Ismael Ivo foi inocentado de acusações de assédio depois de ser demitido do Municipal

MARINA LOURENÇO E EDUARDO MOURA
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SÃO PAULO, SP, BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - O coreógrafo e dançarino Ismael Ivo, morto nesta quinta-feira de Covid-19, foi inocentado das acusações de assédio moral que membros do Balé da Cidade, do Theatro Municipal de São Paulo, apresentaram contra ele em agosto do ano passado. A informação, obtida pela reportagem, não havia sido divulgada até agora por nenhuma das partes envolvidas no processo. Um relatório do comitê de ética e compliance do Instituto Odeon, que administrava o Municipal na época das denúncias, colheu depoimentos de oito pessoas que teriam presenciado os episódios de assédio moral em questão. Todas elas negaram que houve conduta inadequada. No documento, assinado por representantes do Odeon e da Fundação Theatro Municipal, é dito que não há qualquer "conduta a ser imputada ao averiguado" e é pedido o arquivamento da investigação interna. Ainda assim, o coreógrafo teve seu vínculo rompido com o Theatro Municipal, após o Odeon ter saído de cena e a Santa Marcelina Cultura ter assumido interinamente o comando do complexo. A reportagem teve acesso a um ofício enviado ao Instituto Odeon, pela Fundação Theatro Municipal, em que se afirma que a Santa Marcelina decidiu pela demissão de Ivo. "Três colaboradores [entre eles, Ismael Ivo] não serão objetos de sucessão trabalhista", diz o ofício, na ocasião da troca de gestão do Theatro Municipal. A Secretaria Municipal de Cultura esclareceu, em nota, que "Ivo fazia parte do quadro de funcionários do Instituto Odeon, cabendo assim à entidade o desligamento do profissional do Balé da Cidade". O relatório da comissão de compliance do Odeon, porém, finalizado depois que a prefeitura rompeu com o instituto, afirma que não há relação entre a demissão de Ivo e as denúncias de assédio moral. Segundo um porta-voz da assessoria de Ivo, o fato de o artista ser demitido do Municipal mesmo após a absolvição causou no artista uma frustração que preocupava pessoas próximas a ele, já que havia sofrido dois AVCs, acidentes vasculares cerebrais, naquele ano. Ainda segundo a assessoria de Ivo, havia uma movimentação interna no Municipal para que Ivo fosse demitido do cargo, numa tentativa de "manter a gestão da organização social Santa Marcelina Cultura" para gerir o teatro. No final de agosto, a revista Veja São Paulo revelou a existência de um processo de investigação das acusações, conduzido pelo Instituto Odeon, que então administrava o Municipal, com o acompanhamento de um servidor da Fundação Theatro Municipal. De acordo com a Veja, o documento de denúncia contra Ivo afirma que o ex-diretor do Balé da Cidade usava frases como “calem a boca” e “vocês não eram nada [antes de mim]” para se dirigir aos funcionários. A revista ainda afirmava que uma reclamação de importunação sexual foi registrada na ouvidoria no início deste ano pelo produtor Gustavo Silva, que disse ter recebido abraços e carícias de Ivo em reuniões. Segundo o relatório do Odeon, a partir de leitura de emails e depoimentos, foi concluído que o que houve foi "um flerte que não prosperou" e que quando "uma das partes se mostrou desinteressada qualquer contato mais íntimo foi abolido". Após a repercussão das denúncias, chegou a ser criado o movimento #justiçaparaismaelivo, que em dezembro do ano passado entregou uma carta ao prefeito Bruno Covas, do PSDB, cobrando justificativas para a demissão do coreógrafo. A carta afirmava que "o ato demissionário torna-se questionável e perverso porque Ismael Ivo foi absolvido das acusações levianas e improcedentes que lhes foram imputadas". Segundo Vera Santanta, que participa do movimento, as pessoas que fizeram as denúncias "não se sentiram representadas por um homem negro". "No final das contas era mais do mesmo, mais racismo." A reportagem entrou em contato com a Santa Marcelina Cultura, que não se manifestou até o momento da publicação.