Durante o isolamento social, o que vemos é uma pandemia do egoísmo

O desrespeito ao isolamento social tem a ver com uma cultura imediatista, uma visão individualista de tudo e a falta de uma liderança coerente (Foto: Getty Images)


"Nenhum homem é uma ilha", já diria o poeta John Donne. Porém, em tempos de quarentena de coronavírus parece que, sim, cada homem, mulher e criança, anda isolado em sua própria ilha particular, alheio a ideia de que as suas ações afetam muito mais do que seus próprios coqueiros e praias privativas. 

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Nas últimas duas semanas - e alcançando a marca de um mês desde o início da quarentena determinada por alguns estados brasileiros, como São Paulo -, vimos a confusão da população sobre a necessidade do isolamento e do distanciamento social por conta do vírus Covid-19. 

Acredite, a volta de aglomerações em alguns locais - na própria capital paulista, praças foram vistas cheias de pessoas e há notícias de estabelecimentos que voltaram a abrir -, mostram de forma clara como as pessoas ainda têm dificuldade em pensar no coletivo. 

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Por quê? Bem, apesar dos muitos confortos que a vida moderna trouxe há também uma desconexão com a complexidade da sociedade. Parece mais difícil de entender do que é de fato. Segundo Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o que vemos acontecendo agora é uma suspensão da vida cotidiana, que se dava por meio da repetição de padrões coletivos: acordar no mesmo horário, levar os filhos para a escola, chegar em casa no fim de tarde… É aquilo que chamamos de rotina. 

Pelo viés sociológico, o professor explica que uma das principais dimensões que conectam as pessoas é o trabalho - por mais que, muitas vezes, não pareça assim. A analogia que melhor representa isso é a do corpo humano: o organismo depende que uma série de órgãos funcionem de maneira saudável ao mesmo tempo. Não faz sentido o corpo continuar normalmente se apenas um ou dois desses órgãos executarem as suas funções.

No caso da pandemia do coronavírus, pense no seguinte cenário: se todas as pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo e uma parte delas precisar de atendimento médico ou de internação por complicações, o sistema de saúde não tem capacidade de comportar essa demanda, além da demanda que já tem normalmente. É a falha de um dos órgãos vitais. Desconsiderar essa visão mais ampla é, sim, não ter visão do coletivo e do seu papel dentro desse engenho.

"Não adianta acreditarmos que apenas o desempenho da sua função ou categoria leva a sociedade a funcionar. Se funciona, e ela está normal, é porque todos os outros estão trabalhando", explica Rodrigo. "É um princípio básico da sociologia que indica que a coletividade depende da solidariedade. E, aqui, a solidariedade é como um cimento invisível que liga os indivíduos e os grupos sociais". 

Em termos práticos: pode parecer que não, mas a sua vida depende muito mais dos outros do que você imagina. Para pedir uma comida em casa, você precisa de um entregador. Para aprender alguma coisa, de um professor. Para se curar de uma doença, de um médico. Para reformar a sua casa, de um empreiteiro, e assim por diante. A ideia de que as pessoas são totalmente independentes é uma mentira. A sociedade está conectada de uma forma que quando um lado cai, ela não funciona direito - basta lembrar da greve dos caminhoneiros, em 2018. 

Junte a isso o fato de que a vida moderna colocou uma lupa sobre o individualismo. Com um fone de ouvido nos isolamos do mundo, não nos preocupamos com o outro e defendemos a ideia de que cada um cuida das suas coisas. Diferente de uma tribo indígena, por exemplo, onde as funções são coletivas e todos colaboram para o funcionamento daquela comunidade, em uma cidade como São Paulo vemos que cada um faz o seu e isso, até então, era o suficiente. 

Agora, você deve estar se perguntando: qual a relação disso tudo com a pandemia? Simples: "A pandemia suspendeu o cotidiano para o bem e para o mal. Para o bem, muita gente tem percebido e valorizado figuras que dentro da sociedade nunca tiveram muito respeito", diz Roberto. "Nós passamos mais de um ano com os atuais ocupantes do governo negando a ciência, os professores e os jornalistas. Quando a pandemia estourou, onde as pessoas foram buscar alento e tranquilidade? Na ciência e nos jornalistas". 

