Jade Picon entende dor de Natália e mostra que é papel da branquitude combater o racismo

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Jade Picon defende Natália no BBB22 (Reprodução Globoplay)
Jade Picon defende Natália no BBB22 (Reprodução Globoplay)

Após o massacre de Natália nas redes sociais e a ausência de contexto durante a edição ao vivo do "BBB22", o choro doído da sister ganhou mais um desdobramento com um discurso de Jade Picon em defesa de Natália.

Tudo começou quando Natália, que passou dias grudada em Lucas recebendo apoio e carinho do brother, foi obrigada a testemunhar o beijo entre o engenheiro e Eslovênia. Natália não suportou a cena e teve uma crise de choro, chegando a afirmar que pensou em desistir do reality.

No dia seguinte, mais calma, Natália explicou que a cena trouxe gatilhos antigos de racismo e rejeição afetiva, mas grande parte do público e de seus colegas da casa continuaram a bater na tecla mais simplista do ciúmes — que teve também e é totalmente normal para qualquer ser humano. Ninguém pareceu levar em consideração que Natália não é só uma pessoa frustrada que não aguentou ver o boy que estava interessada ficando com outra. A sister é uma mulher preta com vitiligo, que já deve ter sido rejeitada inúmeras vezes em prol de uma mulher branca.

Em papo com Bárbara, Eslovênia e Brunna, Jade Picon surpreeendeu ao falar sobre o assunto com maturidade (a sister tem apenas 20 anos) e recusar o discurso guiado pela branquitude de que Natália teve uma crise de choro apenas por não saber lidar com seu ciúmes.

"Tem a história dela lá de fora, é um lugar que é cansativo pra ela de estar. Ela disse que não se sentia como primeira opção lá fora. Ela traz outras dores, e querendo ou não, a rejeição que ela sente lá fora se repetiu aqui. Não é uma questão de culpa, mas é um gatilho pra ela. Ela está exausta vendo tudo acontecer de novo", explicou Jade. Bárbara tentou minimizar a dor de Natália, afirmando que todas as mulheres ali têm suas dores, mas Jade interrompeu: "Temos, mas isso envolve um assunto mais delicado".

Precisamos ouvir mulheres pretas

O discurso de Jade chama atenção para outro desdobramento perverso e muito comum do racismo estrutural: Jade fez o mínimo que se pode esperar de uma pessoa branca em 2022. A sister não é nenhuma heroína por ter tido a consciência de explicar que Natália estava sofrendo pelos traumas de uma sociedade racista. Mesmo assim, o discurso de Jade foi celebrado nas redes sociais, enquanto que outras mulheres pretas, como as ex-BBBs Gleici Damasceno e Thelma Assis, foram massacradas por falarem exatamente a mesma coisa com muito mais eloquência e lugar de fala.

Em suas redes sociais, Gleici afirmou que já sabia que parte do público, especialmente pessoas brancas, iria resumir o que aconteceu com Natália como puro "mimimi". "A solidão da mulher negra é uma realidade e assistir aciona gatilhos terríveis. Toda vez que falo sobre racismo na internet sou tão agredida que acabo evitando para não ficar tão mal. Sou sempre massacrada, e isso cansa e causa medo", desabafou.

Gleici foi uma das vencedoras mais emblemáticas da história do reality: mulher negra, do Norte do país, origem humilde e histórico impressionante de militância em prol dos movimentos sociais brasileiros, a sister conquistou o carinho do público e falou sobre questões importantes de política, racismo e feminismo em pleno horário nobre da Globo. A sister entende de BBB e sabe do que está falando, mas foi massacrada por um discurso que, para Jade, só rendeu elogios.

Outra vencedora do BBB, Thelma Assis, concordou com a fala de Gleici e explicou que passou a vida toda lidando com questões estéticas decorrentes do racismo. "Eu me solidarizo com Natália, porque a gente como mulher, várias vezes, é rejeitada, sim. Como mulher preta, mais ainda. A gente nunca é tida como padrão de beleza. Agora, de uns tempos para cá, que a gente está falando que somos bonitas, sim. Mas antes eu não me sentia assim. Na adolescência eu achava que era horrorosa, porque só as meninas brancas do colégio eram desejadas", afirmou ela em uma série de stories defendendo Natália.

A médica também foi alvo de ataques e críticas nas redes sociais por ter se posicionado a favor de Natália, e a história se repete: Thelma foi outra mulher preta que venceu o BBB e tem total autoridade em sua fala sobre o que acontece não só na casa como no mundo real, tão racista e supremacista quanto o confinamento.

Racismo não é entretenimento

Voltando para o discurso de Jade, vale nos perguntarmos: por que Jade foi elogiada dizendo a mesma coisa que rendeu ataques e críticas para Thelma, Gleici e outras mulheres pretas que deram contexto ao sofrimento de Natália? Como pontuou a jornalista e escritora Maíra Azevedo, a Tia Má, a postura de Jade precisa ser a de todas as pessoas brancas dentro e fora do BBB22. "Muitas vezes, pessoas brancas me perguntam o que podem fazer como aliadas. Minha resposta é: estude e converse com os seus. Use seus privilégios em prol da coletividade. Existe um pacto de proteção entre a branquitude. Jade falou o que nós, mulheres pretas, dizemos, mas quando é dito por ela, ganha outro contorno", disparou.

Precisamos cobrar da branquitude a solução para o racismo, e são pessoas como Jade, Eslovênia, Bárbara, Laís, Rodrigo, Lucas, Tiago, Pedro Scooby, Eliezer, Arthur e Naiara que têm obrigação histórica e moral de fazer esse trabalho. Esse posicionamento é urgente para que não tenhamos confinados como Natália, Lina e Douglas carregando nas costas o peso do racismo que os oprimiu a vida toda, e precisando dar aulas de opressão enquanto o Brasil consome o conteúdo em formato de entretenimento.

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