Jade Picon atriz resgata debate: onde estão as oportunidades para atores pretos?

Jade Picon terá papel na novela que irá substituir Pantanal na Globo (Foto: Reprodução/Instagram)
Jade Picon terá papel na novela que irá substituir Pantanal na Globo (Foto: Reprodução/Instagram)

A possível escalação de Jade Picon para a próxima novela das 21h da Globo, "Travessia", gerou revolta nas redes sociais, com o público apontando injustiça na escolha da influenciadora digital para um papel grande no principal horário nobre da TV aberta brasileira.

Jade nunca trabalhou como atriz, não fez cursos sobre o assunto e, caso de fato seja escalada para a novela, começará a nova carreira com uma exposição em grande escala. A notícia também gerou revolta de atores veteranos, que apontaram a falta de oportunidades na área para pessoas com muito mais experiência do que Jade.

Pouco após sua participação no "BBB22", a influenciadora afirmou que já pensou em ser atriz, e que vem sonhando com a nova carreira antes mesmo de pensar em entrar para o reality. "Falei muito no programa sobre esse sonho. Tenho que sentar e estudar. Ia estudar este ano, mas apareceu o 'Big Brother'. Como teve essa oportunidade, falei: 'Vamos nessa'", explicou para o Gshow.

A revolta do público focou na escolha de Jade Picon, mas a problemática vai muito além da influenciadora digital. Branca, cisgênero, padrão e herdeira milionária, Jade é símbolo de uma classe privilegiada que concentra em si grande parte das oportunidades de trabalho no Brasil, especialmente quando falamos de entretenimento e fama.

Dois pesos e duas medidas

Luciano, primeiro eliminado do "BBB22" e colega de Jade na casa, virou alvo de chacota e humilhação ao falar sobre o sonho de ser famoso. O brother estudou para ser ator, batalhou para conseguir aulas de balé em uma escola pública e precisou a lavar as roupas do projeto de dança que participou para ter dinheiro para a passagem de ônibus no Rio de Janeiro.

Por que o sonho de ser famoso de Luciano é risível, e Jade ocupar o mesmo lugar sem estudo é não só uma possibilidade como realidade? Vale lembrar que Luciano é um homem preto e pobre, e o ranço rápido e violento contra ele na época de sua eliminação passa pela questão do racismo. Sisters brancas como Naiara Azevedo, por exemplo, tiveram falas problemáticas dentro da casa, e não foram canceladas com a mesma virulência de Luciano, que não ofendeu ou prejudicou ninguém no confinamento.

Qual a responsabilidade da Globo?

No Brasil de hoje, a questão do apoio à cultura e à classe artística é essencial. No governo de Jair Messias Bolsonaro, o MinC (Ministério da Cultura) foi extinto e seus órgãos foram distribuídos para outros ministérios. Os gastos com a cultura diminuíram consideravelmente, com lentidão em mecanismos essenciais de fomento como a Lei Rouanet e editais da Ancine, por exemplo. Nesse cenário, é totalmente compreensível que atores veteranos tenham se revoltado contra a Globo, que decidiu investir em uma influenciadora digital como Jade Picon em vez de dar emprego para profissionais que estão na área há anos em busca de oportunidades.

A emissora demorou para trazer a questão do racismo para as discussões executivas, o que se reflete nos elencos das novelas de horário nobre. A Globo só teve sua primeira protagonista negra em uma novela com Taís Araújo, que participou de "Da Cor do Pecado", exibida em 2004. Em "Segundo Sol", exibida em 2018, a emissora recebeu uma notificação do Ministério do Trabalho pelo baixíssimo número de atores negros no elenco. Vale lembrar que em 1969, a Globo exibiu a novela "A Cabana do Pai Tomás", trazendo o protagonista Sergio Cardoso fazendo blackface, prática racista que coloca atores brancos com o rosto pintado para interpretar personagens estereotipados.

