis.

“Irresponsável” foi a menção mais sutil feita pelos governadores após a lorota, entre eles João Doria (PSDB-SP).

Bolsonaro teve um dia cheio. Conseguiu desagradar governadores, estigmatizar uma parcela da população já suficientemente estigmatizada, culpar a “depravação” de meninas de dez anos pelo estado das coisas e ainda provocar ambientalistas ao lançar um projeto que libera a mineração e geração de energia elétrica em terras indígenas.

Na fala, ele disse que, se pudesse, confinaria “esse pessoal do meio ambiente” na Amazônia para que deixe de atrapalhar os “amazônidas de dentro das áreas urbanas”. A declaração acontece no mesmo dia em que ele instalou uma liderança evangélica para tomar conta da Funai. Nas áreas supostamente beneficiadas pela medida, a conversão religiosa precederá a conversão econômica.

(Daí a diretora que concorre ao Oscar com um documentário sobre o impeachment diz em entrevista a um canal estrangeiro que o presidente está em guerra contra o meio ambiente e o canal oficial do governo corre para o Twitter para acusar a cineasta de ser uma militante anti-Brasil).

Ah, sim, no pronunciamento Bolsonaro voltou a dizer que “índio é um ser humano igual a nós” (ah, as entrelinhas) e seu ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, comparou o projeto que promete transformar áreas de preservação numa nova Serra Pelada a uma “Nova Lei Áurea”. Quem sabe com o puxa-saquismo explícito ele escape do óleo fervente da frigideira oferecida pelo chefe.

Com tanto espantalho, os pais de família puderam dormir tranquilos sem questionarem por que os governantes pais de família, todos dispostos a adotarem critérios técnicos e sem ideologia nas nomeações, escolheram para trabalhar na Secretaria de Comunicação uma arroba conhecida no Twitter por dizer que quem tem cabelo azul toma banho escondida do padrasto e que só comeu uma seguidora porque estava bêbado.

Coube a Alexandre Frota, ex-amigo do rapaz, dividir com o público as imagens de sua devoção a Deus e à família, mas essa parte podemos deixar pra lá.

Na terra dos falsos profetas, o que não falta é hipocrisia. E espantalhos.