Por outro lado, o professor explica como desobedecer uma ordem de quarentena, por exemplo, só explícita algo que já é amplamente criticado mundo a fora: a cultura brasileira do imediatismo, do despreparo e, principalmente, da falta de uma liderança que tranquilize e saiba como conduzir uma nação em um momento de crise. 

O egoísmo em tempos de quarentena

Segundo Cláudia Cruz, psicóloga do S.O.S Vida, as pessoas que são consideradas egoístas têm uma tendência a pensarem que as suas opiniões, gostos e escolhas são sempre melhores para si e para os outros. 

Dessa forma, desrespeitar uma ordem de distanciamento social e isolamento pode ser tanto fruto dessa natureza egoísta, quando de uma reação ao desconhecido: como a cultura brasileira é recheada de proximidade, viver o oposto disso parece absurdo e até difícil. "A preocupação é quando esse questionamento deixa de ser pela via da busca pelo entendimento/aceitação e passa a ser uma resistência à adesão às recomendações. Tal situação pode gerar conflito e um clima de insegurança", diz.

Junte a isso outro ponto importante levantado por Rodrigo: a falta de uma liderança firme e da coerência entre as informações passadas para a população geral - do ensino através do exemplo. Sem um discurso único, as pessoas se sentem perdidas e tendem a fazer o que consideram mais confortável para elas. "Nesse momento de desencontro, cada um fala uma coisa e o cidadão comum, aquele que está na base, aguardando, fica perdido. Nesse sentimento angustiante, se comporta de maneira diferente daquilo que é recomendado". 

Some-se a isso também a polarização política, a raiva, que é só a cereja do bolo, uma população que é mundialmente conhecida por ser muito emocional e, pronto, temos uma nação de pessoas imediatistas com pouco (ou quase nenhum) senso cívico e coletivo. 

Como saímos dessa? 

O cenário parece desastroso, mas há uma saída. Para Cláudia, mudanças de postura são possíveis, já que passam pelo processo de aprendizado. "Na infância, por exemplo, incorporamos hábitos, comportamentos bons ou ruins através da observação do comportamento das pessoas que convivemos. Neste sentido, o comportamento inadequado pode ser modificado desde que passe pela via da necessidade e desejo de quem o tem", explica.

Ou seja, vemos aí um caminho para uma mudança que, a curto prazo, pode tornar a crise do coronavírus muito mais branda. Porém, há uma palavra chave a ser explorada: aprendizado. 

Como disse Rodrigo, a presença de uma figura de liderança que ensine pelo exemplo e demonstre o que é importante, em termos de valores coletivos, nesse momento, é essencial. No mais, o principal investimento precisa, hoje e daqui em diante, ser feito em educação. 

"O Brasil é o último em termos de status e respeito em relação ao professor. Nós desvalorizamos em absoluto o valor daqueles que educam. Ninguém quer ser professor porque não se valoriza. Em um país que não valorizou a sua educação, o sentimento de coletividade de pertencimento cívico chega nesse ponto. Tem como mudar? Tem sim", diz ele. 

O primeiro passo, então, é buscar uma ressignificação dos valores que cultivamos até hoje e buscar valorizar mais a formação das pessoas: "A educação é para a vida, para preparar as pessoas, para terem uma educação coletiva".  

Somado a isso, vem um segundo passo: o planejamento. Para o professor, o Brasil é um país pouquíssimo preparado e com visão a longo prazo de onde quer chegar como nação e isso, culturalmente, reflete-se até mesmo forma como as pessoas lidam com o próprio trabalho e dinheiro, por exemplo. 

Sim, as soluções rápidas são importantes - e podem funcionar, como é o caso do distanciamento social -, mas o trabalho que precisamos fazer não é para hoje nem durará uma quarentena. Esse período pode, no mínimo, nos servir como um momento de reflexão sobre a importância que as nossas ações e o nosso papel tem no todo e como uma pessoa a menos rua pode parecer insignificante, mas, na verdade, faz uma diferença enorme na disseminação de um vírus que pode desregular todos os órgãos vitais de um país. 

Por fim, vale lembrar que a frase de John Donne, citada no começo deste texto, não acaba ali: "Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte de um todo".