Vinicius Coimbra, diretor artístico de "Nos Tempos do Imperador", foi afastado da Globo após acusações de racismo. De acordo com relatos, atores negros foram escalados para gravar durante o pico da Covid-19, enquanto atores brancos puderam permanecer em casa e se proteger do vírus. As atrizes Cinnara Leal, Dani Ornellas e Roberta Rodrigues foram algumas das atrizes que denunciaram o diretor, afirmando inclusive que o elenco era separado por cor, tendo até camarins diferentes para evidenciar a divisão.

Considerando esse histórico, a escolha de mais uma pessoa branca e privilegiada para ter destaque em uma novela importante mostra que a Globo precisa repensar suas escolhas internas, e começar a questionar um racismo estrutural que afeta diretamente a vida, os salários e a saúde mental de atores pretos que estão em sua folha de pagamento.

BBB é treinamento para novela?

Nas redes sociais, os defensores de Jade Picon apontaram que a sister merece um espaço no horário nobre por ter se destacado nas dinâmicas da primeira metade do "BBB22". De fato, a rivalidade entre Jade e Arthur foi uma das principais narrativas do reality, mas o "BBB" não é entrevista de casting obrigatória para outras vagas da emissora.

Grazi Massafera, que se tornou atriz após ficar famosa no "BBB", fez cursos antes de começar a trabalhar na atuação, embora tenha sido também escalada como protagonista em um de seus primeiros trabalhos após sua participação no reality.

Na época, Grazi recebeu críticas ferrenhas por "Páginas da Vida", de 2006, mas persistiu. Entre papeis de protagonista, vilã e coadjuvante, a atriz foi ganhando experiência até chegar a "Verdades Secretas", na qual ganhou notoriedade pelo papel de Larissa, modelo que cai no vício do crack. O papel rendeu uma indicação para o Emmy internacional, e toda essa trajetória da atriz levou mais de 15 anos para ser concluída. Eram outros tempos, antes da existência de influenciadores digitais e da força do Instagram e do TikTok na televisão, mas a trajetória da ex-sister mostra como é possível criar uma carreira forte após o "BBB".

Sabrina Sato também criou uma trajetória tão forte e independente que há até quem se esqueça de que ela participou do "BBB3". A questão é que ambas as famosas estudaram e se especializaram antes de assumir papéis de evidência.

Se o argumento a favor de Jade é seu protagonismo dentro da trama, o exemplo de Natália Deodato é essencial. A sister movimentou o jogo e ficou na casa por muito mais tempo que Jade. Ela chegou a se pronunciar sobre a polêmica envolvendo a colega. "A Jade é uma pessoa maravilhosa, gosto muito dela. Ela trabalhou muito para chegar onde está, ela merece. Mas é aquilo que eu falei, é o padrão. Quero ver pessoas de representatividade, quero ver uma plus size protagonizando, um vitiligo, pessoas diferentes... Porque é o padrão, menina meiga, branquinha, cabelo liso, olhos claros, fofa. Coloca uma uma mulher forte, empoderada. É isso que eu quero ver, quero ver essa mudança. A Globo também está de parabéns porque ela é uma excelente pessoa, e como profissional eu tiro o chapéu. Mas cadê o Douglas, por exemplo?", afirmou para o jornal Extra.

A declaração de Natália traz o questionamento mais importante de toda essa discussão: onde está o destaque merecido por homens pretos que passaram pelo reality, como Douglas Silva e Babu Santana, atores veteranos e reconhecidos no cenário artístico nacional e internacional? O problema não é a escolha de Jade, que tem o direito de aceitar as oportunidades que recebe e não fez nada de errado. O problema é o racismo e o preconceito sistêmicos que entregam trabalhos, oportunidades, fama e sucesso apenas para o mesmo grupo de privilegiados de sempre.

Onde estão os atores pretos?

