Porta dos Fundos: é preciso agir diante do ataque de integralistas

Porta dos Fundos: é preciso agir diante do ataque de integralistas

Texto / Pedro Borges

A publicação de um vídeo de integralistas de extrema direita assumindo o ataque terrorista à sede do Porta dos Fundos, grupo de comediantes, chama atenção para um país já em alerta. Diante do fascismo explícito, é preciso agir, sobretudo no plano político.

É preciso que a Polícia Federal investigue o caso e detenha os responsáveis pelo ataque criminoso. Mas acreditamos na justiça? A mesma que ainda não sabe quem mandou matar Marielle. A resposta precisa ser dada na política e a esquerda não pode recuar e ir ainda mais para o centro. Não basta defender de maneira acrítica o Estado democrático de direito, é preciso apresentar um outro projeto de mundo.

O filme do Porta dos Fundos disponibiliza uma reflexão, no caráter de humor, ao cristianismo, à heteronormatividade e aos valores da chamada família tradicional. O programa Porta dos Fundos insinua durante o enredo de que Jesus Cristo é um homem LGBT e mostra uma Nossa Senhora flertando com Deus e até pensando em trair o companheiro José.

Os terroristas, em resposta, depois de assumirem o ataque, destacam a necessidade de preservação dos valores cristãos, nacionais e da família tradicional. O ataque e o conteúdo da mensagem dos encapuzados têm eco em um país que vive sobre uma política baseada no fundamentalismo religioso, no supremacismo branco, no patriarco e na heteronormatividade.

O fundamentalismo religioso infelizmente não é nenhuma novidade para o país em que a igreja evangélica tem ocupado papel central. Desde a vitória enquanto presidente até a nomeação de ministros, há uma opção por figuras evangélicas e uma criminalização de outras religiões, em especial as de matriz africana.

Alterar o formato da família tradicional brasileira é motivo de ataque, em qualquer esfera. Recentemente, a marca Boticário apresentou uma propaganda para o Dia dos Pais cuja família era composta apenas por pessoas negras. A reação foi negativa, com dezenas de milhares de “dislikes” por parte do público, que não aceita um núcleo familiar que não seja branco.

Nesse cenário e frente àquilo apresentado na ameaça em vídeo, chama atenção a crítica feita pelos integralistas ao capital internacional e à burguesia. O integralismo não tem o objetivo de construir outro modelo econômico, que não seja pautado pela meritocracia, onde o enfrentamento às desigualdades é fator central.

A família patriarcal, branca, hetonormativa e a manutenção do evangelho como os preceitos orientadores da política nacional são fundamentais para a reprodução do capitalismo. E por isso esses valores são e serão defendidos de maneira irrestrita por grupos de direita. A crítica gera espanto porque se almeja desmontar qualquer mecanismo do Estado democrático de direito, ferramenta central para se imaginar uma sociedade nos parâmetros do liberalismo.

Bolsonaro e grupos de extrema de direita são uma ameaça para esses projetos, o Estado democrático de direito e o liberalismo. O atual presidente é aquele que a todo momento responsabiliza a “velha política” por não avançar com seus projetos e governa por meio de decretos presidenciais. É o presidente, desde Fernando Collor, que mais apresentou essa proposta para governar.

E o que resta a nós? Fazer uma defesa irrestrita do Estado democrático de direito? Pedir punição para esses terroristas?

Não acredito no punitivismo como saída. Que essas pessoas sejam localizadas pela polícia federal e presas, o nosso problema não se resolve. O fascismo e o autoritarismo extremo estão no cotidiano.

Cabe a nós apresentar uma outra perspectiva política para o Brasil. A esquerda e os setores progressistas, assustados diante da atual conjuntura, abrem mão a todo instante de princípios revolucionários e se movimentam cada vez mais para o centro. Defendem o “toma lá da cá” da política e fortalecem o imaginário de que é possível se fazer uma conciliação de classes no país.

O povo é material. A mudança precisa ser drástica, de melhora na qualidade de vida, com a ampliação de serviços públicos. E isso não é possível em conciliação com o grande capital. Não é possível se investir de maneira adequada para educação com o compromisso do pagamento de dívidas estratosféricas com o setor rentista.

A expectativa é que os movimentos negros, de mulheres, indígenas, LGBTs façam essa pressão e lembrem ao setor progressista o que é ser de esquerda. Apesar das minhas dúvidas e de sentir o desejo de apenas enegrecer ou tornar esses espaços mais femininos, o que não altera as estruturas, acredito que as mudanças radicais da sociedade virão desses setores.

Esses grupos, vítimas de um terrorismo de Estado cotidiano, são os possíveis responsáveis por um projeto que vá além do Estado democrático de direito burguês, pautado pelo rentismo e o neoliberalismo.