Índice de depressão aumentou nos últimos anos; população LGBTQIA+ e negra são mais vulneráveis

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População LGBTQIA+ e negra são mais vulneráveis quando falamos de índices de depressão (Foto: Getty Images)
População LGBTQIA+ e negra são mais vulneráveis quando falamos de índices de depressão (Foto: Getty Images)

Embora ainda seja tratada como um tabu por parte da sociedade, a depressão é uma doença crônica que afeta diretamente o bem-estar de quem sofre com os sintomas – e necessita de tratamento levado a sério, como qualquer outra comorbidade.

Nos últimos anos, a incidência de depressão, doença que, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), é a mais incapacitante que existe, aumentou significativamente. Dados do PNS (Pesquisa Nacional de Saúde), usado para caracterizar as tendências socioespaciais da situação de saúde e dos estilos de vida da população brasileira, mostram que, entre 2013 e 2019, o percentual de adultos (maiores de 18 anos) com sinais da doença aumentou de 7,9% para 10,8%.

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Para chegar aos números, a pesquisa utiliza um questionário que mede a frequência com qual os cidadãos apresentaram sintomas depressivos – ainda que não seja um diagnóstico.

De acordo com o Ministério da Saúde, as causas gerais da depressão estão relacionadas a três fatores distintos (muitas vezes, pacientes sofrem com mais de um deles):

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  • Genética: estudos com famílias, gêmeos e adotados indicam a existência de um componente genético na doença. Estima-se que esse componente represente 40% da suscetibilidade para desenvolver depressão;

  • Bioquímica cerebral: há evidencias de deficiência de substancias cerebrais, chamadas neurotransmissores. São eles Noradrenalina, Serotonina e Dopamina que estão envolvidos na regulação da atividade motora, do apetite, do sono e do humor;

  • Eventos específicos: episódios que causam alta carga de estresse podem desencadear quadros depressivos naqueles que tem uma predisposição genética a desenvolver a doença.

Por que mais pessoas estão deprimidas?

Existem inúmeras explicações potenciais para as mudanças nas taxas de depressão. “Uma delas é a quantidade de pessoas em cidades grandes, que está sempre aumentando”, diz Danielle Admoni, psiquiatra da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina). Os locais ficam superlotados e com grande disputa de trabalho, explica a médica. 

Além disso, há ainda estresse causado por pressões financeiras, poluição e até a falta ou limitações de espaços verdes – já que a natureza é um fator que contribui para a saúde mental.

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Outros fatores, mostra um estudo publicado no Journal of Affective Disorders, como o PIB per capita dos países (quanto maior a desigualdade econômica, maior incidência da doença), a presença de outras doenças crônicas, e estilos de vida solitários e também sedentários, sem a prática de atividades físicas, também podem influenciar na depressão. “As populações modernas estão cada vez mais superalimentadas, desnutridas, sedentárias, deficientes em luz solar, privadas de sono e socialmente isoladas. Cada uma dessas mudanças no estilo de vida contribui para a má saúde física e afeta a incidência e o tratamento da depressão”, escrevem os pesquisadores.

Há também, aponta Admoni, a questão de que mais diagnósticos de depressão têm sido realizados nos últimos anos. “Até recentemente, muitas pessoas ainda achavam que a doença era frescura. A psiquiatria também se popularizou. Médicos de outras especialidades, como ginecologistas e clínicos gerais já sabem reconhecer os sinais e fazem encaminhamentos para consultórios psiquiátricos quando julgam necessário.”

Populações em maior risco de depressão

A análise do PNS mostra desigualdades na prevalência da depressão no Brasil. As mulheres apresentam maior proporção de depressão do que os homens. O mesmo ocorre com pessoas de menor renda em relação às de maior renda.

Considerando que os negros são 75% da população mais pobre do Brasil, de acordo com dados do IBGE, eles automaticamente fazem parte desse grupo.

Há ainda, como explica o psiquiatra Dinálio Bulhões, docente do departamento de Neurociências e Comportamento da UNIFACS (Universidade Salvador), o fator do racismo direto ou estrutural (ações discriminatórias menos evidentes, que por vezes se disfarçam como brincadeiras ou mal entendidos). 

“Estressores sociais são fatores que devem ser levados em conta. Doenças surgem a partir de alterações orgânicas. Em uma situação de estresse pontual, seu organismo se adapta para receber aquela carga. Se isso acontece sempre, como para alguém que vivencia racismo, a tendência do surgimento de sintomas é maior, por ser um fator de risco.”

Em 2018, uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que jovens negros do sexo masculino e idades entre 10 e 29 anos são os que encaram o maior risco de morrer por suicídio. A probabilidade entre brancos foi considerada 45% menor. Já a pesquisa mais recente do PNS aponta que os negros receberam menos tratamento do que pessoas brancas para a depressão – quadro que pode estar ligado à situação econômica e social.

A população LBGTQIA+, por também sofrer discriminação e diferentes tipos de violência, também sofre mais com a doença. “Toda a marginalização que esse grupo vive, de muitas vezes não ser aceito pela família, pelos amigos e pela sociedade em geral, e por isso não conseguir viver situações normais de estudo e trabalho, por exemplo, os coloca em risco para a depressão”, indica Danielle Admoni. Os resultados podem ser trágicos e até causar a morte, como foi com Lucas Santos, filho da cantora de forró Walkyria, que cometeu suicídio após receber comentários agressivos na internet.

Os profissionais de saúde, aponta a médica, precisam estar prontos para atender qualquer pessoa com a mesma qualidade e entendimento. “Quanto maior contato com grupos diversos durante a formação dos médicos, menor será o preconceito e o receio de atender pessoas diferentes.”

Com a pandemia, índice de depressão deve subir ainda mais

Os casos de depressão e ansiedade cresceram mais de 25% no mundo em 2020 devido à pandemia da covid-19, de acordo com um estudo recente publicado na revista científica The Lancet. Especialistas apontam que só alguns anos após a pandemia que será possível avaliar completamente os impactos na saúde mental.

“Dentro do reino animal, não existe outros mecanismos a não ser luta e fuga. Já para os seres humanos, há a necessidade de convivência, e nos últimos anos, ficamos socialmente mais restritos”, aponta Bulhões.

A recomendação do médico é que, ao sentirem sintomas característicos da depressão, como tristeza persistente, falta de prazer em realizar atividades que antes eram agradáveis, cansaço e sonolência extrema, as pessoas não tenham vergonha de buscar ajuda. “A gente vive um momento muito delicado em que a saúde mental foi colocada à prova. Ninguém precisa viver num lugar de sofrimento, por isso o tratamento é essencial.”

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