No "Papo de Segunda", ao lado de Emicida e Fábio Porchat, Douglas Silva falou sobre o preconceito contra atores pretos, e deixou claro que nem sua carreira tendo recebido atenção internacional após "Cidade dos Homens" garantiu emprego, estabilidade profissional ou qualquer tipo de atenção do mainstream após o fim do sucesso do filme.

"Eu sou o primeiro ator brasileiro a ser indicado para o Emmy, mas isso não influenciou em nada a minha carreira e meu bolso. Eu não ligo de fazer teste, mas tinha que ter um peso na hora de ser chamado. Sempre falei isso, eu até mesmo comecei a me criticar, achando que foi sorte eu estar ali naquele lugar. Mas depois eu falei, não foi sorte, pouquíssimas pessoas estão naquele lugar, então eu mereci sim tudo que conquistei", explicou ele.

Em uma live recente no Instagram, Douglas explicou que recebeu algumas propostas após o "BBB22" para voltar a atuar, e está analisando qual é a mais oportuna antes de anunciar qualquer novidade. De acordo com o "Notícias da TV", Douglas está negociando em sigilo com uma plataforma de streaming. Não há informações sobre eventuais propostas da Globo.

Outros exemplos da falta de representatividade

O ator Jonathan Azevedo também falou sobre racismo e preconceito na TV, afirmando que estudou e esperou a vida toda para realizar o sonho de ser galã em uma novela da Globo. "Meu galã ainda não pintou o convite… Mas continuo em busca, trabalhando cada vez mais. Em busca do meu espaço. Não só o meu. Mas dos outros que estão por vir. Tô aguardando, trabalhando e sei que ele está perto. Na verdade, ele está dentro de mim, só falta ser usufruído", explicou.

Nascido no Morro do Vidigal e com participações em "Estômago", de 2007, que lhe rendeu um prêmio Grande Otelo, Babu Santana ficou conhecido nacionalmente após encarnar Tim Maia na fase adulta no cinema em 2014. Após sua participação no "BBB20", no qual chegou quase até a final, esperava-se que Babu ganharia espaço de sobra na Globo, o que não aconteceu.

"Precisamos contar histórias de pretos, narradas por pessoas pretas, dirigidas por pretos, com protagonistas pretos. Como eu disse, mais da metade da população brasileira é preta, mas a grande maioria das histórias são sobre coisas que não falam de nós, que não refletem a veracidade das nossas dores, muito menos nos colocam num lugar de exaltação, vigor, intelectualidade, realeza. Além disso, as crianças pretas precisam ter grandes aspirações, ser diretores, escritores, roteiristas", afirmou Babu em entrevista ao "Correio Braziliense".

Racismo estrutural

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas pretas foram a maioria entre os desempregados no país no quarto trimestre de 2020, período que compreende os meses de outubro a dezembro. Com o avanço da pandemia e da crise econômica no Brasil, o abismo racial no país só aumentou: antes da Covid-19, 33% das mulheres negras estavam abaixo da linha da pobreza. Em 2021, essa taxa foi para 38%. Já a extrema pobreza, que atingia 9,2% das mulheres negras em 2019, subiu a 12,3%, de acordo com cálculos do estudo Made USP, da Universidade de São Paulo.

No entretenimento, o buraco é mais embaixo quando começamos a entender que o preconceito e a falta de oportunidades existe muito antes da gravação de qualquer novela e da escalação de qualquer programa. De acordo com dados da Universidade de São Paulo, já se passaram 70 anos da primeira transmissão da televisão no Brasil, ocorrida em 18 de setembro de 1950. Nessas sete décadas, por apenas uma única vez o país teve um negro como proprietário de uma concessão de TV.

Tais dados comprovam que o problema vai além da escalação de Jade Picon para a novela das 21h. Enquanto esse abismo racial não for questionado, continuaremos vendo pessoas pretas talentosas sendo ignoradas enquanto o privilégio se move pelas mesmas mãos de sempre.

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