'Ilusões Perdidas' expõe eternidade dos dramas da vida política francesa

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FOLHAPRESS - Em 2017, os cronistas que tentaram escrever o romance da vida de Emmanuel Macron, na altura um ilustre desconhecido que se elegeu presidente da França do nada, rapidamente se viraram para Lucien de Rubempré, o célebre personagem de Honoré de Balzac.

Personagem principal de "Ilusões Perdidas", o maior romance da "Comédia Humana", descrita por Marcel Proust como a obra prima do autor, ele personifica o desejo intemporal do francês comum de triunfar em Paris, a capital transformada em fortaleza inacessível pela França jacobina. A sua adaptação ao cinema, celebrada no país e vencedora de vários prêmios, chega às salas brasileiras nesta quinta-feira (16).

Se a era do sacrifício dos longas metragens no altar das séries televisivas e da globalização dos roteiros acentuou o declínio intelectual do cinema americano, ela provocou uma euforia criativa na produção francesa. Devidamente apadrinhados por Gerard Depardieu, os protagonistas Vincent Lacoste e Xavier Dolan fazem parte da nova geração de atores francófonos que cresceu no esteio de Omar Sy, Léa Seydoux e Jean Dujardin, responsáveis por renovar a presença francesa em Hollywood.

O sucesso de séries como "Dix Pour Cent" abriu as portas das superproduções aos diretores franceses. Com o orçamento quatro vezes superior à média de um filme local, "Ilusões Perdidas" combina a sofisticação do detalhe de um Luchino Visconti e a exuberância de um musical de Anne Hathaway, sem jamais abdicar da crítica social que caracteriza a cinematografia francesa.

Cenas festivas que flutuariam como intervalos publicitários em um filme qualquer são complementadas por poderosas narrativas literárias que decorticam as relações de poder dos personagens envolvidos.

A vontade de tudo explicar, que no limite pode ficar cansativa, parte do desejo do diretor Xavier Gianolli de cutucar a atualidade com um romance histórico. Impossível não ver a sua tentativa de traçar um paralelo entre as tramas dos jornalistas, diretores artísticos e magnatas dos negócios dos mundos da França da Segunda Restauração (1815-1830) e do governo "jupiteriano" de Macron, ambos verticalizados por uma elite convencida do seu vanguardismo.

O efeito de espelho entre passado e presente coloca a sua obra na continuidade do trabalho clássico de Andrzej Wajda, que, em 1983, nas vésperas da celebração do bicentenário da Revolução, produziu "Danton" para denunciar a idealização do mundo soviético pela esquerda ocidental. Conta o New York Times que, no dia da estreia, François Mitterand deixou a sala antes do final para fugir das perguntas sobre a mensagem política do filme.

Emmanuel Macron ainda não se manifestou sobre "Ilusões", um filme à imagem da França triunfante e global que ele tanto exalta, mas que não deixa de ser uma das críticas mais sofisticadas ao seu reinado. Em todo caso, o nativo da adormecida Touquet já pode dizer que superou Rubempré. A sua professora de juventude virou a mulher da sua vida, e o regresso à província, a humilhação suprema para todos os arrivistas, foi indefinidamente postergado pela sua reeleição.

Porém, os coletes amarelos e os caras pálidas da nova coalizão da esquerda arquitetada por Jean-Luc Melenchon estão aí para lembrar que o sucesso nas arcadas do poder ainda se paga com o ódio das massas. "Ilusões Perdidas" é um filme de época sobre a eternidade dos dramas da vida política francesa.

ILUSÕES PERDIDAS

Classificação 16 anos

Elenco Cécile de France, Vincent Lacoste, Xavier Dolan, Salomé Dewaels, Gérard Depardieu

Produção França

Direção Xavier Giannoli

Avaliação Muito Bom

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