Jornalismo metido a besta

Mauro Beting
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Christopher Reeves como Superman e Clark Kent FOTO Warner Bros. Pictures/Getty Images

Não assisto ao BBB. O primeiro até vi um pouco. E não vi mais. Tenho a mesma opinião do pai do Boninho a respeito do programa do filho dele.

Mas falando em respeito, respeito opiniões distintas. Muita gente adora reality show (SIC). Muita gente que admiro. Milhares que respeito. Não trabalho nas Organizações Bloch para bloquear muitos a torto e sem direito como comunicador social só por discordarem do que penso.

Não é pelo social. É pela comunicação mesmo. Pelo respeito. Pelo debate. Pela democracia.

Do pouco que sei de BBB, sei que a imprensa está virando a Lumena de 2021.

Só nós podemos poder. Só nós podamos sem pudor.

Só nós sabemos o que fazer.

Quem Deus pensa que é? O Clark Kent?

Lamento muito o brasileiro gostar tanto de BBB, Fazenda e congêneres e congestões. Como também lamento muito eu gostar de tantas outras coisas que milhões devem deplorar. E talvez eu perca mesmo meu tempo com isso.

Mas, de novo: o tempo é meu. Como é seu. Do outro. E é preciso respeitar.

A base de tudo: respeito. Amar é fácil. Minha família, nosso Palestra, amigos, pizza, meu ofício. Amo fácil.

Respeitar o contrário, às vezes o oponente, o contraditório, o difícil, o "mau gosto" (na minha opinião), o diferente, isso requer mais... Respeito.

Algo que coleguinhas à minha esquerda e à sua direita não querem entender. Ou só pregam pra eles. Pregando no poste e nos posts quem pensa diferente. Marretando com marra e murros por birra. Detonando muros que não devem segregar e nem sangrar. Mas que podem servir como postos de observação para se ver os vários lados da questão. Para observar como o mundo em cima dos muros é: colorido, plural, multifacetado.

Não só com a carranca ranheta.

Os amiguinhos que se levam muito a sério já são motivos de riso. E mais ainda os coleguinhas que levam a ferro e feno a piada do genial Millor de que "jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados". Por óbvio ela já soa datada. E é uma blague. Não um mote pra todo blog.

A récua então passa a régua e começa a se opor a beijo de avó, pizza, energia elétrica, ar condicionado, cafuné, benemerência, compaixão, solidariedade... Ou toleram. Desde que da patota. Se não for, bota a patrulha na rua contra quem não é da sua.

Mal que é tanto da esquerda que "lacra" quanto da lavra da direita que lucra. Cavalgaduras que bovinamente pastam e postam coliformes mentais que defecam como regras. Bloqueiam detratores e/ou defecadores com mata-burros suicidas, no onanismo intelectual jactante que jorra empáfia e embrutece até os mais equilibrados que tentam ver os vários lados das questões.

Diga-se: isenção que é básica no exercício do meu ofício e que agora virou defeito... "Isentão" virou crime.

Pior. Interpretação de texto que é um atentado ao pudor e poder.

Falo por mim: em qualquer assunto eu me posiciono. Ou tento. Do meu time ao meu voto. Do meu veto ao meu desgosto. Sou da tese que "passar pano" (frase madura como teletubbie dos mesmos criadores de "mimimi") é atitude que mais limpa e esclarece do que minimiza ou esconde. Não preciso passar a patrola para nivelar o diálogo. Não preciso incinerar o embate e nem incensar o debate. Não sou inquisidor. Apenas pergunto. Não sou Torquemada. Não torturo fatos. Torço pelos meus. Mas não distorço o dos outros.

Não pertenço a patotas nem para me defender ou nem atacar ideias alheias. Aliás, para defender não é necessário sempre atacar.

Para ser jornalista não precisa ser só oposição (inclusive aos fatos). Não precisa ser só inconveniente, partidário, boçal, mal humorado, amargo, grosseiro, ex-craque, escroque, parcial, interesseiro, fofoqueiro, metido, arrogante, sabichão, intocável, irascível, solitário. Posso buscar a melhor versão possível dos fatos com rigor, respeito, distanciamento (tão ruim quanto ser muito parça das fontes é ser muito inimigo delas...), independência, isenção, bom humor, bons tratos, boa educação, humildade, modéstia.

A imprensa não é o quarto poder. Mas é a primeira muitas vezes a perder o pudor pelo jornalista se achar a notícia.

Nem todo jornalista é uma besta quadrada. Pode ser redonda. Mas nos últimos anos temos visto muitos repórteres metidos a besta. E muitas bestas metidas a repórter.

Um pouco mais de respeito e equilíbrio. Só isso que deveria ser pauta.

Sem bloqueios.

Só debates.

Não é pra dar like. É pra clicar pra ver se funciona. É para compartilhar ideias. Não restringir, silenciar e bloquear haters. Reitero meu dever pelo diálogo. Essencial como jornalista e cidadão. Para que o jornalismo não seja tratado como nós estamos destratando as pessoas. Desidratando o debate