Inspirados no Inhotim, museus e galerias a céu aberto proliferam no país

·5 min de leitura
*** FOTO DE ARQUIVO *** BRUMADINHO, MG, 21.01.2020 - Vista de prédio do Instituto Inhotim, que é um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil. Inhotim também é considerado o maior museu a céu aberto do mundo. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** BRUMADINHO, MG, 21.01.2020 - Vista de prédio do Instituto Inhotim, que é um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil. Inhotim também é considerado o maior museu a céu aberto do mundo. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)

ÁGUA PRETA, PE (FOLHAPRESS) - Saem o cubo branco e as metrópoles, entram pavilhões em meio a jardins botânicos e obras ao ar livre em cidades distantes dos grande centros. Nos últimos 15 anos, esse retrato só podia ser do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, que o empresário Bernardo Paz transformou numa referência em arte contemporânea no mundo.

Nos últimos anos, no entanto, colecionadores enxergaram usinas e fábricas desativadas como potenciais museus e jardins botânicos, e investem em trabalhos de grandes proporções em outros estados do país.

Ainda que não cheguem a ter o porte do espaço de Brumadinho, espaços em São Paulo e Pernambuco têm investido em obras de artistas brasileiros de peso, como Regina Silveira e Nuno Ramos, e veem crescer público que busca passeios "seguindo todos os protocolos" ao ar livre.

Está permanentemente na Usina de Arte, em Água Preta, zona da mata do sul de Pernambuco, o labirinto cravejado de balas de Regina Silveira que foi um dos destaques da Bienal de São Paulo no ano passado, chamado "Paisagem", que a própria instituição financiou. Nesse espaço, um jardim botânico, inauguraram simultaneamente à obra de Silveira uma grande instalação de Matheus Rocha Pitta, "Um Campo da Fome".

Ricardo Pessoa de Queiroz e Bruna Pessoa de Queiroz idealizaram o projeto em 2015 na Usina Santa Terezinha, propriedade da família Pessoa de Queiroz que chegou a ser a maior produtora de álcool e açúcar do país nos anos 1950. Agora, após o período de restrições da pandemia e já com mais de 40 obras no acervo, eles viram um aumento do público no parque. Para Ricardo, com o fechamento de fronteiras, todos "voltaram para sua paróquia".

Eles respondem a esse público local —além da inauguração das duas obras recentemente, chegará ainda neste ano uma obra de Alfredo Jaar, "Claro-Escuro", que acabou de ter uma grande mostra no Sesc Pompeia.

Os 33 hectares comportam escola de música, biblioteca, festivais e oficinas gratuitas. Tudo foi feito "de maneira orgânica" segundo o casal, que viu o museu ganhar uma atenção inesperada com a produção de "Diva".

A obra de Juliana Notari, que abriu uma vulva gigante num dos morros da área, viralizou nas redes e sofreu uma série de ataques. Até um chamado "punhetaço" foi marcado nas redes sociais para vandalizar a obra, que acabou não acontecendo.

"A arte, de alguma forma, educa", diz Bruna Pessoa de Queiroz sobre onde quer chegar com a instituição. "Gosto de usar 'Diva' como exemplo porque a obra chocou o mundo, mas não chocou a comunidade evangélica da cidade. Por quê? Porque Juliana passou um ano aqui falando o que ela ia fazer, por que ela ia fazer e por que usar essa linguagem."

Esse ímpeto educacional e de fomentar o turismo nas cidades ao redor que os fundadores de todas essas instituições parecem ter não custa nada barato. Além do custo de manutenção, as obras têm cifras altas —e os espaços são majoritariamente bancados com dinheiro dos próprios fundadores.

É o caso também do Fama Museu, em Itu, no interior de São Paulo, que acaba de ser rebatizado de Museu São Pedro como uma homenagem à fábrica têxtil de mesmo nome que funcionava no espaço de 25 mil metros quadrados e que hoje tem mais de 2.000 obras. Marcos Amaro, o fundador, conta que a decisão veio para resgatar a história do local, onde já teve seu ateliê.

Isso será acompanhado de uma ampliação do acervo do museu criado em 2018 voltado à produção nacional. O pavilhão do Tunga será reformado e terá desenhos que estavam na mostra recente do artista em São Paulo.

Outro espaço será inaugurado ainda em maio com obra de José Spaniol que já ocupou o octógono da Pinacoteca de São Paulo. O trabalho "111", de Nuno Ramos, que retoma o massacre do Carandiru, também inaugura o espaço dedicado ao artista no museu nos 30 anos do assassinato em massa.

Depois dessa série de reformas, Amaro pretende reativar a Fama Campo, propriedade de 100 mil metros quadrados em Marinque, também no interior, dedicada à chamada "land art", e que hoje tem dois trabalhos —um de Marcia Pastore e outro de Carlito Carvalhosa.

Instituições já com uma longa trajetória, como a Oficina Brennand, no Recife, também passam por reformulações que reforçam esse caráter de espaço que é museu de peças gigantescas e também um passeio ao ar livre.

Mas por parte das galerias há o desejo de alcançar um outro público ao ir para os interiores do país. Na verdade, existe a expectativa que colecionadores que foram para suas casas de campo com a reclusão da pandemia olhem com mais atenção para essas grandes obras que só caberiam mesmo num grande terreno.

A DAN Galeria, que está em São Paulo desde os anos 1970, abriu no fim do ano passado um espaço em Votorantim, também no interior do estado.

"Sentíamos a necessidade de ter um espaço mais generoso para esculturas e obras de maiores formatos de artistas históricos e contemporâneos", conta Flávio Cohn, proprietário e filho do casal fundador, Gláucia e Peter Cohn. Só nesse novo local eles conseguiram fazer uma mostra de Franz Weissmann, escultor austríaco radicado no Brasil, que planejavam há anos.

O galpão, que também tem um espaço com gramado e sem teto, fica dentro de um condomínio que tem até heliponto. É uma localização com poucas opções de museus, lembra Cohn, em que pode ser bem-vindo um novo aparelho cultural.

Mas também um espaço com uma série de condomínios com grandes casas esperando serem ocupadas por grandes trabalhos. "Com a pandemia, há demanda de colecionadores que começaram a se mudar e ir para fora de São Paulo", conta o galerista.

"Este é um movimento que parte de instituições, mas que também provoca colecionadores a criar coleções privadas em espaços que são abertos. Este é um mercado que está começando a se desenvolver, e há ótimos artistas brasileiros que precisam de um espaço aberto e amplo."

*A jornalista viajou a convite da Usina de Arte

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos