Jô Soares trabalhou do hospital criando a peça 'Gaslight' antes de morrer

***ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 27-02-2019: Retrato de Jô Soares em sua casa, no bairro de Higienópolis. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)
***ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 27-02-2019: Retrato de Jô Soares em sua casa, no bairro de Higienópolis. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi por acaso que o diretor Maurício Guilherme descobriu que Jô Soares havia sido hospitalizado na madrugada de 28 de julho. Um dia antes de ser internado para tratar de uma pneumonia, Jô havia marcado uma reunião com Guilherme para discutir cenários, figurinos e a trilha sonora da peça "Gaslight - Uma Relação Tóxica", seu último trabalho, que entra em cartaz nesta sexta-feira, no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

"A voz dele já estava mais fraca, mas ele ainda continuava fazendo piadas. A saúde estava frágil, mas ele continuava ativo e criando muito", diz Guilherme, que, continuou atualizando Jô de todas as etapas da produção até poucos dias antes de sua morte, na madrugada de 5 de agosto, devido à falência múltipla de órgãos.

"Gaslight - Uma Relação Tóxica" marcaria a primeira co-direção entre Jô e Guilherme, acostumado a ser assistente de direção. "Foi muito enigmático. Ele me chamou para um cargo acima. Depois, convidou toda a equipe, pensou a concepção do espetáculo e foi embora. Deixou tudo pronto, como quem diz: 'agora vocês assumem'."

A partida do humorista suscitou dúvidas se a peça deveria mesmo entrar em cartaz, mas no velório a equipe, reunida, decidiu tocar o bonde. "É como uma escola, sabe? Nós nos olhamos e sabemos exatamente como ele gostaria que fosse feito", diz Erica Montanheiro, que encabeça o elenco ao lado de Giovani Tozi. "Sabemos todas as piadas, inflexões, as marcas dele, então aquilo que ele não conseguiu pôr as mãos fizemos como ele gostaria que fosse feito."

Narrando a história de um homem que age para fazer com que a esposa acredite estar perdendo a sanidade, "Gaslight - Uma Relação Tóxica" é um texto de 1938 que ganhou duas adaptações para os cinemas -uma em 1940 e outra, mais famosa, em 1944, estrelada por Ingrid Bergman.

Foi esta última que Jô apresentou a Giovani Tozi durante uma sessão de filmes clássicos que fazia em seu apartamento com amigos. O ator se encantou com a história e convenceu o amigo em transformar o filme num espetáculo.

"Ele achava que muito difícil montar um espetáculo que já havia dado certo noutra mídia. Depois, achou que não encontraríamos uma atriz boa o suficiente, mas fomos derrubando a resistência e no final ele ficou muito animado", diz Tozi, que também assina a produção da montagem, que conta ainda com Neusa Maria Faro, Kéfera Buchmann e Leandro Lima no elenco.

A partir daí, Jô iniciou o processo de adaptação do texto ao lado do jornalista Matinas Suzuki Jr., que, além de ajudar na tradução, serviu como um primeiro ouvinte para as muitas versões do texto. Antigo parceiro do veterano, Suzuki Jr. lembra que Jô se convenceu de que deveria mesmo fazer a peça quando assistiu a um episódio da série "Maravilhosa Sra. Maisel", na Amazon Prime.

"Adorávamos a série, e um dia a personagem foi se apresentar num bar de comédia que se chamava 'Gaslight'. Ali achamos que era um sinal. Uma grande brincadeira, mas o Jô tinha dessas coisas", relembra Suzuki Jr.

Suzuki diz que o veterano continuava lúcido e produtivo no hospital, embora não tivesse conseguido dar continuidade a dois projetos que acalentava. Um era uma ideia ainda embrionária de um livro com base na série "Only Murders in the Building".

O segundo desejo era o de montar uma companhia de repertório com nomes como Montanheiro, Guilherme e Tozi, o que nunca chegou a colocar em prática, embora se cercasse sempre da mesma equipe em suas produções.

"Ele tinha armado o circo, sabe? Fomos em frente com uma criação nossa, mas com uma criação que sabíamos que ele aprovaria", diz Guilherme, que colocou a montagem de pé em tempo recorde e sem patrocínio para honrar a data de estreia que tinha sido combinada com Jô em vida.

"É uma questão de honra", diz Tozi. "É a nossa homenagem ao Jô e a tudo o que ele representa, inclusive essa discussão que ele quis levantar."

A discussão em pauta, no caso, são os relacionamentos abusivos e a armadilha que eles representam. "A ideia da teia que percorre o cenário inteiro é justamente retratar como você pode cair com facilidade num relacionamento desses e fazer um alerta, principalmente para as garotas mais jovens", diz Tozi.

É onde entra a escalação de Buchmann, que se pôs à disposição da produção e, na primeira leitura, ganhou o papel. A conquista tem um gosto especial para a atriz e youtuber. "Estive numa relação abusiva que demorei para me libertar e, agora, através da arte posso deixar escancarado para que as pessoas se identifiquem e pulem fora", diz.

"Essa nova onda do feminismo vem para explicar, e isso está tanto em programas mais populares quanto nas universidades. Quando passamos a ter consciência do nosso corpo, lutamos com mais força contra esses abusos", acrescenta Montanheiro.