Inauguração de suíte BDSM tem Bruna Surfistinha e Dreadhot

Suíte de motel para os fãs de '50 Tons de Cinza'(Foto: Taba Benedicto/Divulgação)

Por Felipe Abílio (goabilio)

“Motel inaugura suíte ambientada no universo BDSM”. Quando essa mensagem pipocou na caixa de e-mail deste jornalista no início da semana, a promessa de um “sábado” no meio da quarta-feira parecia querer colorir a semana cinza.

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A cobertura de 100 m², duas vezes maior que meu apartamento, prometia muito conforto com uma banheira de hidromassagem de vidro, ducha balada coletiva, espaço para até 30 pessoas e vista para a ponte Estaiada, na zona sul de São Paulo.

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Felipe Rua, um dos sócios do Swing Motel, recebia os convidados que chegavam no quarto 58. Em um bate-papo logo na entrada, ele contou que a inspiração do projeto veio por conta de pedidos dos clientes que queriam um ambiente inspirado no filme ‘50 Tons de Cinza’.

“Percebi que já existe no mercado lugares que copiam o cenário do filme, então pesquisamos o universo BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e criamos algo com a nossa própria identidade. Trouxemos o mobiliário sensual, a cruz da amarração (submissão), a poltrona... A ideia é trazer um pouco de luxo, já que esse universo geralmente está ligado à marginalidade”, disse, aguçando a curiosidade.

Convidados especiais

Raquel Pacheco em inauguração (Foto: Taba Benedicto/Divulgação)

A lista de convidados também era interessante. Novatos e veteranos que circulam no imaginário sexual de quem é ligado em conteúdo adulto nacional estavam entre os presentes. Raquel Pacheco, a própria Bruna Surfistinha, era uma das mais aguardadas. Usando um vestido tubinho preto e salto alto, ela chegou de táxi acompanhada da assessora. Assim que foi apresentada ao sócio do local, Rachel fez uma revelação: “Já vim muito aqui quando fazia programa”.

Raquel Pacheco ficou famosa no início dos anos 2000 ao criar um blog para pontuar a qualidade do sexo dos clientes. O livro com sua história: 'O Doce Veneno do Escorpião’, saiu em 2005 e foi um dos mais vendidos do país. Virou filme em 2011, com direção de Marcus Baldini, estrelado por Deborah Secco. O longa foi a segunda maior estreia daquele ano, arrecadando US$ 12,36 milhões. Em 2016, a história inspirou o roteiro da série 'Me Chama de Bruna’, da Fox, renovada para a quarta temporada este ano.

A vida de garota de programa ficou no passado. Hoje, Raquel vive dos direitos autorais que recebe das obras, além de dar palestras e workshops sobre sexualidade para mulheres. Esses cursos também estão disponíveis na versão online nas redes sociais dela. Mas ao entrar no ambiente com inspiração BDSM, a ex-garota de programa relembrou uma situação curiosa que viveu na época em que se apresentava como Bruna.

“Nunca questionei o cliente que pedia para realizar fetiches. Mas me preocupava muito, ainda mais quando envolvia podolatria com salto fino. Teve um cliente que queria que eu andasse com o salto mais fino pelo corpo dele deitado no chão. Fiquei pisando e comecei a ver que estava formando marcas. A minha preocupação era de estar machucando, mas ele falava que queria que machucasse mesmo. Tive que aprender a lidar, a dor é um prazer nesse meio do fetiche.”

Dos fetiches que realizava como Bruna, Raquel levou para vida pessoal a frase “um tapinha mais forte é gostoso”, mas só entre quatro paredes. Ao ver os detalhes da suíte, que envolviam a cruz com algemas, uma hidromassagem e o palco com pole dance, a empresária fez uma expressão triste. “Só não tem o boy para curtir”, lamentou por estar solteira.

