O que o vídeo de uma influenciadora fitness dançando com a funcionária nos ensina sobre racismo

Juju Norremose pediu desculpas por um vídeo que postou junto com o marido e a empregada, Luciana (Foto: Instagram)

O vídeo viralizou rápido, mas não por ser divertido. No último final de semana, imagens da influenciadora fitness Juju Norremose dançando ao lado do marido, Sergio Bruno, e da funcionária de serviços gerais, Luciana, deixaram muitos internautas incomodados. 

Isso porque, no vídeo, Luciana aparece com roupa de trabalho, inteira branca, e um pano na mão enquanto exerce a sua função de cuidar da casa. Na legenda: "Ela voltou! E agora pra ficar". 

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Dá para entender o porque da discórdia: para muitos, o vídeo indicava o retorno de Luciana ao trabalho, no meio de uma pandemia de coronavírus - e muito se discute, desde o começo, a necessidade dessas profissionais continuarem a colocar a si mesmas e a própria família em risco enquanto mantém a rotina de trabalho. 

Por outro, é um momento delicado o que vivemos. No meio de tantos protesto exigindo direitos iguais à comunidade preta, o fim da violência policial, e toda a efervescência sobre o gap social no Brasil, imagens como essas podem causar uma série de desconfortos porque remetem ao nosso passado escravocrata. 

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Como era de se esperar, logo o vídeo foi delatado e um pedido de desculpas, publicado nos Stories. Nele, Juju explica que a legenda não tinha relação com o fato de Luciana voltar a trabalhar por conta da quarentena, mas porque, depois de dois anos, ela voltou a "fazer parte família". E, segundo a influenciadora, o pedido de voltar veio da própria Luciana, que vive com a mãe, uma pessoa de idade e, portanto, parte do grupo de risco do covid-19. 

Já se fala muito sobre o papel dos influenciadores em uma fase tão complicada da política, economia e saúde pública do Brasil e do mundo, e a história de Juju parece só aumentar a necessidade de reflexão. Tanto porque o caso está longe de ser o primeiro desse tipo que vimos durante o período de isolamento social. 

A atriz Isis Valverde, por exemplo, foi amplamente criticada por um motivo semelhante. Publicando pequenos vídeos em que comentava a importância de todos ficarem em casa, ela dizia que estava fazendo a sua parte e que iria, inclusive, fazer o jantar para a família, além de pedir para os seguidores não saírem. Ao fundo, era possível ver uma de suas funcionárias trabalhando. 

Isis também usou o perfil no Instagram, depois, para explicar a situação. Segundo ela, todos os seus funcionários foram dispensados, mas um deles, Claudia, preferiu ficar para "fazer companhia" à atriz e seu filho, Rael. Ela conta que Claudia trabalha para ela há mais de 10 anos e não tem familiares no Rio de Janeiro - ou seja, ela ficaria sozinha na quarentena. 

Nos Estados Unidos, um dos casos mais polêmicos dessa fase foi o da influenciadora Arielle Charnas. Não só ela foi criticada por ter usado os seus contatos para fazer um teste de COVID-19 (que confirmou o seu diagnóstico positivo), como foi contra as determinações do prefeito de Nova York e deixou a cidade em direção ao litoral para passar a quarentena. As críticas vieram porque ela, na posição de influenciadora, compartilhou tudo nas redes sociais e ainda levou a babá dos seus filhos junto na viagem - outro ponto crítico para os seguidores. 

A questão de Arielle foi ainda mais chocante porque, ao contrário do Brasil, os Estados Unidos não contam com um sistema público de saúde, e tanto testes quanto interações só podem ser feitos via laboratórios privados, o que sai uma fortuna para o cidadão comum. A babá de Arielle, assim como seu marido e filhas, também testaram positivo para o vírus, mas todos passam bem após o período de isolamento. 

Voltando à história de Juju, o que gera desconforto são dois pontos principais: o primeiro é o fato, bastante óbvio, de Luciana ser preta e Juju e o marido, brancos. Isso remete ao passado violento de escravidão que tivemos no Brasil em que os escravos pretos eram comprados para trabalhar na casa dos patrões brancos. E o segundo é o velho discurso de que a funcionária de serviços gerais é "como alguém da família", mas que, claramente, não tem os mesmos direitos ou recebe o mesmo tratamento que um familiar. No caso do vídeo, o fato de Luciana estar trabalhando e parar uma tarefa para participar da brincadeira é um indicativo dessa desigualdade. 

Quando a quarentena foi decreta em muitos estados do Brasil, inclusive São Paulo, muito se discutiu sobre o que fazer em relação a profissionais liberais, como funcionários de serviços gerais, cozinheiros ou jardineiros. Principalmente porque, como o Brasil é um país extremamente desigual e sem uma cultura de planejamento e distribuição mais justa de recursos, muitos deles ficaram sem fonte de renda e sem possibilidade de sustentarem a si mesmos e às famílias caso os contratos fossem cancelados do dia para a noite. 

Essa é uma discussão longa e que exige muito estudo e diálogo. Toda pessoa branca pode partir do princípio que é racista e usar dos seus privilégios para entender porque ações como essa são racistas e reforçam estereótipos de raça, além de serem ofensivos para boa parte da população. Pelas postagens na rede é isso que Juju tem feito. Pode-se esperar, apenas, que essa seja uma atitude sincera e, mais do que isso, que seja adotada por outros como ela e que colaborem para mudanças efetivas na forma como nos relacionamos.