Irã clama vingança após morte de general em bombardeio dos EUA

Sayyed Issa Tabatabai, o representante do líder supremo do Irã, Ayatollah Ali Khamenei, recebe as condolências da embaixada iraniana no Líbano. (Foto: ANWAR AMRO/AFP via Getty Images)

Um bombardeio dos Estados Unidos matou nesta sexta-feira (3) o influente general Qasem Soleimani e um líder pró-Teerã no aeroporto internacional de Bagdá, o que exacerbou as tensões regionais e provocou pedidos de "vingança" do Irã.

O Pentágono afirmou que o presidente Donald Trump deu a ordem de "matar" Soleimani depois que uma multidão pró-Irã atacou a embaixada americana em Bagdá na terça-feira.

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O guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, pediu "severa vingança" pela morte de Soleimani, na mais grave escalada em uma temida guerra entre Irã e Estados Unidos em território iraquiano.

A embaixada americana recomendou a seus cidadãos que abandonem "imediatamente" o Iraque. O presidente Trump tuitou uma foto da bandeira dos Estados Unidos, sem qualquer explicação.

O bombardeio americano, nas primeiras horas da sexta-feira contra um comboio de veículos no aeroporto internacional de Bagdá, matou nove pessoas, incluindo o general Soleimani, que era responsável pelas questões iraquianas na Guarda Revolucionária, o exército ideológico do Irã, e Abu Mehdi al-Muhandis, que tinha dupla cidadania iraquiana e iraniana, o número dois das Forças de Mobilização Popular, ou Hashd al Shaabi, uma coalizão paramilitar pró-Teerã integrada ao Estado iraquiano.

"Esta é a maior operação de decapitação já realizada pelos Estados Unidos, maior que as que mataram Abu Bakr al-Bagdadi ou Osama bin Laden", líderes do Estado Islâmico (EI) e da Al-Qaeda respectivamente, afirmou Phillip Smyth, analista americano especializado em grupos armados xiitas.

Uma fonte militar americana afirmou à AFP que o impacto que pulverizou dois veículos do comboio foi executado com um "tiro de precisão de drone".

Também afirmou, sob anonimato, que alguns dos 750 soldados adicionais mobilizados chegaram a Bagdá para reforçar a segurança na embaixada americana.

As reações ao bombardeio foram quase imediatas. China, União Europeia, Grã-Bretanha, França e Alemanha pediram calma e prudência.

O Irã e seus movimentos satélites, como o Hezbollah libanês, o Hamas palestino ou os huthis iemenitas, clamaram vingança.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu interrompeu sua viagem à Grécia para retornar em caráter de urgência ao país.

"Não há nenhuma dúvida de que a grande nação do Irã e outras nações livres da região se vingarão por este crime horrível dos criminosos Estados Unidos", prometeu o presidente iraniano, Hassan Rohani.

A diplomacia iraniana convocou o embaixador da Suíça, que representa os interesses dos Estados Unidos em Teerã.

Em Teerã, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra os "crimes" americanos e gritaram frases como "Morte aos Estados Unidos".

ENTRE DOIS INIMIGOS

As mortes desta sexta-feira aumentam o temor citado por vários analistas há alguns meses: que o território do Iraque se transforme em um campo de batalha indireto para Irã e Estados Unidos.

O presidente iraquiano Barham Saleh pediu "moderação" a todos, enquanto vários comandantes pró-Irã pediram aos combatentes que "estejam preparados" para responder ao ataque americano.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdel Mahdi, teme que o ataque provoque uma "guerra devastadora no Iraque", ao mesmo tempo que o influente líder xiita iraquiano Moqtada Sadr anunciou a reativação de sua milícia anti-EUA, o Exército de Mehdi, e ordenou que seus combatentes fiquem preparados.

O grande aiatolá Ali Sistani, figura tutelar da política iraquiana, considerou o ataque americano "injustificável", enquanto seu representante na cidade sagrada xiita de Kerbala leu o sermão que denunciou "uma violação flagrante da soberania iraquiana". Centenas de fiéis gritaram "Não aos Estados Unidos".

Há vários anos o Iraque se encontra no meio do fogo cruzado entre seus dois grandes aliados: Estados Unidos e Irã.

Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou a controlar as questões iraquianas. Mas Teerã e o movimento pró-Irã se infiltraram no sistema aplicado pelos americanos.

As forças pró-Teerã acumularam um arsenal graças ao Irã, mas também ao longo de anos de combate junto com os americanos, em particular contra o Estado Islâmico.

Washington respondeu à ação contra sua embaixada, que fica no centro da ultraprotegida Zona Verde de Bagdá, assim como a semanas de ataques com foguetes contra seus diplomatas e soldados.

"Os serviços de inteligência americanos seguiam Qasem (Soleimani) há muitos anos, mas nunca apertaram o gatilho. Ele sabia, mas não calculou até que ponto suas ameaças de criar outra crise de reféns na embaixada (em Bagdá) mudaria as coisas", explicou à AFP Ramzy Mardini, do 'Institut of Peace', recordando o trauma provocado nos Estados Unidos pela tomada de reféns na representação diplomática americana em Teerã em 1979.

"Trump mudou as regras ao eliminá-lo", disse.

DIVISÃO POLÍTICA NOS EUA

As consequências do assassinato seletivo de uma das figuras mais populares do Irã provocaram preocupação nos Estados Unidos e uma nova divisão entre democratas e republicanos, que apoiaram o ataque, a menos de um ano das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

O Congresso americano não foi informado com antecedências sobre o ataque.

Este bombardeio ameaça provocar "uma perigosa escalada da violência", advertiu a presidente da Câmara de Representantes, a democrata Nancy Pelosi.

As principais Bolsas do mundo operavam em queda nesta sexta-feira, enquanto as cotações do petróleo registravam alta.

O petróleo iraniano está submetido a sanções americanas e a crescente influência de Teerã no Iraque, o segundo maior produtor da Opep, gera o temor entre os especialistas de um isolamento diplomático e de sanções políticas e econômicas

Na praça Tahrir de Bagdá, epicentro dos protestos contra o governo e seu aliado Irã que abalam o país há mais de três meses, dezenas de iraquianos celebraram a morte do general Soleimani. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, compartilhou um vídeo no Twitter de pessoas "dançando pela liberdade".

da AFP