Dreadhot e Alemão

Dreadhot e Alemão em inauguração de suíte (Foto: Taba Benedicto/Divulgação)

Do outro lado do quarto, Vitória Schwarzeluhr, a Dreadhot, tomava um moscow mule conversando com o “namorido” José Carlos, conhecido como Alemão. Há três anos no mercado adulto, Dreadhot começou como camgirl, fazendo vídeos caseiros com Alemão. Atualmente, os dois são sócios em uma produtora de filmes adultos alternativos. Ela foi a maior vencedora do Prêmio Sexy Hot 2019, levando três estatuetas. O ambiente fetichista estimula a imaginação da empreendedora, que pretende atuar mais na direção com o objetivo de revolucionar o mercado de filmes adultos.

“Não falo muito o termo ‘pornô feminista’ porque para os machos escrotos é ‘feminazi’, então falo que é pornô para todo mundo, para atingir essa massa também. É um pornô mais ético, tem uma estética mais maneira, tem luzes, uma história legal. A mulher não é o objeto da relação, é o agente da erotização, ela está ali para gozar também. É muito diferente do mainstreaming.”

Além dos trabalhos no mundo adulto, Dread ganhou fama nas redes sociais. Ela soma mais de 1,2 milhões de seguidores no Instagram e Youtube. Na plataforma de vídeos, ela fala com naturalidade sobre assuntos sexuais diversos, tira dúvidas e recebe convidados no 'QG da Dread’. A última investida foi o lançamento de seu primeiro videoclipe como cantora. “Filha do Fogo” traz outra faceta da jovem de 26 anos se arriscando em trap (um sub gênero do rap). A faixa é dançante e o clipe não fica atrás daqueles feitos por divas conhecidas.

Dominatrix

Mel Fire (Foto: Taba Benedicto/Divulgação)

Nossa conversa é interrompida pela empolgação de encontrar uma amiga, a também atriz premiada Mel Fire, que parou o ambiente com um look vermelho, totalmente dominatrix. Mel também é massagista tântrica há 10 anos, comanda um SPA em São Paulo, além de ser especialista em pole dance. Ela já dançou para Justin Bieber em Las Vegas (EUA), e se apresentou em países como Alemanha, Itália, Estados Unidos, Nova Zelândia e Japão. Dentro do universo fetichista, é chamada de dominadora.

“Tive uma mentora em Londres. Os escravos vinham me pedir coisas e eu não fazia ideia do que eles estavam falando, mas aí comecei a me envolver e entender. Trago isso para o universo da massagem, uma coisa mais fetichista mesmo. Geralmente são pessoas iniciantes, então precisamos ser mais leves para não assustar.”

Mel trabalhava como promotora de eventos quando teve algumas fotos íntimas vazadas na internet por um ex-namorado. Após dias arrasada, em prantos, ela começou a receber propostas para vender seu material por meio das redes sociais, viu ali a chance de transformar aquela situação em dinheiro.

“Essa vida já me deu a chance de conhecer muitos lugares, muitas pessoas, me deu flexibilidade de escolher o que vou fazer, não ter que ficar presa em um escritório. Meu sustento vem da massagem, filme faço por hobby. Só me interessa quando tem uma história legal e acho que vai acrescentar alguma coisa na minha carreira. Por isso, faço muitos sozinha, como eu quero.”

Em um piscar de olhos, Mel já estava seminua mostrando suas habilidades como dançarina para os convidados. Em determinado momento, ela contou com a participação especial de Dreadhot na apresentação, com direito a beijo na boca no final. Tudo no improviso mesmo.

Quando os convidados acharam que tinha acabado, dois casais usando couro e abusando da sensualidade surgiram em cena, esquentando na ficção o que poderia ser uma festa real. A produção do evento acertou no clima.

Enquanto esperava o uber do lado de fora ao final do evento - sim, era um evento para imprensa —, notei uma das funcionárias do estabelecimento inquieta com o que tinha acabado de viver.

“Em 42 anos, nunca tinha visto isso na vida, menino”, disse numa mistura de empolgação e curiosidade. Ao ser questionada se tinha apreciado os shows e o clima da suíte, ela foi direta: “Largava meu casamento de 20 anos e ia embora com eles”, disse às gargalhadas.