História de Ivan, de 'A Força do Querer', quebrou invisibilidade de homens trans: “Estourou a bolha dominante hétero-cisgênero”

Felipe Abílio
·7 minuto de leitura
Ivan, de 'A Força do Querer'. Foto: Reprodução/Globo
Ivan, de 'A Força do Querer'. Foto: Reprodução/Globo

No dia 3 de abril de 2017, o país começava a acompanhar a novela ‘A Força do Querer’, que estreou com pico de 36 pontos no Ibope, consolidando a melhor audiência entre as três últimas tramas. Um dos pontos altos do folhetim foi a personagem vivida por Juliana Paes, a Bibi Perigosa, uma mulher apaixonada que assume os negócios do marido traficante, depois que ele vai preso. Mas, apesar da história marcante, é por outro motivo que a obra de Glória Perez perdura no tempo: pela primeira vez, espectadores acompanharam os conflitos de uma transição de gênero.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Para o papel de Ivana — personagem que nasceu biologicamente como mulher, mas que se identifica como homem ao longo da trama —, Glória escolheu a estreante na TV, mas veterana no teatro, Carol Duarte. Criada pela mãe para ser “a criança mais estilosa do Rio de Janeiro”, a menina rejeitava a vaidade de sua progenitora, vivida por Maria Fernanda Cândido. Já em uma das primeiras cenas, Ivana surge desconfortável com a imagem que vê no espelho. Ao conseguir dar vida ao furacão que a personagem vivia internamente, Carol ganhou destaque no país, mas houve quem criticasse a ausência de um ator trans para viver o papel. A tradicional família noveleira, no entanto, sentiu empatia pela história do homem trans que nasceu em suas telas.

Corta para 2020: a obra volta à TV Globo em uma reprise especial, por conta da pandemia. Em um contexto no qual o país assiste ao avanço das políticas ideológicas de direita e se mantém no topo do ranking dos que mais matam pessoas trans no mundo, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a novela conseguirá causar o mesmo efeito?

O policial civil Paulo Vaz estava na metade de sua vida pós-transição quando a novela foi ao ar, em 2017. Ele tinha começado o processo aos 30 anos, e, na época, tinha 32. Hoje, com o dobro de experiência, ele consegue identificar os pontos positivos que a trama trouxe ao destacar a história em horário nobre.

“A sociedade estabelece padrões de comportamento, vestuário, define o ‘normal’ de gênero e sexualidade, entre outras coisas. Quando a gente desperta dessas imposições formamos grupos e começamos a interagir em bolhas. Mas, se você não procurar entender quem são e como funciona a ‘micro-cultura’ das outras bolhas, irão surgir desentendimentos, falta de informação e preconceitos. O que a novela fez foi estourar a bolha dominante — hétero-cis —, introduzindo informações e demandas para criar empatia com as pessoas trans”, observa ele. “Mesmo eu e muita pessoas trans achamos que o protagonismo deveria ser de um ator trans, mas, sim, me senti representado. A Carol fez um belo trabalho.”

Paulo já se entendia como homem quando prestou o concurso para a polícia civil, mas ainda não tinha começado a harmonização por medo da burocracia com a documentação. Ao perceber que a espera para o trabalho seria longa, ele iniciou a transição. Depois de dois anos, já com nome e gênero retificados, o então futuro policial foi convocado para se apresentar na corporação.

Leia também

“Estava com todos os documentos novos no masculino, de barba, voz grave, etc. Fui para a fila e percebi que estavam chamando as pessoas pelo nome. Olhei pro lado e vi uma sala com a plaquinha ‘Psicologia’, pensei: ‘É aqui que vou entrar e explicar meu caso, né?’. Conversei com a psicóloga e ela falou para aguardar enquanto falaria com o responsável. Minutos depois, fui chamado e o responsável rapidamente disse: ‘Ah! É igual o caso da novela né?’. Eu disse: ‘Sim! Isso mesmo!’. Ele respondeu: ‘Bem-vindo! Vou resolver essa questão dos documentos aqui, peraí’. Ele então saiu, foi até a equipe médica e explicou meu caso. Voltei para fila e tudo prosseguiu sem nenhum problema”, relembra.

O pesquisador clínico e modelo, Athos Souza, tinha 27 anos quando a novela foi ao ar. Na época, com três anos de seu processo de transição, ele recorda que a trama ajudou bastante na relação de entendimento de pessoas próximas.

