Jéssica Ellen questiona representatividade negra na TV

CRIS VERONEZ
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 13.03.2019 - A atriz Jéssica Ellen. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Prestes a viver uma empregada doméstica na segunda temporada de "Filhos da Pátria" (Globo), a atriz Jéssica Ellen, 27, questiona a representatividade que os negros têm atualmente na televisão brasileira e afirma que não basta "colocar a pretinha lá", se referindo. 

"Representatividade é uma palavra que está na moda, mas as pessoas infelizmente ainda entendem pouco sobre isso. É muito mais do que a presença física. A questão é o que esse personagem preto fala? Quais são os dramas que ele vive?", afirma a atriz. 

Na primeira temporada de "Filhos da Pátria", que era ambientada em 1822, Ellen interpretou a escrava Lucélia. Na segunda, todos os personagens voltam, transportados para 1930, no início da Era Vargas (período em que Getúlio Vargas governou o país) e Lucélia, agora, é uma empregada doméstica.

"Além de ser empregada, a Lucélia estuda à noite e ainda faz bolos e quitutes para vender. A série mostra como existem resquícios até hoje da escravidão no nosso país. Ainda que abordemos de forma rasa, por ser uma série de humor, isso fica muito evidente", avalia ela.

Ellen elege a cena que mais gostou de fazer na nova temporada da série de Bruno Mazzeo: um embate entre Lucélia e a patroa, Maria Teresa (Fernanda Torres). "Foi bem emotivo. Ela coloca os limites dela e vê que a família Bulhões também depende dela para que a casa funcione. Ela quer os direitos básicos, como carteira assinada e férias."

A atriz, no entanto, frisa que a cena é uma utopia: "Existem milhares de empregados explorados até hoje e muitas Lucélias da vida real não podem fazer o que a da ficção fez. Infelizmente ainda não podemos nos orgulhar e dizer que estamos todos bem e que vivemos em um país igualitário."

Ela torce para que, desta vez, a série seja exibida em um horário cuja audiência seja maior. Na primeira temporada, o programa ia ao ar às 23h30. "Foi meio ingrato. Era muito tarde, nem eu mesma assistia. Só na Globoplay. Espero que nessa segunda temporada a gente consiga um horário mais legal."

MULTIFACETADA

Nascida no Rio, Ellen é atriz, cantora e bailarina. Lançou seu primeiro disco, "Sankofa", em 2017, e por causa deste trabalho, foi convidada para o musical "Meu Destino É Ser Star, ao Som de Lulu Santos", de Diego De Angeli, Leandro Muniz e do diretor Renato Rocha, que estreou este ano e usa 40 sucessos do cantor e compositor carioca. 

"Até estrear, eu pensava: 'Ferrou, minha carreira acaba agora'. Eu não conseguia pegar as coreografias e nem abrir as vozes. Foi uma grande puxada de tapete que fez com que eu saísse da zona de conforto e corresse atrás", confessa ela sobre o espetáculo, que aborda dramas que os artistas passam durante uma audição.

Participar de um musical sempre foi um sonho da artista, que nunca tinha sido selecionada para este tipo de trabalho até então. "Sempre fiz testes para musicais e nunca passei. Era chamada para séries e filmes. Chegou um momento em que achei que isso não era para mim. Um dia recebi o convite direto por telefone", conta.

E as coisas deram tão certo que resultaram em um novo desafio: Jéssica Ellen foi convidada para dividir o palco com a cantora Elza Soares no Rock in Rio, no dia 29 de setembro.

"Através do musical, o Zé Ricardo, diretor musical do espetáculo, me chamou para cantar com a Elza (...) Me identifico muito quando ela diz que a política e a arte não são coisas separadas. É uma coisa só: o que penso, o que falo, o trabalho que eu faço."