Instalação de esfinges no centro do Cairo causa polêmica

Por Bassem ABOUALABASS
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Esfinges do templo de Karnark, em Luxor, Egito, em 10 de março de 2020

Na icônica Praça Tahrir do Cairo, conhecida por seus engarrafamentos monstruosos, a instalação de quatro esfinges movidas alguns dias atrás de seu local original em Luxor (sul) provoca polêmica.

Com cerca de 3.500 anos, as esfinges com corpos de leão e cabeças de carneiro adornam há muito tempo o templo de Karnak, consagrado ao deus Amon, uma das principais divindades do panteão egípcio.

Sua transferência no início de maio para a Praça Tahrir, o epicentro da revolta popular de 2011, causou inquietação entre muitos moradores de Luxor.

"Sou contra a transferência das estátuas. Isso me entristece", disse Ahmed Idriss, deputado da província de Luxor.

"Luxor é um museu ao ar livre que deveria ter sido desenvolvido, já que o valor de seus monumentos está ligado à sua localização histórica", acrescenta ele.

As quatro peças de arenito foram colocadas em torno de um obelisco de granito rosa de três mil anos de idade, que conta com uma representação de Ramsés II, faraó da 19a dinastia (1301-1236 a.C.).

Este, por sua vez, havia sido transportado meses antes do sítio arqueológico de Tanis, no delta do Nilo.

- "Objetos inestimáveis" -

Esse projeto urbano, lançado pelas autoridades em 2019, provocou a fúria de arqueólogos, ativistas e acadêmicos universitários, principalmente devido à exposição dessas peças antigas à contaminação e erosão.

No final de 2019, um pedido para interromper o projeto foi enviado ao presidente Abdel Fatah al-Sissi.

Apoiando-se na Convenção de Veneza (1964) para a restauração e preservação de monumentos, os advogados do Centro Egípcio de Direitos Econômicos e Sociais (CECA), uma ONG local, iniciaram processos legais denunciando a ameaça a "objetos de valor inestimável".

A Convenção de Veneza foi adotada pela Unesco em 1974 e assinada no mesmo ano pelo Egito.

"A grande contaminação que existe na Praça Tahrir degradará os objetos (antigos)", que correm o risco de perder seu valor histórico, alertou a egiptóloga Monica Hanna no Facebook.

No coração da capital egípcia, a Praça Tahrir costuma estar engarrafada, cheia da fumaça de escapamentos de veículos.

Tahrir abriga vários edifícios importantes, incluindo o Museu Egípcio, que é muito popular entre os turistas, onde são exibidos milhares de objetos antigos, e o "Mogamma", um enorme edifício em estilo soviético com serviços administrativos.

Foi em frente ao "Mogamma", que os manifestantes da revolta que derrubaram Hosni Mubarak, após 30 anos no poder, se reuniram em janeiro e fevereiro de 2011.

Em dezembro, Sissi anunciou que a mudança para a praça das estátuas lhes daria um "toque de civilização".

No entanto, "Tahrir", que significa "Libertação", não deixa de ter história, lembra o arquiteto Ayman Badr.

"A praça não precisa ser decorada com elementos históricos (...) Seu valor histórico está em sua própria memória", considera.

Além disso, as autoridades planejam unificar a cor das fachadas dos edifícios que circundam a praça, aumentar a iluminação e reduzir o número de pôsteres publicitários.

Temendo que as estátuas sejam vandalizadas, o ministro do Turismo, Khaled al-Enany, disse que pedestais foram construídos "para que ninguém possa tocá-las".

- Atrativo -

A data de inauguração do novo conjunto é desconhecida: as esfinges e o obelisco aguardam em suas embalagens.

O patrimônio egípcio é um atrativo importante e incentiva o turismo, vital para a economia do país.

Como na maior parte do mundo, esse setor - que representa 5% do PIB egípcio - foi paralisado pela pandemia de coronavírus.

Apesar dos argumentos oficiais, Badr continua intrigado com a justificativa para o novo design da praça.

Na sua opinião, as esfinges e o obelisco serão "eclipsados" pelos imponentes edifícios que circundam a praça.

Mahmud Zaki, um guia turístico de Luxor, acredita que os opositores do projeto "não percebem" a glória que essas obras representam na "praça mais famosa do Egito".

Opinião compartilhada pelo egiptólogo Ali Abu Deshish: "Não faz sentido que haja obeliscos egípcios em praças ao redor do mundo e nenhum em Tahrir".