“A novela trouxe a oportunidade de conversar com a minha família na mesa de jantar sobre algo que até então não era conversado normalmente. O assunto passou a ser falado de forma muito leve, foi maravilhoso vê-lo sendo abordado em vários círculos sociais do meu convívio. Sabemos o quanto o povo brasileiro ama e vive a teledramaturgia com intensidade.”

A trama de Glória Perez pode ter influenciado ainda a carreira do modelo, já que, no ano seguinte ao da exibição, Athos ganhou o título de Mister Rio Grande do Sul 2018, sendo o primeiro homem trans a participar e a ganhar um concurso de certame oficial.

“Representatividade é muito importante. Tenho certeza de que a novela vai esclarecer e abrir portas para muitas pessoas se reconhecerem e começarem a se entender um pouquinho melhor, assim como foi comigo. Obviamente existem comentários e posicionamentos negativos, como em qualquer assunto. Mas, assim como aconteceu na época, muita gente vem conversar e perguntar sobre situações que aconteciam na história.”

Preconceito existe

Na esteira do patriarcado e do machismo enraizado na sociedade, o preconceito contra homens trans não é tão normalizado quanto o que acontece com mulheres trans e travestis. Ainda assim, a comunidade trans masculina sofre com a falta de informação que a invisibilizou por tanto tempo.

Paulo relembra, por exemplo, da dificuldade de encontrar um médico que o ajudasse na sua transição, ao se mudar para a cidade de São Paulo. “Sempre tento ir a profissionais da saúde que são LGBTs / ‘friendly’. É diferente a forma que nos tratam nos consultórios, quando falamos que somos trans. Quando cheguei em São Paulo, por exemplo, tive muita dificuldade em achar um médico que desse prosseguimento a minha hormonização. Davam a desculpa de que não sabiam como proceder, era frustrante”, recorda. “Mas sei que pelo fato de nós, homens trans, sermos mais passáveis (não perceberem que somos trans) também não sentimos tanto preconceito quanto uma mulher trans/travesti no dia-a-dia.”

Athos reforça que a escolha por passar pelo processo de transição é estritamente pessoal. “Muitas pessoas trans masculinas optam por não tomar hormônios ou fazer qualquer tipo de cirurgia. Aí a realidade dessas pessoas acaba sendo completamente diferente. A sociedade ainda tem uma visão muito degradada do que é feminino e masculino, pensam que para ser homem é preciso ter barba, falar grosso e ser um ‘embuste’. Mas as pessoas não-binárias surgem como um movimento forte para quebrar essas ‘construções’ e mostrar que existem várias formas de performar o masculino e feminino”, afirma. “Independente de qualquer coisa, o respeito precisa ser fundamental.”

Movimentos ganhando força

Se na época da novela o assunto era tratado como novidade pelo público no geral, a invisibilidade do público trans masculino tem diminuído ano após ano. Com a explosão do uso das redes sociais, a comunidade tem conseguido se unir mais na busca pela representatividade.

“Comparada às mulheres trans/travestis, a nossa luta é muito recente. Podemos dizer que ganhamos força nos últimos 5 ou 6 anos apenas. Por isso, ainda estamos engatinhando nas nossas pautas, tentando solidificar grupos, fazer germinar representantes políticos, ações já avançadas das nossas irmãs trans. Há também outras questões dentro da comunidade, como o preconceito de muitas pessoas gay/lesbica/bi que são cis e deslegitimam as pessoas trans, o que contribuí para o atraso da nossa visibilidade”, opina Paulo.

“O meio LGBT infelizmente reflete muito os mesmos preconceitos que vivemos no dia a dia. O falocentrismo ainda impera nesse meio, principalmente quando falamos no G [de gay] dessa sopa de letrinhas. A nossa invisibilidade também é culpa nossa, pois durante muito tempo optamos por nos tornar invisíveis para fugir dos rótulos e das violências, mas isso mudou. Entendemos que se posicionar é de extrema importância, seja para a construção de políticas públicas ou para nossas vivências pessoais. Agora basta a comunidade LGBT entender que precisamos nos unir e não nos afastar”, afirma Athos, mostrando que, mesmo em um contexto político conservador como o atual, não devem haver retrocessos.

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube